“Bons textos são boas companhias para boas conversas”, diz autora de livros infantis com temáticas africanas

Por Celinha Nascimento

Com a proximidade do Dia da Consciência Negra, entrevistamos a antropóloga e escritora Heloisa Pires Lima, para um papo sobre literatura infantil com temática africana. 

Muitíssimo grata por aceitar o convite desse papo para nosso portal Respeitar é Preciso!. Seu livro Histórias da Preta tem um lugar de destaque na literatura infantil com temática africana. De certa forma, abriu caminho para uma lista de muitas outras narrativas que vieram depois. Você abriu mesmo este caminho, Heloisa? Quem estava antes de você? Quem são suas fontes de agradecimento e de dádiva. E, quem veio depois de você que tem quem tem estado juntos nas trincheiras da batalha?

Histórias da Preta (1998) segue passos que vieram de longe. Especialmente para o caso de livros e infância, desde o início das publicações no país cujo Paula Brito, o editor negro de meados do século 19, dentre seus lançamentos estava fábulas de Esopo, por exemplo. Já no século 20, em minhas vivências com a roda de histórias na escola que ajudei a inventar, Joel Rufino não faltava. Revisitando a trajetória do escritor negro, ele aparece com destaque na coleção Recreio nos idos dos anos 1970. Os semanais, sob a coordenação de Ruth Rocha eram avançados para a época e ofereciam atividades interativas. Ele também tomou parte da célebre e muito bem avaliada coleção Taba, publicada a partir de 1982 pela mesma editora, a Abril Cultural. Os fascículos apresentavam um livro ilustrado, par com o disco que acompanhava o material. Neste circuito, entre outros, nomes como o de Sylvia Orthof, Maria Clara Machado,Ilo Krugli, Ana Maria Machado. O volume de lançamento é por ele assinado tendo por parceiro musical, Gilberto Gil a que se seguiram, Caetano, Secos e Molhados, Nara Leão, etc. Mas, sobretudo, ele adaptou muito do repertório afro brasileiro inovando nossas bibliotecas.

Ainda nessa perspectiva editorial há a delicadeza de Geni Guimarães. Com A cor da Ternura (1989) ela recebeu um Jabuti em 1990 e Menção Especial UBE em 1991, fruto do reconhecimento pela densidade de seus personagens negros. Também Wanda Machado que trançava ludicidade com religiosidade iorubá foi igualmente importante aos exercícios editoriais de Inaldete Pinheiro ou, os cadernos do Ilê Ayê, dentro de uma proposta pedagógica de produção de conhecimento acerca do continente, chamaram muito minha atenção. Acredito que não apenas para o meu processo mas para o escopo da sociedade brasileira foram importantíssimos.

Mas, superar a nossa ignorância sobre a origem africana e a presença dela na história brasileira, a ação de Emanoel Araújo, hoje diretor do Museu AfroBrasil foi um grande divisor de águas. Com ele, muda o paradigma de percepção sobre a descendência no Brasil, o que impactou a produção, não apenas como repertório mas, a presença, o acesso, o ponto de vista de autorias negras. Embora a exposição A mão afrobrasileira sob sua curadoria, tenha ocorrido em 1988, no Ibirapuera em São Paulo, comemorativa dos cem anos da abolição, apenas em 2003, uma legislação assumiu nossa ignorância e inadequações relacionadas a essa origem nos ambientes educativos, cujos livros sempre foram o coração. A dinâmica abriu para uma literatura potente com escritores e escritoras como Meire Cazumbá, o maravilhoso Osvaldo Faustino, Edmilson Pereira, Nilma Gomes, Délcio Theobaldo, Cidinha da Silva na área juvenil, são alguns nomes. E há uma nova geração, Fábio Simões, Kiusan de Oliveira, Esmeralda Ortiz, Janine Rodrigues, e outros tantos nomes a compor o novíssimo panorama das publicações.

A experiência da periferia ou de expoentes como Marcelo dSalete com suas premiadíssimas HQs expressam essas mudanças. Como caminho, antes mesmo do Histórias da Preta, eu coordenei uma coleção na editora Memórias Futuras, em 1995, cuja proposta era trazer temas complexos com linguagem de fácil acesso, ludiciade, personagens construtivos que ampliassem a recorrência dor e sofrimento. Sônia Rosa assinava o título O menino Nito que apresentava um personagem que não podia chorar, ou seja, abordava o machismo sendo que apenas a ilustração revelava que ele era um adorável e sabido menino negro. E assim, outras chaves emocionais. E a minha Preta, gaúcha com seus 21 anos, é vivíssima em adoções e resenhas. Tenho um baita orgulho dela. 

Da esquerda para a direita, alguns dos livros infantis de Heloísa: O Marimbondo do Quilombo, Histórias da Preta e O Coração do Baobá

Como vê os acervos de livros com temática africana para crianças, em especial das Salas de Leitura das escolas de São Paulo? Aliás, como prefere: Temática Africana. Temática Negra, Literatura afro-brasileira?

Aqui em São Paulo, a rede municipal criou programas como o Leituraço mediando a formação no quesito da equidade dos acervos. A reflexão é importantíssima para pensar representações e representatividade como uma dimensão que não perde de vista a qualidade literária ou de ludicidade das obras. Eu vejo, cada vez mais, a identidade particular conversando com demais sigularidades. Por exemplo,  As cores do mundo de Lucia (2010) de Jorge Fernando dos Santos com ilustrações da maravilhosa Denise Nascimento reúne a temática da ausência de visão e a questão racial. A narrativa leva a perceber a relação entre a cor e o nome dado à cor. Quanto à identificação dos livros ela é dinâmica tanto quanto os argumentos que a definem. Eu uso todas; Mas é importante destacar a dimensão do repertório aliado ao ponto de vista na abordagem que o apresenta para a infância. 

