Por Ana Catão*

Pode parecer estranho falar sobre convivência num momento como esse, em que aparentemente estamos privados de viver junto. Digo “aparentemente” porque, de fato, só estamos privados da vida em comum como a conhecemos ou como, quase que por inércia, costumamos vê-la.

Essa é a grande oportunidade que temos agora, a de sair do movimento da inércia.

O mundo estava acelerado, acelerado demais. Nos perdemos nessa velocidade, muitos de nós vivemos como autômatos, sem tempo de parar. De repente, uma pausa, uma pausa forçada, inimaginável, impensável no nosso sistema de vida capitalista.

Uma pausa para alguns, não para todos e todas. Sim, porque mesmo nesse contexto é possível dividir a sociedade entre os que têm governo sobre seu tempo e os que não podem dispor do tempo para si.

No meio do tsunami de informações desencontradas que recebemos logo que tudo, ou quase tudo, parou, alguns desavisados disseram. Estamos todos, no mundo, pela primeira vez, vivendo uma mesma experiência, isso reforçará nossos vínculos. 

Não. Não estamos. A solução não é mágica. Talvez estejamos todas e todos tendo que lidar com uma mesma questão: a do isolamento necessário. Mas a experiência é de cada um. Mesmo numa situação como essa em que parecemos todos estar vivendo algo em comum, a experiência não é comum.

Não tomemos por óbvio que estamos vivendo o mesmo. Alguns estão vivendo lindas histórias de solidariedade, outros, terríveis histórias de abandono, de violência.

A experiência de cada um é diferente conforme o grupo social a que pertencemos, conforme o gênero, a raça, a condição econômica, a condição física, a condição de saúde, a idade… A experiência é diferente conforme a configuração de vida de cada um de nós. A experiência é diferente conforme a história de vida de cada um, conforme o repertório de que cada um de nós dispõe, conforme a maneira como experienciamos nossa vida até aqui.

O que estamos aprendendo nesse período de exceção? O que cada um de nós está aprendendo? O que estamos aprendendo como sociedade? O que estamos aprendendo como escola? O que estão aprendendo os adultos e as crianças?

Me assombra o pensamento: o que será conviver depois do isolamento? Será o mesmo? Teremos mais fobia do outro? Mais ainda? O outro que neste momento incarna a possibilidade do contágio, a possibilidade da morte? Isso ressignifica o outro, não? Que relação estamos tendo e teremos com o outro, com os diversos outros?

Atualmente, nesse isolamento, pelo menos para quem está podendo vivê-lo, mais uma fronteira toma forma: há o outro ameaça (aquele que não mora na mesma casa, possível agente transmissor) e há o outro inofensivo (…para quem não vive situação de violência em casa…). E depois? 

Todos que temos a possibilidade de dispor de algum tempo para refletir, por mais mísero que seja esse tempo, precisamos nos apropriar da pausa a que fomos compelidos e dar qualidade a ela.

Precisamos primeiro conseguir parar, parar mesmo, para acessar nossos sentimentos, nossos medos, angústias. Parar para sair do automatismo, para sair da inércia. Parar para colocar em questão efetivamente nosso modo de vida social, grupal, familiar; o nosso modo de vida com o outro. Parar para pensar a escola que queremos. Que escola queremos depois do isolamento?

Não queremos voltar ao normal.

Assim como um conflito na escola revela algo da escola, a pandemia revela algo do nosso modo de vida e o modo como a abordamos revela muito sobre nós, Brasil, coletivos, grupos, escola, famílias, pessoas.

Desejo que se não foi possível antes, que agora possamos imaginar, sonhar nossa escola. Que pensemos ações de retorno capazes de colocar tudo de cabeça para baixo, que possamos repensar como vivemos com o outro e que mundo queremos, juntos, na escola.

Acredito que isso só será possível se agora, cada um de nós tomar posse dessa pausa forçada e transformá-la em reflexão para que possa tornar-se ação. Com o outro.

Este é só um início de conversa. Um disparador. Nos próximos encontros, a ideia é compartilhar algumas ideias e reflexões de como dar qualidade a nossa pausa. De como cuidar de si para cuidar do outro, para cuidar de nós.


*Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP e Pós-graduada em Intervenções Sistêmicas em Situações de Conflito, é advogada e mediadora de conflitos. Como pesquisadora, analisou práticas de Justiça Restaurativa, de Mediação de Conflitos e percepções de Direitos Humanos.

Mediadora em situações de família, sociedades, coletivos e escolas, atuou com implementação da Mediação de Conflitos no Judiciário e em processos ético-profissionais do Sistema Conselhos de Psicologia (atualmente membro de Conselho Consultivo). Professora de Meios Adequados de Solução de Conflitos em curso de Direito, é organizadora e coautora do livro “Mediação no Judiciário, reflexões sobre uma experiência”, pela Editora Forense.

Faz faz parte da equipe de educadores em Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog desde 2013, atuando na elaboração do material Respeitar é Preciso!.


Clique e veja a série Respeitar! nos tempos de coronavírus, com reflexões acerca de temas das formações do projeto e que dialogam com o período de isolamento social por causa do coronavírus (Covid-19). 

2 comentários

  1. DAYANE F SOUZA em 13 de maio de 2020 às 11:42

    Excelente reflexão. Pensando na minha situação, vê bom preciso qualificar, organizar esse tempo… nas últimas semanas tenho ficado ligada ao mundo virtual pra me comunicar, trabalhar, estudar, acompanhar meu filho nos estudos … mas isso tem me dado cansado e agitação… a calmaria q eu estava aprendendo a lidar nas primeiras semanas deu lugar a uma nov agitação. ..

  2. Marisa Maresti em 1 de junho de 2020 às 13:44

    Todos estamos na mesma situação embora alguns não possam entrar em quarentena por problemas econômicos
    Outros não entram em quarentena por ignorarem o perigo real
    O resultado está sendo catrastofico

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