Tarefa 6 – Curso REP! – Fabiana Cristina da Luz

Data

27 de julho de 2020

Cursista

Fabiana Cristina da Luz

Função

Professora Fund II e Médio

DRE / Unidade Educacional

Ipiranga

Escola

EMEF Sylvia Martin Pires

APRESENTAÇÃO | INFORMAÇÕES INICIAIS

A proposta de ação que irei apresentar consiste em um Projeto que desenvolvemos no CIEJA (Centro Integrado da Educação de Jovens e Adultos) Clóvis Caitano Miquelazzo, também conhecido como CIEJA Parque Bristol, que é um bairro localizado na Zona Sul de São Paulo, próximo a divisa com os municípios de São Bernardo e Diadema. É importante destacar que o bairro se insere no território da Subprefeitura do Ipiranga, mais especificamente no distrito administrativo do Sacomã e se caracteriza por ser um bairro periférico, mas nem tanto.

Esse apontamento inicial é importante porque nos últimos anos, em decorrência dessa questão geográfica atrelado ao boom imobiliário, a região vivenciou um processo intenso de construção de prédios que atendem a classe média e/ou média alta em ancensão, o que tem contribuído e fortalecido uma onda conservadora no bairro, esse processo, inclusive, tem sido pauta das ações desenvolvidas no âmbito das práticas pedagógicas da escola, conforme abordarei adiante.

Cabe salientar também que o CIEJA possui uma organização diferenciada, inclusive de outras escolas da Rede Municipal que realizam a Educação de Jovens e Adultos.  O CIEJA é uma escola especializada na EJA e diferente das escolas regulares, os discentes possui uma carga-horária de aula reduzida (2h15 por dia). Por esse motivo, a diversidade tão comum dessa etapa educacional é intensificada.

O estudante do CIEJA não se caracteriza por ser aquele estudante, de certa forma, comum na história da EJA, ou seja, o trabalhador/trabalhadora, migrante da área rural que não teve seu direito à educação assegurado. Na atualidade há uma crescente presença de adolescentes e jovens com histórico de retenção escolar, que ao completarem 15 anos são “convidados a se retirarem” das EMEFs; pessoas com deficiências que nunca estudaram; mulheres que engravidaram na adolescência; mães solos; homens e mulheres egressos do sistema prisional; aposentados, mães de estudantes mais jovens que foram “encaminhados” das EMEFs para o CIEJA e viram nesse espaço uma oportunidade para voltar a estudar; mulheres que saíram de relacionamentos abusivos e/ou violentos;  trabalhadores com ampla experiência que foram incentivados pelas empresas a voltarem a estudar para serem promovidos, enfim existe uma ampla diversidade racial, étnica, geracional, de gênero, entre outras, que torna o espaço da escola a priori um espaço de conflitos, em virtude das trajetórias pessoais que influenciam diretamente na visão de mundo de cada um.

Como assegurar uma prática pedagógica nesse contexto? Como garantir o direito à aprendizagem, mas contribuindo também para uma reflexão crítica e humana sobre a nossa sociedade?

Esse era um dilema em 2015, quando a escola optou por “desescolarizar” as práticas pedagógicas, a partir do desenvolvimento do Projeto Curricular Integrado (PCI). A proposta era reorganizar tempos, espaços, currículos, relações internas (dentro do espaço escolar) e externas (território educativo – bairro). Assim, no final de cada ano letivo discute-se coletivamente qual será a temática dos PCIs a serem desenvolvidos no ano seguinte. Com a publicação do Currículo da Cidade a temática fundamenta-se também nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Após a seleção dos temas, faz-se uma votação e os dois que recebem mais votos são selecionados, pois são desenvolvidos dois PCIs por ano, um por semestre.

Essa apresentação inicial é importante para contextualizar o relato que virá a seguir. Desse modo, abordarei o PCI do 2° semestre de 2019, cujo tema foi: “Educação e Desenvolvimento Humano” e a ODS que orientou a construção e as práticas educativas do Projeto foi a ODS 16 “Paz, Justiças e Instituições Eficazes”.

Saliento ainda que para o desenvolvimento do PCI é construído um documento que demonimamos de “Mapa do PCI “ (Ver ANEXO 01), é ele que direciona as práticas pedagógicas ao longo das semanas, aliás o Projeto se organiza a partir de três “tipologias “de semanas, são elas: Semana de Sensibilização; Semana Temática e Semana de Sistematização.

O mapa possui uma questão orientadora, que se desdobra em outras três questões, uma para cada Semana Temática, além disso, cada semana temática possui outras três questões que tratam do “problema” a partir das dimensões pessoal, local e global.

