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8 DE MARÇO SEM TRABALHO

Ao pautar o tema do trabalho de cuidados, o ponto de vista feminista mira nossa economia, enquanto retoma os fundamentos dos direitos humanos e do próprio humanismo

“Um feminismo para 99% das pessoas”: assim decretava um manifesto escrito a quatro mãos por intelectuais norte-americanas em 3 de fevereiro, convocando uma greve internacional das mulheres em 8 de março. As autoras defendiam uma “agenda expandida” para o dia já folclorizado como efeméride cívica e comercial, marcado pelo debate público sobre cultura e costumes, procurando distanciar-se da problemática essencialmente moral que pauta a comunicação de massa. No lugar de batalhar pela “inclusão” nos fluxos econômicos e culturais da sociedade de consumo modernos, caberia ao feminismo questionar os fundamentos desta sociedade com base no seu ponto de vista. Em vez de redefinir o papel da mulher na contemporaneidade, trata-se de questionar a divisão de papéis em si – e, por “papel”, podemos entender “trabalho”. Assim, desde logo, verifica-se uma cisão entre os trabalhos ditos “produtivos” (preponderantemente masculinos) e os trabalhos de cuidados, ou reprodutivos (femininos). Perguntar pelo valor dessas atividades humanas é o princípio de uma economia feminista – ou melhor, de uma mirada feminista sobre toda a economia.¹

Nesses últimos trinta anos, as mulheres experimentaram uma notável conquista nas carreiras profissionais e no valor dos salários. Ainda assim, quando comparadas aos homens, a situação está longe de ser igualitária. Uma pesquisa realizada pelo Ipea, usando dados recolhidos pela Pnad entre 1995 e 2015, revelou que a participação feminina no mercado de trabalho se manteve quase constante, em 54% a 55%. No caso dos homens economicamente ativos, sua participação – oscilando levemente em razão das crises econômicas – mantém-se em uma média de 80%². A crescente inserção feminina na esfera pública e no trabalho assalariado parece ter chegado a um limite incapaz de ser transposto.

A ausência no mercado de trabalho não significa que metade das mulheres não esteja fazendo nada, e, sim, que não consideramos as atividades que fazem como trabalho, embora o sejam. A manutenção do espaço doméstico, a criação dos filhos, o preparo da alimentação, a orientação para a sociabilidade, o trato com a saúde integram o que chamamos de trabalho de cuidados e são essenciais para a reprodução humana, da sociedade e da atividade econômica, que não existiria sem ele. Toda a atenção e empenho de que um trabalhador adulto precisa para crescer, tornar-se e manter-se produtivo e eficiente decorrem de uma divisão de tarefas socialmente produzida para esse fim. No entanto, esse trabalho não é reconhecido socialmente, enquanto se mantém à margem da mediação monetária e da importância política.

Embora o trato materno seja uma constante na história humana, as sociedades modernas intensificaram e naturalizaram a cisão entre o lar e o emprego no mercado como duas esferas separadas. Se, há cerca de duzentos anos, o cuidado com os dependentes e a sustentabilidade da vida era compartilhado por toda a família e a comunidade, a era industrial relegou essas tarefas ao mundo doméstico. A divisão sexual do trabalho serviu para retirar crianças e mulheres de atividades extenuantes (como de fato era o trabalho fabril), mas, ao mesmo tempo, conferiu a elas todo o ônus não remunerado do cuidado necessário à reprodução da família e da mão de obra apta ao trabalho na produção e no mercado, obstruindo seu acesso ao dinheiro e à deliberação pública. Os avanços sociais nas relações de gênero podem, assim, ser vistos como arbitragens dessa relação conflituosa entre a reprodução da vida e a produção de mercadorias e serviços.

