Ativista pela inclusão escolar: conheça Mariana Rosa, mãe da Alice

Quem a acompanha nas redes sociais, se emociona a cada postagem: é que Mariana Rosa, mineira e jornalista, não economiza palavras ou afetos para descrever a rotina ao lado da filha, Alice. Com uma carreira promissora em multinacionais, Mariana não só viu a vida ganhar um novo ritmo com a chegada da filha, mas um novo sentido após o que as duas viveram juntas.

Alice nasceu prematura de 29 semanas, com 900g e 31 cm, mas suas medidas são inversamente proporcionais ao tamanho da coragem e força que mostrou nos 145 dias de UTI Neonatal. Ali, viveu uma parada cardiorrespiratória que durou 26 minutos e trouxe como consequências a paralisia cerebral, a baixa visão e a epilepsia – características que, por si só, não definem quem é Alice, como Mariana gosta de ressaltar.

Esse olhar respeitoso contribuiu para que Mariana se tornasse uma mãe ativista da inclusão nas escolas (e de todos os outros lugares!) assim que decidiu que era hora de Alice ir à escola. Foram muitos os desafios, que ela compartilha com o Portal Respeitar é Preciso! na entrevista abaixo:

Como foi a decisão de colocar a Alice na escola?
Foi uma decisão amadurecida aos poucos. Precisei rever muitos preconceitos até chegar à porta da escola. Porque nós somos levados a acreditar que criança com deficiência não precisa ir à escola, porque não vai aprender. Ou que o ensino na escola não é feito para ela, e que ela precisaria ir para uma escola separada. É doído pensar nisso, pensar o quanto perdemos em humanidade com um pensamento desse. Mas somos socializados assim, e, aqui, fui um percurso até entender que a luta deveria ser por uma convivência diversa, rica em suas diferenças, perspectivas e possibilidades. Vencida esta etapa, vem a procura pela escola. Ela tinha três anos, era uma criança de saúde frágil, que adoecia com frequência. Busquei escolas em que ela fosse acolhida em uma turma pequena, em um ambiente que se aproximasse ao que temos em nossa casa. Foram seis negativas com as mais diversas “justificativas”: não trabalhamos com esse tipo de criança, não temos vaga, para que matricular se ela não vai aprender, ela não vai ser feliz aqui, etc. 

Na sua busca, você chegou a pensar na escola pública?  
A escola pública era uma possibilidade sim, inclusive porque, em Belo Horizonte, onde moro, o trabalho nas escolas públicas em torno da inclusão é referência. Mas também não consegui vaga na escola do bairro em que moramos. Até que cheguei em uma escola de Pedagogia Waldorf. Eles estenderam os braços para a Alice sem colocar qualquer condição. Olharam para a criança que ela é, para suas potencialidades, para suas características, e não para seu diagnóstico. E é lá que ela está até hoje.

Sabemos que alguns dispositivos garantem a entrada e permanência da criança com deficiência na escola (como a Constituição Federal de 1988 (Art. 206), a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (Art. 24) e a Lei Brasileira de Inclusão (Art. 27). Quais foram os seus desafios?
O primeiro desafio foi a matrícula propriamente dita. Foram seis negativas até chegar na escola que nos acolheria. Depois, foram desafios do cotidiano escolar mesmo: a familiarização da professora com ela. A professora tinha muitos medos, medo de tocar, medo de fazer algo que não fosse bom para ela, o que, às vezes, se tornava uma proteção excessiva. Mas isso aos poucos foi se ajustando. A Pedagogia Waldorf é essencialmente acolhedora da diversidade humana, de modo que tanto os alunos, quanto os professores e as famílias sempre se mostraram dispostos e amorosos, o que, para nós, é um alívio e motivo de alegria. É um tempo precioso para a formação de minha filha, e pensar que ela está se construindo num ambiente que a respeita, que a acolhe, que a valoriza sempre me emociona, porque sei que isso, infelizmente, ainda não é comum no mundo em que vivemos. É uma conquista dela e da escola.

Houve algum tipo de resistência por parte da escola ou das famílias? Como é a relação da Alice e os colegas na escola? Não houve nenhuma resistência?
A relação com os colegas é deliciosa. Alice tem amigos na escola, amigos que ela conquistou e que a conquistaram. Eles a compreendem, brincam juntos com naturalidade, têm uma curiosidade ingênua sobre algumas de suas características. Uma curiosidade que aproxima, e não que afasta, sabe? Recentemente, quando trocamos a cadeira de rodas e ela chegou de cadeira nova na escola, eles fizeram fila para experimentá-la. Queriam saber se era macia, se ela estava se sentindo confortável, se o cinto não apertava. Depois me deram o veredito. Eles se comunicam lindamente, se alegram com o sorriso dela e quando ela não vai à escola, sou cobrada na volta: por que Alice não veio nos últimos dias? Às vezes, enviam mensagens pelo celular, desenhos… Uma riqueza. Houve uma vez que ela teve uma convulsão na escola e eles se preocuparam. Quando cheguei lá, estavam todos em torno dela, quietos, cabisbaixos, em silêncio. Fui conversando com ela e eles foram se tranquilizando. Até que um colega disse: “você acha que até sábado ela já estará bem? É porque é meu aniversário e eu quero muito que ela vá”. Essas coisas me fazem acreditar que essas crianças estão tendo uma oportunidade valiosa juntas, todas elas. E antes de aprender as quatro operações matemáticas, elas já sabem o que significa, do ponto de vista ético, somar, subtrair, multiplicar e dividir.

mariana mãe abraça a filha alice as duas sorrindo para a câmera

Mariana e Alice em momento de ternura (reprodução/Instagram)

