Tempo de pandemia: quando as verdadeiras deficiências se revelam – pensando também na escola

*Por Gunga Castro

A Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aponta, no item E de seu preâmbulo:

“Reconhecendo que a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”.

Não se trata de uma ideia, mas sim, de uma definição universal, lavrada em pactos e documentos oficiais que, no Brasil, têm poder de lei. Este será o princípio gerador desta conversa: a deficiência, diferente do que se pode pensar, é produzida socialmente, sobretudo pela desatenção e desinteresse por aqueles que, por algum motivo, qualquer que seja, se encontram em situação de desvantagem, colocada única e exclusivamente pelas barreiras (sociais, físicas, éticas, cognitivas, comunicativas, etc) impostas por uma sociedade injusta e desigual.

Em tempos de pandemia, em que grande parte da população do nosso país se vê roubada de direitos fundamentais, entre eles, o direito à vida, é urgente que se fale sobre isso e que se busque formas de discutir e atuar a partir dos diversos setores da sociedade: a saúde, a assistência social, o trabalho, a comunicação e a educação, que sempre merece grande destaque no Projeto Respeitar é Preciso!.

Este curto período de afastamento dos estudantes de suas escolas foi tempo suficiente para deixar ainda mais clara a diferença de oportunidades de continuar estudando e aprendendo por meios não presenciais entre a escola pública e a escoa privada.

Podemos dizer que a quantidade de barreiras impostas para que esta grande maioria de alunos usufruam de seu direito de estudar neste momento é infinitamente maior que o montante colocado para aqueles que frequentam a rede privada (ou algumas poucas escolas desta rede). Temos aí, uma situação (entre muitas outras) em que a sociedade, claramente, produz uma legião de “deficientes”.

Vamos pensar um pouquinho naquelas crianças que, além de viverem esta situação, enfrentam também o desafio de frequentar a escola “em situação de inclusão”, ou seja, encontram mais uma série de barreiras: a ausência de dispositivos de acesso (desde as rampas até os dispositivos de tradução para o braile, intérpretes), sustentação para as relações em sala de aula e fora dela, alternativas de uso do espaço escolar, consideração da diversidade (inevitável, ainda que se insista em adaptações do que já está pronto) na elaboração de projetos e planos de aula), e mais algumas que só elas saberiam nos dizer.

São ainda muito incipientes as tentativas de viabilizar o estudo das crianças longe da escola, sobretudo nas redes públicas, mas, mais que importante, é urgente que se pense e se considere também estas crianças em flagrante desvantagem em todos os momentos de reflexão e elaboração destes planos. Do contrário, estaríamos, nós, educadores, criando barreiras que, sem dúvida se revelarão no momento que voltarmos à escola. Não se trata, de forma alguma, de desconsiderar o que tem sido e já foi feito e oferecido, seja para a escola pública, seja para a rede privada, mas sim de ter em mente esta questão, esta lacuna presente em todas as escolas do mundo: como propor a todos pensando em cada um, considerando o que já conhecemos de nossos alunos?

Desafio monstruoso, como todos que vêm se colocando nesta situação inusitada, cuja resposta não conhecemos, mas que pode ter origem no compromisso que reafirmamos a cada dia de considerar as diferenças, todas elas, como elementos constitutivos de todo e qualquer grupo.

Quando não é possível acionar a rede de apoio das escolas (professores de salas de apoio, gestão, colegas com experiências parecidas, etc) e a intervenção não está ao nosso alcance, pensar nestas crianças cujo desafio de estar na escola é sempre maior, esperar por elas e deixar claro que continuam sendo bem vindos, talvez possa ser um bom começo.

“A escola é o lugar social da criança …Para uma criança, pertencer verdadeiramente a uma escola é pertencer ao mundo… para uma criança a escola é seu lugar social, o lugar a partir do qual é reconhecida como pertencente à comunidade humana, do mesmo modo como o lugar
social de uma adulto é seu trabalho, que também lhe confere um reconhecimento de pertencimento à comunidade dos homens”.
(Maria Cristina Kupfer, in “Práticas Inclusivas em Escolas Transformadoras – Acolhendo o Aluno Sujeito” – Brasil, 2017)

Ainda que seja muito difícil para a grande maioria dos professores, aproximar-se de seus alunos, “customizar”, por assim dizer, os planos curriculares comuns para cada um (coisa que só o professor sabe fazer), é importante, neste momento, ter em mente a ideia de que sim, será necessário um esforço maior, no sentido de observá-las, ouvi-las, e levar em conta que muitas delas não tiveram acesso e nem contato com as iniciativas coletivas e particulares de aproximação neste tempo de isolamento.

Ainda que muitas vezes algumas delas possam nos parecer alheias, pouco atentas e pouco afetadas pela crise que vivemos, é certo que sofreram, sentiram falta da vida na escola, de seus professores, da rotina e do aprender; mas talvez não manifestem estes sentimentos do mesmo modo que faz a maioria, e é nossa tarefa desvendar seus mistérios e ajudá-las também.

A escola, além de conferir a todos o status de aluno, enlaçando assim a todos no discurso social, garante a TODOS um espaço de referência e segurança e, sendo assim, a única certeza que temos é a de que NINGUÉM pode ficar pra trás.


* Professora polivalente por formação (Normal Superior), foi professora regente de Educação Infantil e Ensino Fundamental 1 em escolas da rede privada de São Paulo, de 1985 a 2007, passando, neste ano, a coordenar o Núcleo de Práticas Inclusivas da Escola da Vila, em São Paulo, até o ano de 2017. Atua também, desde o ano de 2000 até os dias de hoje, como formadora de professores na área de Alfabetização, Língua Portuguesa, Educação Inclusiva e Matemática, em diversos estados do Brasil. Atualmente, presta assessoria na área de Educação Inclusiva em escolas da cidade de São Paulo, compõe a equipe de educadores em Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog. É selecionadora da área de educação inclusiva do Prêmio Educador Nota 10 da Fundação Victor Civita e atua como parceira em diversos projetos do Centro de Educação Terapêutica Lugar de Vida.


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1 comentário

  1. Maria da Penha Tavares de Medeiros em 3 de maio de 2020 às 20:21

    Agora com essa emergência, muitos tornaram se “deficientes” e muitos Professores também estão nesse cenário, foram pego de surpresa.
    O material e os recursos também estão “deficitários”.
    Professores se viram forçados a terem um celular que baixam app e uso de notebook e nada foi oferecido.

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