Por Celinha Nascimento

A terceira palavra que escolhi para esta pequena série de postagens retirei de uma militância antiga. Falamos de Solidariedade, Isolamento e agora um pequeno mergulho na Fabulação.

Fabular é um verbo pouco usado, sendo mais comum utilizar sinônimos como criar, inventar, imaginar, narrar fantasias. Mas a palavra fabular é mais rica, ela vai mais longe. Ela nos fala de um estado físico e emocional que obriga nosso corpo a sonhar, a dar um salto para fora do cotidiano, a não se conformar com a realidade e trabalhar no sentido de interferir, melhorar, entender, recriar cenários reais. E ainda mais importante, a fabulação permite que depois esses voos para fora da realidade, seja possível compreendê-la com ainda mais precisão.

Fabular é um estado físico, intelectual e afetivo que nos aproxima de um outro que não sou eu. Fabulação é um caminho e uma ferramenta não de fuga do ordinário (e aqui ordinário é uma excelente palavra), mas para um mergulho em suas entranhas mais profundas que nos traga uma opção extraordinária!

Assim como solidariedade e isolamento social foram alçados a Direitos Humanos diante dessa pandemia, também a Fabulação pode ser assim recebida.

Diante de uma tragédia sem nenhum precedente ou nada que a equipare, a fabulação cumpre sua função de dar um respiro, de abrir uma janela. Aqui tomo um poema de Mario Quintana emprestado que não poderia ter título mais apropriado neste momento:

Emergência:
“Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tú que estás numa cela abafada.
esse ar que entra por ela
Por isso é que os poemas tem ritmo
–Para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado”.

Já é bastante conhecida a importância da arte para a vida cotidiana. Nem é preciso nos deter sobre esta questão pois muito se tem escrito e pesquisado sobre este vasto tema e o acumulado desse conhecimento está à disposição. Sabemos das lutas para garantir, em especial nas escolas, momentos de experiências artísticas, visitas a museus e demais espaços criativos, salas de leitura, contatos com as artes mais variadas. Neste tempo de isolamento, muito se tem falado da importância de manter conexões com a música, o cinema, a literatura. A dureza da realidade pede fabulação.

A escola tem sido uma aliada e uma fonte quando o assunto é arte. Muitos alunos têm contato com a expressão artística via salas de aula. Bonito ver que esta característica não foi abandonada e que este compromisso continua sendo honrado durante a pandemia.

Não menos importante, lembrar que somos todos capazes de fabular, de criar histórias, de pintar, rabiscar, contar uma ótima piada, fazer graça, de criar cenários. Podemos não ser artistas, mas certamente somos todos criadores.

Esta é uma condição da humanidade desde que começou a desenhar em suas escuras cavernas.

Não poderíamos fazer esta postagem sem referenciar o professor que primeiramente lançou a ideia de Literatura como Direito Humano. Antônio Cândido, nosso mestre.

A ele e aos demais companheiros de jornada aqui mencionados, nossos agradecimentos por dedicarem seu tempo e sua energia ao trabalho de manteros ideais de fabulação e justiça social completamente alinhados.

Abaixo, conteúdos que complementam minha proposta sobre Fabulação e pandemia: 

Antonio Candido

Antonio Candido foi o primeiro a colocar a fabulação e a literatura como Direito Humano num famoso e antológico artigo:

– Antonio Candido, do ensaio “O direito à literatura”, no livro “Vários escritos”. 3ª ed.. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

Neste texto, o pensador reafirma sua posição humanista e sua defesa incansável para que os bens culturais estejam a disposição de todos e não apenas de uma elite. 

Dois excertos e um pequeno vídeo para animar a ler o artigo em sua íntegra.

“ (…) a literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.” 

(…) a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas.” 


POLs – Salas de leitura

Os POSLs – Professor Orientador de Sala de Leitura – da Rede Municipal de Educação de São Paulo fazem importante trabalho durante a pandemia para manter seus alunos em contato com as leituras e livros. Nosso afetuoso abraço a estes educadores que inventam maneiras de não deixar seus alunos sem boas histórias. Abaixo, três exemplos desse trabalho para que acompanhem e compartilhem: 


CEIs e EMEIs na rede

CEIs e EMEIs utilizam as redes sociais para manter crianças e suas famílias em comunhão não só como espaço escolar, mas com momentos de fabulação entre todos: 

CEI João Ubaldo Ribeiro

Saraus e slams seguem vivos na internet. A quebrada nunca se cala!