Numa entrevista a Nova Escola, Maria Teresa Mantoan, coordenadora do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diversidade da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) disse que “A Educação para a inclusão pede uma mudança de concepção do ato de ensinar”. Você também diz que, ao optar colocar Alice na escola, algumas pessoas questionaram o porquê, uma vez que ela “não iria aprender”. Como você vê a relação aprendizado x pessoa com deficiência no âmbito escolar?
Concordo com a professora Maria Teresa. E acredito que, talvez por isso, a inclusão seja um conceito que, ainda hoje, expressa um desejo não cumprido, uma lacuna. Em geral, quando recebe um aluno com deficiência, a escola tende a focar no laudo, nas dificuldades de aprendizagem da criança. É como se responsabilizasse a criança por um possível insucesso na escola. No entanto, pensar a inclusão no âmbito escolar requer ampliar o repertório de ensino, as técnicas, as metodologias, a didática, o plano de aula, a partir das características e singularidades de seus alunos. É construir junto com os alunos esse caminho, numa condição entre sujeitos. Portanto, esse modelo da educação bancária, conteudista, em que o professor é quem detém o saber e o aluno bem visto é aquele bem comportado, ou seja, que comporta as expectativas do professor, esse modelo não está deixando de fora só os alunos com deficiência não… E isso explica os índices absurdamente elevados de bullying e suicídio entre crianças e adolescentes.

É preciso que a escola possa olhar para os alunos, todos eles, inclusive aqueles que têm diferenças funcionais, não como alguém que está no mundo em condições inesperadas ou incompletas, mas como um sujeito inteiro. Sem faltas. Não é sobre acolher esta presença, mas sobre construir juntos uma existência comum, em benefício de todos.

A educação precisa fazer esse movimento, precisa mover a ideia inicial da inclusão como uma abordagem burocrática, amparada em laudos e lei, para uma noção de atenção, de disponibilidade, de receptividade ao outro. Essa é uma mudança ética profunda, porque implica acolher o outro, qualquer outro, todos eles, com um gesto que estabelece vínculos e renuncia à burocracia. Não se trata só de se aproximar, de estar juntos, mas do que se decide fazer com isso. É afetar e ser afetado, é abrir espaço para dúvidas e mal estar, é fazer da curiosidade um pretexto de conexão. É preciso abrir, de fato, as portas da escola, incondicionalmente, às crianças e jovens, inclusive os ditos “diferentes” e que isso resulte na construção de uma ética das relações, da responsabilidade, da afeição, uma ética forte o suficiente para transformar os espaços e tempos da escola, em consideração às particularidades de sua comunidade, e que as práticas educativas possam servir ao propósito de ensinar a qualquer um, deixando de lado toda pretensa ideia de normalidade. Se assim o for, inclusão será palavra que sobra, um pleonasmo quando nos referimos às práticas educativas. E o aprendizado será rico como nunca antes.

Você é bastante ativa nas redes sociais e suas postagens mostram uma relação afetuosa entre você e Alice – e do seu olhar sensível sobre o mundo, e seus textos do blog acabaram virando livro (“Diário da mãe da Alice”). Como é o retorno das pessoas sobre o que você escreve?
Acredito que a gente precisa aprender a fazer bom uso das redes sociais. Diminuir dependências e ilusões, e criar oportunidades verdadeiras de encontro, de conexão, de reflexão. A escrita nesse espaço funciona, para mim, como esse lugar de encontro. É onde me reconheço e onde outras pessoas identificam similaridades e divergências e, sobretudo, se dispõem a conversar sobre isso. É onde a gente também consegue construir redes driblando distâncias para acolhimento de famílias que estão vivenciando um momento de maior fragilidade, ou de apoio para reclamar um direito, ou de diálogo para pensar um desafio na prática de sala de aula, ou de afirmação da própria identidade. Em tempos de fake news e do discurso “lacrador” que anula as diversas perspectivas, o retorno que me nutre é este que me mostra uma diversidade de pessoas interagindo, se conectando e pensando soluções para questões individuais que estão submetidas a problemas estruturais e, portanto, requerem uma ação coletiva. Esse é o retorno que me brilha os olhos e é o que busco preservar sempre.

O que você diria para mães de escola pública que desejam garantir o desejo de seus filhos e filhas com deficiência na escola pública?
Vou pedir licença ao Érico Veríssimo para citá-lo, em uma passagem em “Solo de Clarineta”, que diz da função do escritor, mas que se aplica também a todas nós, que lutamos pela preservação dos direitos humanos:

“Desde que, adulto, comecei a escrever romances, tem-me animado até hoje a ideia de que o menos que o escritor pode fazer, numa época de atrocidades e injustiças como a nossa, é acender a sua lâmpada, fazer luz sobre a realidade de seu mundo, evitando que sobre ele caia a escuridão, propícia aos ladrões, aos assassinos e aos tiranos. Sim, segurar a lâmpada, a despeito da náusea e do horror. Se não tivermos uma lâmpada elétrica, acendamos o nosso toco de vela ou, em último caso, risquemos fósforos repetidamente, como um sinal de que não desertamos nosso posto.”


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Veja também:
EDh – Desafios contemporâneos, Educação e Inclusão, palestra de Biancha Angelucci. 

5 comentários

  1. Maria Angela em 10 de março de 2020 às 05:44

    Ah sempre linda, humana, sensível, Mariana Rosa! Não é atoa esse nome de flor. Desabrocha e enfeita nossos dias com pétalas de Alice!

    • Respeitar É Preciso! em 10 de março de 2020 às 10:55

      Realmente! Pra nós é uma alegria compartilhar a história de Mari e Alice no portal! 😉

  2. […] especializadas, como se isso fosse uma escolha e não justamente a falta dela”, afirma Mariana Rosa, educadora, ativista e mãe da Alice, que é […]

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