Autor da Experiência
Cargo
Assistente de Direção
Escola
Emei Rosa e Carolina Agazzi
Cidade
São Paulo
2 de abril de 2025
Iniciativa da EMEI Rosa e Carolina Agazzi fortalece a participação das crianças nas decisões escolares, criando um espaço de aprendizagem, cidadania e transformação comunitária
A participação dos alunos nas decisões escolares é um passo importante para o fortalecimento da cidadania e da gestão democrática das instituições de ensino. Ao serem incluídas nos processos de decisão, eles aprendem a importância da escuta, do respeito mútuo e da responsabilidade. Além disso, a participação contribui para o desenvolvimento de habilidades como a expressão de opiniões, a resolução de conflitos e a cooperação.
O Conselho de Crianças é um exemplo de participação democrática dos alunos da educação infantil que apresenta resultados positivos na convivência escolar, segundo a educadora Livia Pacheco, da EMEI Rosa e Carolina Agazzi, na Zona Norte de São Paulo. Elas compartilharam o relato de prática com colegas de outras unidades durante a 5ª edição dos Seminários Regionais das Comissões de Mediação de Conflitos, um evento do projeto Respeitar é Preciso!, em setembro de 2024.
O Conselho de Crianças é um espaço essencial para que os pequenos participem ativamente da construção do ambiente escolar. A proposta é possibilitar que crianças com idades entre 4 e 6 anos tenham voz nas decisões importantes da escola, especialmente no que se refere ao projeto político pedagógico.

Conselho de Crianças – EMEI Rosa e Carolina Agazzi
Em 2023, com a volta das atividades presenciais da unidade escolar após a pandemia, a coordenação do Conselho de Crianças foi retomada com o apoio das professoras e da coordenação pedagógica, que sensibilizada pela necessidade de fortalecer a participação das crianças, passou a liderar esse movimento. As reuniões mensais do conselho são momentos em que as crianças discutem, decidem e até intervêm em situações da escola, sempre com o objetivo de melhorar o ambiente escolar e, ao mesmo tempo, fortalecer o senso de pertencimento e de responsabilidade.
Engajamento e pertencimento no ambiente escolar
No começo do ano letivo, as crianças da EMEI Rosa e Carolina Agazzi participam de algumas rodas de conversa em suas salas de aula, onde as educadoras e educadores explicam o que é o Conselho de Crianças e as crianças escolhem representantes de classe. Nessas reuniões entre as turmas, os educadores procuram identificar como as crianças enxergam os problemas e conflitos que acontecem dentro da unidade escolar.
“Participar da gestão democrática significa gerir a vida coletivamente, e cabe a quem participa decidir o que importa ser discutido, o que precisa ser objeto de regras e quais são elas. Assim, participar não se resume a votar e envolve decisão e compromisso. Da perspectiva educacional, trata-se de aprender a participar, o que envolve, além do exercício do respeito mútuo, a compreensão recíproca, a solidariedade e a cooperação nas práticas cotidianas e especialmente nas situações de conflito. Assim, é importante incentivar os alunos e criar condições para que eles assumam progressivamente responsabilidades para com a vida escolar” Democracia na Escola – Cadernos Respeitar é Preciso!
Lígia explica que a equipe pedagógica da EMEI busca envolver no conselho as crianças que apresentam certas dificuldades no convívio escolar. “Procuramos envolver justamente aquelas crianças que têm algumas questões específicas dentro da escola, como baixa autoestima ou comportamentos violentos. Quando envolvemos estes alunos no processo de tomada de decisão, elas começam a buscar soluções para os problemas da unidade escolar, e seus comportamentos se transformam”.

