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Caminhos coletivos para recriar a convivência escolar. Entrevistamos Crislei Custódio

28 de junho de 2022

Por Natália Pesciotta

Passada a euforia da retomada das rotinas presenciais, os relatos vindos das escolas um ano depois revelam a necessidade de um “reaprendizado sobre como viver junto”, avalia Crislei Custódio, Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora pedagógica dos projetos educacionais do Instituto Vladimir Herzog. 

Experiências de maior agressividade dentro do ambiente escolar têm sido compartilhadas por docentes durante as formações e atividades do instituto, que promoveu em São Paulo no dia 13 de junho o 3º Grande Encontro de Comissões de Mediação de Conflito, uma das iniciativas em parceria com a Secretaria Municipal de Educação para construção de uma educação em valores de direitos humanos. “Parece que os pactos de convivência estão estremecidos. A gente precisa reconstituir esse espaço de convivência”, reflete a pedagoga. 

Ao portal Respeitar É Preciso!, ela se debruça sobre a presença de uma sensação de animosidade dentro e fora das unidades escolares, analisa a complexidade da realidade brasileira atual de violência e sugere caminhos de diálogo e escuta para que a função social da escola, ainda assim, se faça efetiva: “A gente segue apostando que a escola possa ser um espaço diferente, de relações pautadas pelo respeito, mesmo diante de uma sociedade violenta.” 

Crislei Custódio, Doutora em Educação e coordenadora pedagógica dos projetos educacionais do Instituto Vladimir Herzog

Em novembro de 2021, entre docentes que participaram da formação “Conviver É Preciso!”, os sentimentos mais citados sobre a ampliação da retomada presencial foram “preocupada/o” (48,6%) e “esperançoso/a” (33,7%). Isso traduz um pouco da complexidade daquele momento?]

As atividades presenciais paulatinamente tinham retomado desde o início de 2021, no entanto, a grande abertura acontece no segundo semestre, conforme os professores foram sendo vacinados. As pessoas se mostravam preocupadas do ponto de vista sanitário e também em torno da aprendizagem das crianças e adolescentes, considerando que nem todos tiveram acesso às aulas online. Mas todo mundo se mostrava muito esperançoso por estar retomando a rotina da escola, por estarem mais próximos dos alunos, por estarem vivos e vivas.

E hoje, um ano depois da maior abertura para o presencial, quais parecem ser os desafios e sentimentos sobre o cotidiano escolar? 

O que a gente tem observado é que aquele desejo enorme de estar na escola se traduziu também em algumas dificuldades. Esse retorno tem exigido um reaprendizado do viver junto. A gente tem observado pelos relatos das professoras que, embora todo mundo se sinta melhor estando na escola, há uma sensação de maior animosidade no clima escolar.

A escola tem uma dinâmica coletiva – inclusive é uma das primeiras instituições que a gente vai quando sai de casa, do ambiente privado. Esse aprendizado, esses pactos de convivência, parece que estão mais estremecidos, nas condutas dos alunos e dos adultos de modo geral. Há um conjunto de ritos, de códigos, que já estavam incorporados. Agora, a gente precisa de novo reconstituir esse espaço de convivência. Isso faz parte inclusive da função social da escola, uma questão que ganhou novos contornos na pandemia.

Que tipos de práticas e subsídios de valores em direitos humanos podem ajudar a lidar com esse desafio de maior animosidade nas escolas?

No projeto ‘Respeitar É Preciso!’ a gente tem uma compreensão de que a Educação em Direitos Humanos não se restringe a falar sobre direitos humanos. Ela é uma educação pautada em valores dos direitos humanos. Um eixo central passa por entender que todas as relações na escola – não apenas a relação adulto criança, mas todas as relações que se dão na comunidade escolar – precisam ser pautadas pela ideia de respeito mútuo. Parece óbvio dizer isso, mas não é porque a ideia de respeito traz consigo uma noção de escuta e de diálogo que não são tão simples de serem construídas. E outras que são decorrentes disso: a valorização das diferenças, da diversidade.

Por que vê o exercício da escuta como algo complexo de ser praticado? E como a escuta pode ajudar a lidar com os conflitos?