Diferentes sociedades lidaram com a questão de formas distintas. Contudo, maneira geral, assistimos, no século XX, à responsabilização maior do Estado na reprodução social, por meio da oferta de serviços públicos como creches, escolas e assistência à saúde, ao mesmo tempo que o progresso tecnológico ofertava produtos para consumo de massa que auxiliavam as atividades domésticas e os serviços básicos, reconfigurando o lugar da mulher na dinâmica econômica. Ainda assim, estava invisível o trabalho feminino que, por meio do consumo, transformava a renda recebida em bem-estar e melhoria do padrão de vida. Por mais que tenha sinalizado importantes avanços, é esse período que vemos, nas últimas décadas, dando sinais de seus limites.

O ascenso feminino na esfera do mercado não veio acompanhado de uma reorganização da oferta de cuidados, nem por parte da família, nem pelo poder público. Ao contrário, o trabalho feminino se intensificou, acumulando ocupações remuneradas e não remuneradas. Estamos diante do que tem sido chamado de uma “crise do cuidado”, em que a participação no funcionamento da economia compromete a devida criação das gerações futuras de trabalhadores e trabalhadoras.

A solução encontrada até agora para lidar com essa contradição é estimular a criação de mercados de cuidadores e terceirizar as atividades de atenção e proteção. No entanto, e aqui voltamos ao início, essa nova economia de serviços domésticos serve somente ao “1%” da população mundial que pode pagar para que outros cozinhem, lavem, arrumem, tratem, vistam, sirvam, ensinem, orientem, estimulem, acompanhem, protejam, transportem etc.

Embora o feminismo tenha uma experiência privilegiada para perceber essas contradições, a crise do cuidado não envolve apenas mulheres. Pautar a economia do trabalho de cuidados é reconhecer que somos interdependentes e procurar novas maneiras de organizar a sociedade, priorizando a sustentabilidade da vida sobre a economia de mercado, de modo a gerar uma resposta política coletiva.
De fato, uma organização nova não é tão utópica. Como nota um insuspeito antropólogo, as classes trabalhadoras, como tal, já se tornam cada vez mais “classes cuidadoras”. A maior parte dela (e a mais mal paga) trabalha cuidando de pessoas ou de objetos de outras pessoas: “Se você pensar, não é disso que se trata a vida, basicamente? Seres humanos são projetos de criação mútua. A maior parte do trabalho que fazemos é sobre os outros. As classes trabalhadoras apenas fazem uma quota proporcionalmente maior”³.

Celinha Nascimento (Celinha no Respeitar é Preciso!)
Gabriel Nascimento

¹ Há em português uma cartilha chamada Para entender a economia feminista, excelente material de apoio à discussão sobre o tema, produzida pela Sempreviva Organização Feminista (disponível em: http://www.sof.org.br/2015/08/04/para-entender-a-economia-feminista/). De resto, o que se segue é uma introdução sobre o assunto, feita com base nas sínteses realizadas por: Cristina Carrasco, “La economía feminista: una apuesta por otra economia”. In: VARA, Maria Jesús (Coord.). Estudios sobre género y economia. Madri: Akal., 2006, p. 29-62 (disponível em: http://obela.org/system/files/CarrascoC.pdf); Corina R. Enríquez, “Economia feminista y economia del cuidado”, Nueva Sociedad, n. 256, mar.-abr. de 2012 (disponível em: http://nuso.org/media/articles/downloads/4102_1.pdf); Nancy Fraser, “Contradictions of capital and care”, New Left Review, n. 100, 2016 (disponível em: https://newleftreview.org/II/100/nancy-fraser-contradictions-of-capital-and-care).
² A pesquisa Retrato das desigualdades de gênero e raça (1995-2015), divulgada em 6/3/2017, está disponível no site do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) (http://www.ipea.gov.br/retrato/apresentacao.html). Sobre ela, há um conciso comentário em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/03/07/5-fatos-sobre-as-mulheres-no-Brasil-segundo-este-estudo-do-Ipea.
³ David Graeber, “Caring too much”,. The Guardian, 26/03/2014. (tradução livre). É atribuída a Graeber a expressão “Nós somos os 99%”, bordão das manifestações em Wall Street, Nova York, em 2011, e amplamente difundido desde então.

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