Tarefa 6 – Curso REP! – Márcia Rosa dos Santos Silva

Data

7 de agosto de 2020

Cursista

Márcia Rosa dos Santos Silva

Função

Professora

DRE / Unidade Educacional

Santo Amaro

Escola

Maria Lúcia dos Santos

Proposta de Projeto em “Educação em Direitos Humanos para todos os Humanos”.

 

Formações em Direitos Humanos e em Mediação de Conflitos em encontros agendados com grupos de professores e funcionários da escola; e aulas sobre Direitos Humanos para todos os alunos da unidade.

 

Espaço: as formações e as aulas acontecerão na escola, preferencialmente na sala de leitura em razão da composição do espaço disposto com mesas redondas em formato circular.

 

Tempo: será iniciado no retorno às aulas em 2021, em encontros de pequenos grupos de professores e funcionários da escola em horários de Jeif; e em aulas de 45 minutos semanais para cada turma de alunos nas aulas de Português e/ou Matemática.

 

Tema: “Educação em Direitos Humanos para todos os Humanos: comunicação não violenta e mediação de conflitos”.

 

Justificativa:

O presente projeto foi idealizado a partir da constatação de que há uma grande deficiência de comunicação na escola onde sou professora, no Ensino Fundamental II. A comunicação na unidade é a mais falha possível, causando muitos ruídos entre docentes, entre docentes e alunos, entre docentes e funcionários e, sobretudo, entre docentes e direção, além de desavenças e atritos entre alunos e entre os adultos em geral. Em fevereiro desse ano, candidatei-me para fazer parte da comissão de mediação de conflitos da unidade. Sou professora módulo de Português e professora de projeto contraturno de Língua Francesa. No entanto, devido à pandemia, tal função se perdeu. O único contato que tive sobre o assunto “Mediação de conflitos” foi no curso Respeitar é Preciso. Antes  do curso, eu apenas queria fazer algo em mediação de conflitos, sobretudo com os alunos indisciplinados. Como módulo, minhas ações são muitos limitadas nessa escola. Sendo assim, a única ação que eu propunha a alguns professores aceitavam com muita pressa e alívio era levar alunos indisciplinados comigo para me ajudar a molhar a horta em dias quentes de sol ou sem chuva. Os alunos adoravam e sempre pediam que eu os chamasse para ajudar, pois a cada dia eu seleciona alguns juntamente com o professor da aula, que sempre escolhia os “mais difíceis”. Portanto, eu tinha um grande desejo de fazer algo, mas não tinha ideia de como fazer. Graças ao curso Respeitar é Preciso, hoje consigo visualizar uma estrutura organizacional, como professora regente que um dia serei e/ou como mediadora de conflitos, conforme eu tinha me candidatado, ressaltando para a coordenadora que eu queria muito, apesar de não ter ideia de como agir. Após esse curso, percebo que eu tinha ideias muito corretas, mas essa formação validou muito aquilo que eu gostaria, mas não saberia como estruturar. Agora entendo como tal ação é extremamente necessária para que os muitos conflitos na minha escola sejam aproveitados de forma criativa ao invés de produzir apenas desavenças e frustrações por parte de todos, sobretudo dos professores em relação à direção, afetando, em consequência, violentamente o trato dos professores com os alunos.

 

Organizações envolvidas: Grêmio, CMC, APM.

O Grêmio, que seria criado nesse ano, mas ficou adiado para o ano que vem, dentro de suas funções, poderá mapear os problemas que podem facilitar a comunicação entre todos os atores envolvidos na unidade. A Comissão de Mediação de Conflitos poderá ser formada a partir das ações promovidas pelo presente projeto. Já a APM atuará no momento no qual as ações serão levadas aos pais, com o objetivo de que também eles façam parte de tal construção, não só ficando a par, mas sugerindo ações e dando seus relatos. Não queremos que as informações sejam apenas transmitidas, mas que a comunicação envolva a comunidade para que ela faça parte do cotidiano escolar, como parceira e como usufruidora. Ou seja, todas essas organizações servirão de fontes de escutas, como aprendemos no curso, tão necessária. Eu procurei estabelecer essa escuta em algumas ocasiões na escola, mas, sozinha e fragilizada, vi-me impotente e pouca amparada. No entanto, com o projeto criando essa estrutura organizada, as ações poderão ser compartilhadas com um grupo de responsáveis.