De forma resumida funciona assim: A semana de Sensibilização é a aproximação inicial do problema-tema a ser trabalhado (uma semana). A Semana Temática é aquela na qual abordamos o desdobramento do problema (três semana no total do PCI), a partir de uma prática interdisciplinar e coletiva e na Semana de Sistematização aborda-se o problema-questão da Semana Temática com foco nos Objetivos de Aprendizagem e Desenvolvimento dos Componentes Curriculares (são seis semanas no total). A visualização do Mapa do PCI, anexado como imagem, ajuda na compreensão da organização/prática do PCI.

RELATO DA PROJETO CURRICULAR INTEGRADO DESENVOLVIDO

Durante o ano de 2018 o debate sobre as eleições presidenciais e especialmente sobre ações e discursos que desrepeitam a dignidade humana de diversos grupos que compõem nosso país, e consequentemente da nossa escola, aflorou e fortaleceu opiniões conservadoras e discriminatórias. Comentários em favor da violência policial, que, infelizmente, está cada vez mais comum no bairro, e da qual parte dos estudantes já foram vítimas, críticas aos direitos das mulheres, posicionamentos racistas, desrepeito à liberdade religiosa, entre outras violências simbólicas começaram a aparecer com mais frequência nas aulas e nas conversas entre os próprios discentes também.

O tema PCI deveria possibilitar a problematização dessas questões. Havia por parte da comunidade escolar, especialmente da gestão e da maioria dos professores, a compreensão de que era necessário pautar a questão dos direitos humanos e da defesa dos grupos histórica e violentamente excluídos.

Assim o tema do PCI e a ODS votadas permitiram articular a questão dos direitos sociais com os direitos civis, centralizando o debate sobre a dignidade e a liberdade, em conjunto com o discussão acerca do papel das instituições na garantia dos pactos sociais firmados em prol desses direitos. Buscando contemplar essa temática a pergunta-orientadora construída para o PCI foi a seguinte: “Educação e Justiça: como instituições eficazes asseguram o desenvolvimento humano e promovem a paz?”

Na semana de Sensibilização trouxemos o debate a partir de um vídeo construídos pelos professores no qual articulamos o conceito de paz com a garantia de direitos nas dimensões pessoal, local e global e com foco na questão do direito à vida, à saúde, à educação e à justiça.

Nas semanas temáticas buscamos debater (i) o papel da educação e da justiça na garantia dos direitos de cada sujeito da comunidade escolar; (ii) a presença do Estado no bairro (que denominamos de quebrada no PCI); (iii) a paz e a justiça como conceitos construídos e garantidos social e coletivamente; (iv) o papel das instituições para o desenvolvimento humano e para a promoção da paz e (v) como coletivamente podemos contribuir e assegurar para a existência de instituições eficazes.

Foi um longo processo. Com práticas pedagógicas diversificadas. Com escuta e troca entre todos os membros da Comunidade Escolar (incluindo associações, movimentos sociais e coletivos do bairro e da cidade). Na sequência, para ilustrar, abordo algumas práticas/açõesdesenvolvidas no decorrer do PCI que possibilitaram uma reflexão conjunta e de intenso aprendizado para toda a Comunidade Escolar.

Dinâmica Verdade ou Mentira: Na semana de Sensibilização, apresentamos uma série de frases de políticos e representantes públicos brasileiros que violam os direitos humanos. Os estudantes deveriam indicar se a frase era mentira ou verdade. Caso o estudante indicasse que a frase era verdadeira, ele deveria apontar também quem era o autor da mesma, havia uma lista prévia de pessoas que ele poderia selecionar.

Numa das aulas um estudante disse: “Nenhuma dessas frases deveria ser dita por nenhuma pessoa, por isso, irei assinalar todas como mentira, pois não quero acreditar e não defendo que ninguém fale algo parecido, que desrepeite o direito das pessoas”.

Outro estudante questionou a atividade, ressaltando que parecia que havia um posicionamento político da escola. Disse que a escola não deveria lidar com esses temas. Foi um debate interessante especialmente pela escuta atenta dos colegas e pelos argumentos apresentados. Uma estudante argumentou durante a conversa que esses assuntos deveriam ser trabalhado na escola sim, especialmente por sua experiência pessoal, ela contou que depois que ingressou no CIEJA descobriu que era racista, porque a vida toda nunca havia escutado nada positivo sobre as pessoas negras e as aulas possibilitaram a revisão de suas atitudes e posicionamentos.

A palestra “Sistema Prisional e os Direitos da População Carcerária” também foi uma ação importante, havia no cronograma a proposta de uma atividade com a temática, mas tal ação ganhou uma centralidade quando dois jovens foram assassinados pela Polícia Militar, numa rua bem próxima a escola, e anos atrás um deles havia sido estudante do CIEJA. Alguns comentários como “se a polícia matou, boa coisa não era” começaram a aparecer nas conversas entre os discentes, e decidimos convidar dois estudantes egressos do sistema prisional para fazer uma palestra.

