Mediação de Conflitos: pra começo de conversa
29 de agosto de 2017
Por uma escola livre de violências
24 de outubro de 2017

Educação em Direitos Humanos na Educação Infantil

PARA CRESCER, PRECISA HAVER CONFLITO: CONFLITOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Por Maria Paula V. Zurawski (educadora/Vlado Educação)

 

 

Para começo de conversa

Antes de tudo, vamos lembrar que, atualmente, é possível encontrar orientações para que se observe e respeite os Direitos Humanos na Educação Infantil em todos os documentos oficiais, diretrizes e orientações curriculares dos últimos anos. Exemplo disso é o documento “Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças”, do MEC/SEB, de 1998 (disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/direitosfundamentais.pdf). Mais recentes, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2010) afirmam os objetivos da Educação Infantil de garantir o direito das crianças:

  • ao acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de saberes e conhecimentos;
  • à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outros meninos e meninas.

A concepção de educação de crianças explicitada nas DCNEI rompe, assim, com dois modos de educação: o assistencialista e o escolarizante, que durante muito tempo predominaram em creches e escolas brasileiras.

A Base Nacional Curricular Comum para a Educação Infantil (BNCC-EI), ainda em discussão para a elaboração de uma versão final, sublinha as concepções de criança e do currículo já expressas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCN-EI) e está organizada em torno do compromisso de garantir cinco direitos básicos das crianças: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer. A organização curricular com base nos direitos das crianças é um grande passo para reconhecê-las, não como objeto, mas como sujeito, e sujeito de direitos. Assim, vimos assistindo nos últimos anos a uma mudança na concepção de educação, do papel da Educação Infantil e das representações das crianças pequenas na sociedade.

Não podemos nos esquecer de que a criança é, simultaneamente, um sujeito que necessita e tem direito à proteção e que necessita e tem direito à educação. Nos CEI e nas EMEIs, é preciso que suas educadoras e seus educadores reconheçam a situação de desigualdade das crianças diante dos adultos, mais poderosos em seus papéis sociais, e que, por isso mesmo, e por terem escolhido ser educadoras e educadores, devem protegê-las e procurar sempre defender seus direitos.

Esta reflexão – sobre poder, proteção, educação e direitos – deve estar sempre presente em seu modo de estar com as crianças.

 

Conflitos na Educação Infantil

E por falar em representações, há quem tenha, ainda hoje, uma ideia das crianças como seres puros, inocentes, seres que são só “fofura” e bondade. É essa a representação de criança que surge frequentemente na mídia, nas campanhas beneficentes veiculadas na televisão, nas novelas, nas propagandas. Além de outros estereótipos: a criança “ideal” é na maior parte das vezes branca, tem uma família “estruturada”, dorme cedo, e por aí vai… Qualquer criança que fuja desse estereótipo pode ser rapidamente classificada como complicada ou problemática, levando-nos logo a nos perguntar sobre a causa dos seus problemas. Mas nós, educadoras e educadores, sabemos que não é bem assim. Ao olhar para as crianças como sujeitos, reconhecemos que elas pensam, têm desejos, observam o mundo e as relações entre as pessoas, constroem hipóteses e conhecimentos sobre o que as cerca. Agem e reagem. E, por isso, vivem conflitos e entram em conflito. Henri Wallon (1995) nos convida a valorizar os conflitos entre as crianças, e mesmo entre crianças e suas professoras e seus professores como situações que não devem ser evitadas, mas encaradas e reconhecidas como potencialmente promotoras de boas oportunidades para exercitar a alteridade, colocar-se no lugar do outro, aprender a viver em grupo. Viver é conflito. Descobrir o outro é conflito. Na Educação Infantil, situações como descobrir que os brinquedos da escola não são apenas seus, mas de todos, e que devem ser compartilhados, podem trazer e gerar conflitos para as crianças pequenas. Um dos papéis das professoras e dos professores de Educação Infantil é saber utilizar essas situações para promover aprendizagens para as crianças, e não fugir delas.

Mas e a violência?