Conselho de Crianças – EMEI Rosa e Carolina Agazzi
Durante os anos de 2023 e 2024, o Conselho de Crianças se reuniu pontualmente para resolver questões que diziam respeito a toda a comunidade escolar. As crianças discutiram e tomaram decisões sobre o uso da verba escolar para compra de brinquedos e materiais escolares e quais saídas pedagógicas as turmas realizariam. Durante as reuniões com estudantes representantes, as educadoras informavam as crianças sobre quais propostas eram viáveis e justificavam suas motivações, de modo que as decisões tomadas pelo Conselho de Crianças fossem efetivamente colocadas em prática. A partir dessas discussões em roda guiadas pelas educadoras, as crianças votam uma decisão que é implementada na escola.
No ano de 2025, o objetivo da equipe pedagógica é realizar reuniões mensais do Conselho de Crianças, para que o colegiado das crianças funcione em conjunto com a Comissão de Mediação de Conflitos. “Conversamos sobre isso na última reunião com as crianças e depois com os membros da CMC. Ao meu ver, ambos os colegiados estão intimamente relacionados no exercício da gestão democrática da unidade escolar. Por isso o Conselho de Crianças vai se reunir mensalmente”, detalha Lígia.
Além da escola
A iniciativa também ultrapassa os limites da escola, levando as crianças a se envolverem com o território em que estão inseridas. A escola, como parte dessa comunidade, atua como um ponto de encontro entre crianças, famílias e educadores, estimulando uma participação mais consciente e ativa.
Segundo a assistente de direção da unidade escolar, Lívia Pacheco, a importância deste conselho vai além de uma simples representação. “Ele é uma forma de envolvimento direto das crianças nas ações da escola, incentivando-as a participar ativamente e refletir sobre o que acontece ao seu redor”, explicou Lívia. A proposta visa, ainda, o envolvimento da comunidade escolar em questões que afetam tanto as crianças quanto suas famílias, criando uma rede de apoio e ação.
Em 2024, uma das principais questões debatidas por toda a EMEI foi a conscientização sobre o descarte adequado de resíduos urbanos. Estimuladas pelo papel de protagonistas que desempenham dentro da unidade de ensino, elas elaboraram cartazes e desenvolveram ações de conscientização que foram colocadas em práticas em conjunto com as famílias sobre o problema, que afetava diretamente o ambiente escolar. A campanha de conscientização teve um resultado positivo, e o descarte inadequado de lixo no terreno da escola diminuiu. Durante a campanha, as crianças se tornaram mais conscientes de seu papel na construção da sociedade e da transformação que podem fazer no território ao seu redor.

Conselho de Crianças – EMEI Rosa e Carolina Agazzi
Em outra ocasião, as crianças demonstraram interesse em explorar conjuntamente os comércios da região. Decisão que as levaram a conhecer conjuntamente uma loja de produtos das regiões norte e nordeste localizada no bairro. Na visita, os alunos interagiram com os comerciantes, aprenderam receitas culinárias da região nordeste e ouviram as histórias contadas por membros da comunidade. A atividade contribuiu para a valorização da diversidade das culturas do território onde vivem, fortalecendo a autoestima e o pertencimento.
“O processo de aprendizagem não acontece apenas dentro das quatro paredes da sala de aula. Sair da escola e aprender com as pessoas da comunidade, aprender nos espaços junto à natureza, é importante. Faz com que as crianças construam boas memórias umas com as outras”, explica Ligia ao descrever outras saídas pedagógicas escolhidas pelas crianças em 2024, que incluiram visita às praias na baixada santista e outros espaços de cultura.
As Comissões de Mediação de Conflitos na prática
A experiência do Conselho de Crianças foi compartilhada durante os Seminários Regionais de Mediação de Conflitos, destacando a importância de ouvir as vozes dos mais jovens e a riqueza que isso agrega à dinâmica escolar e comunitária. O movimento ganha corpo e visibilidade, e seu impacto é sentido não só na escola, mas também fora dela, gerando um exemplo de como a escuta ativa e o engajamento dos pequenos podem transformar positivamente o ambiente coletivo.
Os Seminários Regionais são uma de muitas atividades formativas promovidas pelo projeto Respeitar é Preciso!, que possibilita que os educadores da Rede Municipal de São Paulo construam novas formas de ensinar e aprender.
“Antes de participar da formação do Respeitar é Preciso!, eu não mensurava a importância da mediação de conflitos dentro da escola e, consequentemente, do Conselho de Crianças. Eu acredito que esses dois aspectos estão muito conectados. Quando participamos da formação de mediação de conflitos, começamos a perceber que esse colegiado, formado pela comunidade escolar, é um dos aspectos mais importantes dentro da escola”, afirma Lígia.
A educadora explica que as interações entre todos os membros da comunidade escolar são fundamentais para uma educação democrática, respeitosa, autônoma e criativa. “Infelizmente, muitas vezes esse tipo de trabalho é negligenciado. Já ouvi de outros educadores que isso é ‘bobagem’, mas, na verdade, é isso que modifica completamente o cenário. Esse tipo de prática é o que, de fato, contribui para uma educação pública de qualidade”, conclui Lígia.
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