A escuta exige uma suspensão do juízo, ainda que temporária. Não dá pra gente pensar a promoção dos valores em direitos humanos sem passar por essa proposta de ouvir, de ser ouvido e de poder falar. Dentro da escola a gente tem uma situação assimétrica entre crianças e adolescentes em relação a adultos, mas ela não pode prescindir da igualdade de condição de diálogo. Essa igualdade como princípio é aquela em que todo mundo precisa ser reconhecido como sujeito de direito. Não só reconhecer que todas as pessoas precisam ter seus direitos garantidos, mas reconhecer que todas têm algo a dizer. Sobre o mundo, sobre o que se passa com elas, sobre como percebem a realidade. Muitas vezes a gente tenta se antecipar e dizer o que as pessoas precisam. Isso quebra a lógica de dialogar. A gente precisa ouvir o que as pessoas acham que elas precisam, como leem a realidade, como se compreendem nessa realidade. E, a partir daí, a gente pode tirar encaminhamentos.

Na prática, como esse diálogo pode ser construído, numa unidade escolar?

Uma coisa importante que a gente sempre pontua é que não tem fórmula porque cada escola tem um CEP. A gente não pensa numa abstração da ideia da escola. Cada uma está num determinado território, é constituída por sujeitos que têm suas especificidades e que precisam de alguma maneira buscar uma relação atravessada pelo diálogo. 

Para não parecer muito etérea a resposta, na escola há várias instâncias democráticas de participação. A própria comissão de mediação de conflitos, pensando aqui na rede municipal de São Paulo, é um espaço em que a gente não vai resolver conflitos, mas em que a gente pode se debruçar sobre eles. Há o Conselho de Escola, a Associação de Pais e Mestres (APMs). As próprias reuniões com responsáveis, que precisam ser espaços em que as pessoas possam de fato se sentir à vontade, acolhidas e seguras para falar. Não adianta dizer que tem participação em espaços nos quais a gente se coloca pelo argumento de autoridade. O diálogo é um momento de exposição, então você precisa se sentir seguro para dialogar e de alguma forma construir soluções coletivas. 

Acredita que esse esgarçamento dos pactos sociais seja um fenômeno da pandemia, ou vê relação também com outros contextos atuais?

Não tem como se desvencilhar do fato de que a gente vive no Brasil de 2022, com todas as implicações. Quando a gente olha para as relações sociais de modo geral, a gente tem visto o aumento de uma cultura da violência, da intolerância, que não é a do diálogo. Ela se traduz na violência física, simbólica, mas sobretudo em formas de silenciamento do outro. Parece que de alguma maneira o pacto civilizatório foi rasgado, que a gente ultrapassou limites importantes para a vida em sociedade. Não tem como dizer que isso não afeta o cotidiano da escola porque ela não é uma ilha.

A gente não pode desconsiderar ainda que vários alunos e alunas, assim como nós, educadoras e educadores, temos sofrido com o processo de empobrecimento, de insegurança alimentar, etc.

Claro que a escola é impactada pelo contexto social, mas existem relações sociais que se produzem na escola também. E é aí que reside nossa aposta em relação à formação das novas gerações. A gente segue apostando que a escola possa ser um espaço diferente, de relações pautadas pelo respeito, mesmo diante de uma sociedade violenta.     

O que dizer para um profissional que atua na escola e se sente isolado, sem saber o que fazer nesse momento complexo?

A gente já tinha um fenômeno anterior à pandemia, devido à precarização do trabalho docente, de burocratização desse trabalho. Cada vez mais a gente observava um sentimento de solidão dos professores. Não acredito que seja possível fazer nem pequenas nem grandes mudanças de maneira solitária. A gente vive em sociedade porque a política é uma atividade humana coletiva, não é uma iniciativa de um indivíduo. Me parece que a escola só pode ser um espaço de potência quando, inclusive como forma de resistência, a gente consegue apostar no coletivo, em meio a uma sociedade que valoriza os indivíduos.

A gente vive numa sociedade de indivíduos que nos empurra cada vez mais para a condição de se sentir sozinho em meio a uma multidão, de ser um corpo vivente, produtivo para o trabalho e subsistência, com ausência dos espaços públicos onde a gente possa de fato se encontrar e dialogar. Acho que a maior resistência que a gente pode ter é tentar fazer da escola um espaço coletivo, um espaço público por excelência, um lugar de encontro, de troca, de diálogo, onde a gente construa coisas coletivamente. Só assim a gente tem alguma esperança.

1 comentário

  1. EDVÂNIA PAULO em 31 de julho de 2022 às 18:41

    SOU EDVÂNIA PAULO PROFESSORA DE EDF, A ESCOLA PODE DESENVOLVER E TRANSFORMAR ATITUDES PARA UMA BOA CONVIVÊNCIA COLETIVA E INDIVIDUAL, MOSTRANDO ATRAVÉS DE DEBATES, VÍDEOS… QUE SOZINHOS SOMOS MENOS, E QUE É POSSÍVEL VIVER E TOLERAR AQUILO QUE É DIFERENTE.

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