Sabemos que, por meio de suas brincadeiras, as crianças muitas vezes querem compreender algo ou nos mostrar algo. Quando a violência é tema de seus jogos, é importante observá-los. Vivemos num mundo violento, de relações pouco cordiais, de desconfiança e onde o medo está presente. Assim, a violência está na pauta das crianças.  E, se as relações violentas, o medo ou a preocupação com a violência forem predominantes para as crianças, certamente surgirão em seus jogos e em suas brincadeiras.

Antes de nos indignarmos, nos assustarmos ou mesmo culparmos as famílias porque as crianças nos parecem violentas, é importante lembrar que, antes de qualquer coisa, elas são crianças. Diante de nós, precisam de um olhar cuidadoso, de proteção e de opções para  escapar de um círculo vicioso que muitas vezes se fecha em torno delas quando ainda são muito jovens.

Quando, para uma criança, o mundo é tão restrito que o que lhe resta é apenas a reprodução frequente de atitudes ou temas violentos em suas brincadeiras, podemos nos perguntar: O que fazer para ampliar as possibilidades simbólicas das crianças? O que a escola pode fazer? Longe de ser responsabilidade exclusiva da escola resolver todos os problemas das crianças, é certamente papel da escola – também colocado nas DCN-EI, nas orientações curriculares, e em outros documentos normativos – ampliar as possibilidades das crianças de compreender e de se relacionar simbolicamente com o mundo. Saber como fazer isso é um aspecto importante da profissionalidade da educadora e do educador infantil, e deve estar presente nos currículos de sua formação inicial e em sua formação continuada.

Por exemplo: ao ampliar o universo de histórias, lendas, mitos e canções que contamos e lemos para as crianças, é possível mostrar a elas que a violência, a injustiça e a maldade podem existir, mas também há a possibilidade de vencer, de superar, de fortalecer o espírito. Basta pensar na presença da violência e da tristeza, mas também da força e da alegria, na literatura de cordel, na música sertaneja ou nos mitos gregos. As crianças não gostam de uma coisa só. Podem ampliar seus conhecimentos e gostar de várias coisas se pudermos mostrar isso a elas em nossos projetos e planejamentos, para que tantas coisas maravilhosas que há no mundo possam ser por elas acessadas. Por todas as crianças – afinal, é seu direito.

O que é mediar conflitos na Educação Infantil?

Para finalizar: a Mediação de Conflitos na Educação Infantil não ocorre apenas em momentos especiais ou quando a situação está fora do controle. Pelo contrário. Mediar conflitos é algo que se faz todos os dias, já que, nessa faixa etária, as crianças estão justamente construindo sua identidade e aprendendo a conviver em grupo. Pode parecer estranho dizer que devemos investir nos conflitos como possibilidade de as crianças aprenderem sobre si, sobre o outro, sobre o coletivo em vez de evitá-los. Mas investir não significa fomentar conflitos; significa ajudar as crianças, à medida que crescem, a trocar ideias, ouvir e entender os pontos de vista umas das outras e, principalmente, respeitá-los. Significa poder optar por encaminhamentos menos concretos e corporais para seus conflitos, exercitando a escuta e a alteridade em vez de “partir para a briga”. Nós, adultos, podemos não apenas proteger as crianças, mas também ensiná-las a se responsabilizarem pelas decisões que tomam e pelo que fazem umas às outras. Mediar conflitos não é simplesmente fazer com que as crianças “peçam desculpas” ou que  deem “um abraço no amigo” quando o conflito acontece, mas entender o que causou o desacordo, dar espaço para que todos falem, estimular os combinados entre as crianças e ajudá-las a mantê-los.

 

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Maria Malta & ROSEMBERG, Fúlvia. Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças. 6. ed. Brasília: MEC-SEB, 2009.

WALLON, Henri. As origens do caráter na criança. Trad. Heloysa Dantas de Souza Pinto. São Paulo: Nova Alexandria, 2005.

***

Assista também ao webinário com Paula Zurawski, convidada do 2° Encontro Temático do Respeitar é Preciso!

Os comentários estão encerrados.