 

Finalidade:

A intenção é a de que os conflitos sejam aproveitados para desenvolver as potências dos alunos, sobretudo dos ditos indisciplinados e que os professores consigam dialogar de forma não violenta com os alunos, para que não sejam como a juíza que vimos no filme no curso que não dá espaço para o diálogo, apenas vocifera sua ladainha moralista, ou, como disse a professora na Live 6 do curso, estabelece-se uma situação  inquisitória na qual, como já presenciei, professores não dão o menor espaço para o diálogo, muito menos a escuta dos alunos, acusando-os antecipadamente. E que os alunos sejam mais tolerantes e respeitadores das diferenças entre eles, visto que eles se tratam de forma violenta, preconceituosa, racista e homofóbica, para ficar em algumas situações. Que os professores respeitem as dificuldades dos funcionários e os vejam como parceiros e não como seus empregados. Que os  ATEs consigam uma comunicação mais produtiva com os alunos, sendo empoderados como atores merecedores de respeito por parte de todos.

 

Objetivos:

– formação de alunos mediadores de conflitos;

– que os alunos indisciplinados sejam direcionados para posições de lideranças respeitando seus perfis;

– formação de adultos como mediadores;

– estabelecimento de estratégias para uma comunicação mais horizontalizada e democrática entre adultos, alunos, funcionários, familiares dos alunos e comunidade no entorno;

– formação de uma comissão anual com esses atores mediadores que poderão levantar, mais pontualmente, as necessidades específicas para melhorar a comunicação e estabelecer relações democráticas.

 

Duração: anual, com renovação para os anos subsequentes.

 

Quais serão as ações: formação dos professores em geral; formação com os demais adultos; aulas de formação para os alunos semanalmente; estabelecimento das comissões mediadoras que agirão em momentos mais pontuais; e trabalho contínuo de formação em Direitos Humanos.

 

Avaliação:

– percepção de como as situações mais pontuais foram administradas pela comissão;

– observação do engajamento dos demais adultos;

– verificação das transformações de tratamento entre alunos e entre alunos e adultos;

– produção de um resultado final, em forma de trabalhos por turma, desse percurso no final do ano, que deverá ser apresentado em forma de exposição e exibição de vídeos e entrevistas dos envolvidos;

– se possível, estabelecer conexões e conversas de apoio com colegas que tenham feito o curso Respeitar é Preciso, visto que, pelas questões levantadas durante a Live, somos muitos incomodados e sofrendo com a comunicação violenta e autoritária em nossas escolas, como também com a relação de comunicação violenta em direção aos alunos.

 

Quando cheguei à escola há 2 anos e meio, minha primeira escola no cargo, fiquei chocada com a forma violenta que os alunos se tratam. Muitas vezes eles me diziam que estavam apenas brincando, mas não acredito que os alunos que ali estavam sendo tratados de forma preconceituosa, racista e homofóbica estivessem confortáveis. Eles apenas preferem “levar numa boa”. Com o tempo, também fui me aborrecendo com a forma violenta, agressiva, preconceituosa, racista, homofóbica e sem a menor empatia que os professores tratavam os alunos. E percebi que eles se uniam contra os alunos dessa forma. Somando à frustração desses professores pelo fato de a direção procurar, de forma bem omissa, não ter conflitos com os alunos e seus familiares. A cada fala minha, eu era taxada como a novata cheia de ideais. A minha frustração foi muito grande. Por razões a mais, fui diagnosticada com depressão há um ano. Nesse período, realizava meu projeto de Língua Francesa. Minha expectativa era de não encontrar os alunos do projeto no retorno de minha licença, devido à dinâmica pouco compromissada que acontece na escola. No entanto, os alunos estavam lá. E eles se tornaram toda a minha força, a minha motivação, a minha vontade de continuar, pois eu não tinha o direito de desistir e deixá-los. Assim, o projeto ganhou uma dimensão enorme, extrapolou todas as expectativas e eu tive, sozinha, sem auxílio de ninguém, um grupo de quase 40 alunos que me acompanhou até os derradeiros dias letivos de dezembro para não me deixar sozinha na unidade, pois, sem eles, eu tinha crises de ansiedade lá. No grupo, que era tão diverso, tive a experiência de relações de respeito acima de tudo entre esses alunos tão diversos, porque todos eles sabiam que no grupo eu não permitiria o menor desrespeito, demonstrações de preconceito, racismo ou homofobia. Foi uma experiência tão rica para uma professora tão nova na rede como eu que me encorajou a não desistir dos meus ideais para a educação que acredito. Salve Paulo Freire e os Direitos Humanos para todos!

Eu e meu grupo de alunos do projeto de Francês no mês de dezembro (apenas nós na escola!)