Que quadro podemos tecer depois de dezesseis anos da lei. 10.639? [Lei que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira” nas disciplinas das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio e institui o dia 20 de novembro como o dia da consciência negra no calendário escolar]

A Lei 10639/03  nos ensinou a importância de políticas públicas sérias para inverter a gravidade do racismo no Brasil. Ela ampliou o escopo das editoras que buscam de traduções à autorias Brasil a fora. Ela chamou a responsabilidade das editoras, o que vem auxiliando a formação na área educacional e cultural. Mas, o resultado ainda é pequeno. 

Como vê o acirramento dos conflitos raciais nos últimos anos? Cabe falar disso para crianças? Como a antropologia está tentando entender esses dias tão estranhos?

Estamos vivendo o acirramento das agressões de cunho racial. A área editorial, de modo geral, acolheu o debate “politicamente correto” desatentamente, do meu ponto de vista. Se houve um tempo em que briga de marido e mulher ninguém botava a colher, pais podiam explorar os filhos, ofender alguém na rua. Pois foram os avanços nos direitos dos cidadãos que criaram a expressão “politicamente correto”, quer dizer, a sociedade foi estabelecendo limites para o politicamente incorreto. Essa esfera abrangeria marcadores de classe, raça, gênero, orientação sexual, nacionalidade, descapacitação, mas, sobretudo, sempre foi racial. Os sujeitos que se utilizam de semântica depreciativa não são neutros. O imaginário racista e sexista ofertou uma infinidade de casos para reflexão acerca do evitar o que possa ser ofensivo para certas pessoas ou grupos sociais. Os próprios vocábulos, estruturas e entonações da língua trazem consigo uma história carregada de sentidos culturais e políticos. E isso pode estar numa ilustração, numa abordagem, numa boneca, enfim, um campo vasto para analistas atentos à reprodução de racismos para novas gerações.

Falar diretamente com crianças sobre racismo não só é possível como fundamental. Mas, dentro da idade. Eu tenho 2 livros que tratam do tema quilombos para a faixa de educação infantil. Porque em minhas visitas aos ensinos fundamentais nas escolas eu perguntava se os alunos conheciam Zumbi. Eu descobri que o meu não era o mesmo que o zumbís deles. Então era necessário conhecer nosso herói negro desde pequenininho. Assim surgiu O marimbondo do quilombo, todo alusivo à história de Palmares. No entanto, cheio de pistas para o mediador. Lá tem termos bantus ou, referência aos territórios reais em diferentes tempos. Mas o narrador é um marimbondo que o leitor só irá notar no final quando ele conta que está sentado no título da história. Mais infantil ainda, é o Quilombololando, uma ciranda que remete aos quilombos do Jequitinhonha e todo o repertório cultural que existe ali. Na minha infância eu aprendia que quilombo era lugar de negro fugido. Para esta geração que lê meus livros eu quero apresentar a sonoridade da palavra preenchida de outro princípio. Pois, quem foge, não enfrenta e, não há história mais honrosa de enfrentamento que a dos quilombos. Ela é a memória da habilidade de reestabelecer a liberdade. Então você vai contando aos poucos.

Brincadeiras são estratégias para contar a nossa versão inspirada nos fatos históricos. Eu sou antropóloga e busco responder ou pautar alguns temas para o desafio de apresentá-lo para as infâncias. 

Heloisa na Biblioteca da Emei Anita Costa, em São Paulo (DRE Ipiranga).
(crédito: reprodução/Facebook). 

Conte um tantinho do que vê nas andanças pelas feiras literárias no país. Lugares mais acessíveis e outros menos calorosos com a temática africana.

Neste exato momento eu estou na Feira do Livro de Porto Alegre. Aqui mesmo na que vim poucos dias atrás, a de Bento Gonçalves, há todo um trabalho nas escolas com as obras, durante o semestre, que vem desembocar na Feira. Então os leitores já chegam focados em questões e comentários. É muito rico. Mas, cada Feira tem sua alma. A Flup no Rio de Janeiro tem o espírito da troca internacional com os autores no quesito específico racial. Tal como o slan ou, o passinho que ela estimula. Na do ano passado eu assisti uma sala cheia de leitores de autores da favela, lendo resenhas, apresentando as obras, degustando os vizinhos de morada. Foi o de mais inovador que eu tive a oportunidade de ouvir.

A escuta é importante mas, quando a gente encontra um passo a mais, aquilo vibra dentro da gente. E lá estava o Elcio, um dos coordenadores da feira, puxando a atividade. Fica aqui minha homenagem para esse ser de luz que faleceu logo depois, no auge da vida e tão transformador. Quanto aos retrocessos relacionados à boicotes às obras, ele é real. Cabe sempre chamar a atenção para a responsabilidade dos ambientes educativos perguntando sobre os 75,5% das mortes violentas no Brasil serem jovens negros. E, o que os acervos tem a ver com isto? Vamos olhar a situação da representatividade que auxilie eliminar desvantagens sociais. Bons textos são boas companhias para boas conversas.

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