A matéria do Estadão aborda os Encontros – agora online – de slammers das periferias:

“Nossos encontros presenciais costumavam ter 300 pessoas. Em uma noite boa, vinham umas 500. No digital, está sendo mais ou menos isso. A live do YouTube cai algumas vezes, pois temos que ter uns 10 poetas competindo. Então, estamos dividindo as apresentações em partes para a rede não ficar pesada”, conta Alcalde, que é um dos organizadores. “No online, é mais frio, mas, por outro lado, acaba vindo pessoas de várias regiões do País. (…)

Grande parte dos slammers é jovem de baixa renda e vive da arte para sobreviver, vendendo livros, recitando poesias nos trens ou cantando em locais públicos. Como tudo parou, a maioria está com dificuldades financeiras e a equipe do slam resolveu ajudá-los com prêmios em dinheiro a cada transmissão ao vivo, usando a verba que recebe do Programa Municipal de Fomento à Cultura da Periferia.”


Casa Poética – vivências artísticas

Diz o portal oficial da Casa: “CASA POÉTICA é sonho. De transformação da quebrada. De lirismo entre becos e vielas. De mostrar que somos mais do que muitos pensam: nada. Periferia pulsante. Com livros e cursos. Formações e eventos. Saraus e slams juntos. Por nossas crianças. Jovens e adolescentes. Um desejo que há muito tempo estava em nossa mente. Agora, se tornou nossa prática.

Idealizada pelo escritor e educador Rodrigo Ciríaco, com apoio do JOVENS E ADOLESCENTES do coletivo Mesquiteiros, que há mais de 14 anos realiza um trabalho artístico e pedagógico a partir de escolas públicas, bibliotecas, ocupações e centros culturais em Ermelino Matarazzo, São Paulo e todo Brasil.

Mas do que um espaço cultural, queremos ser uma Casa de sonhos. Afetos. Em que todes os amantes das artes, cultura e educação possam ser bem-vindes”.

Inaugurada em plena pandemia, tem funcionado como centro de solidariedade e distribuição de cestas básicas. Cumpre com vigor seu compromisso com a comunidade.

A poesia está em todo alimento doado. Abaixo o vídeo da inauguração da Casa Poética, produzido pelo Mídia Ninja. 


Quem não respeita seus mortos, não respeita nada

A escritora Rosa Montero associa a obra Ilíada à Pandemia, num artigo completo e maravilhoso do El País, que destaco um trecho:

“Já dizia a Ilíada, esse livro de quase 3.000 anos que hoje continua a nos falar com eloquência. Quando Aquiles, envenenado pela raiva, mata em combate o nobre príncipe Héctor, comete assim a maior e mais inconcebível das iniquidades: amarra o cadáver pelos tornozelos a seu carro de guerra e o arrasta e o mantém à intempérie durante 12 dias. Uma noite, o velho rei Príamo, disfarçado, tem que ir ao seu acampamento e suplicar de joelhos ao feroz Aquiles para que lhe devolva o cadáver do filho (o que ele consegue, aliás)”. (…)


#EXISTEAMOR

Neste lindo projeto-movimento nossas três palavras em total sintonia: solidariedade, isolamento e fabulação.

Mais de 40 milhões de brasileiros não têm casa ou vivem em condições de vulnerabilidade social. #ExisteAmor é um movimento que usa a arte como ferramenta de transformação para convidar todos, pessoas físicas e jurídicas, a espalharem o amor através por uma campanha com fundo solidário para a população em situação de vulnerabilidade social durante a pandemia do COVID-19. 


Bifo Berardi: a frugalidade como pensamento radical

No texto do site Outras Mídias, o filósofo italiano Bifo Berardi enxerga, na crise da pandemia, uma brecha para romper o poder de ilusão das finanças, do consumismo e do poder. Como saída, a potência do que é realmente útil: a água, o alimento, o ar, a palavra e o afeto.


E você, tem algum material para indicar? Alguma sugestão de fabulação em meio à pandemia? Escreva abaixo seu evento, para que possamos engrossar a lista de ações e inspirar esses tempos de isolamento social! 


Clique e vejaPR a série Respeitar! em tempos de coronavírus, com reflexões acerca de temas das formações do projeto e que dialogam com o período de isolamento social por causa do coronavírus (Covid-19). 

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