O debate foi extremamente rico, não apenas para os discentes, mas também para alguns docentes que possuíam uma visão discriminatória sobre a população carcerária. Um estudante, filho de um policial militar disse que desejava ser policial também, mas que ao escutá-los passava a ter um olhar diferenciado sobre a importância dos direitos para todas as pessoas independente de suas ações.

Contudo, alguns estudantes ainda não compreendiam muito bem porque garantir direitos para uma pessoa que cometeu um crime. Diziam que admirava as histórias dos estudantes que estavam realizando a palestra, mas que eles eram exceção, que as instituições e a justiça eram falhas e concediam privilégios aos criminosos.

Optamos assim por uma ação prática com as turmas. A realização de um julgamento. Dividimos as salas em três grupos. Um de acusação, outro de defesa e um terceiro que deveria mediar o debate e propor questionamentos, além de assegurar a escuta e o direito de fala de cada grupo. Em resumo o julgamento tratava de um réu que estava sendo acusado de homícidio, por matar um homem que ele acreditava ser o criminoso que havia estuprado sua filha. No final, após a ocorrênca de outro crime semelhante, ele descobria que havia matado uma pessoa que não tinha nenhuma vinculação com o crime do qual sua filha havia sido vítima.

Após o julgamento foi realizada uma roda de conversa na qual os relatos foram bastante interessante, especialmente no entendimento da importância das instituições.

Por fim, uma outra ação desenvolvida foi a visita ao Mutirão, que é um conjunto habitacional próximo a escola que foi construído a partir da parceria entre moradores e a Prefeitura, e também a visita a um prédio localizado na região central da cidade, que está ocupado pelo movimento de moradia. Muitos estudantes criticavam de forma intensa e constante os movimentos sociais que lutam pelo direito à moradia e à cidade.

Em ambas as visitas foi possível constatar uma  desconstrução das concepções baseadas no senso comum sobre os moradores das ocupações, desconstrução que ocorreu a partir da escuta atenta dos moradores, que eles consideravam como “outro”, como o diferente, inclusive alguns estudantes que residem em áreas de favelas. Essa foi uma das ações mais efetivas do PCI. As trocas e o respeito entre as lideranças que nos receberam e os discentes foram enriquecedoras e extremamente educativas.

No retorno para a escola algumas estudantes relataram que essa havia sido a melhor aula de suas vidas. O reconhecimento de uma prática pedagógica que ocorre fora do espaço escolar como um processo de ensino-aprendizagem evidencia que apesar de trabalhoso, o PCI possibilita a efetivação de uma educação em direitos humanos, uma educação que transforma pessoas, vidas e territórios.

Nesse sentido, o objetivo inicial do PCI de pautarmos a importância dos direitos e das instituições como fundamentais na garantia do desenvolvimento humano e no qual a educação (formal e informal) possui uma centralidade foi alcançado.

Como produto final foi realizada uma mostra cultural denominada “NA QUEBRADA”, a partir da produção de materiais e temas debatido ao longo do Projeto, com foco na garantia de direitos. O tema da mostra vincula-se diretamente aos caminhos percorridos pelo PCI, inclusive, durante as 10 semanas de execução do Projeto, entre as turmas do Fundamental I e II, foram realizadas 25 saídas. Essas saídas vinculam-se também a uma proposta contínua e constante do processo educativo do CIEJA que é a do direito à cidade como um direito humano, nesse sentido, incentivamos a apropriação dos espaços culturais e de lazer presentes no território educativo no qual a escola se insere e também de toda a cidade.

Em relação a avaliação ao longo do ano de 2019 discutimos como qualificar a prática avaliativa, haja vista que em decorrência de  trabalhamos com a metodologia de Projeto Curricular Integado (PCI), os espaços e tempos educativos são desconstruídos  e reorganizados e a avaliação também deve ser repensada. Havia a necessidade de se construir coletivamente critérios mais coerente com nossa prática pedagógica, crítérios que apesar da limitações, possibilitasse uma avaliação mais coerente com nossa organização, especialmente porque se a prática educativa ocorre de forma coletiva a avaliação também deveria ocorrer de tal maneira, mas não poderia se pautar apenas em critérios subjetivos, era necessário construir critérios minimamente objetivos que fosse apropriados por toda a comunidade escolar, em especial os/as discentes.

Assim, foram construído 5 indicadores avaliativos, cada um possui 04 descritivos e uma pontuação específica, que varia de 0,5 a 2,0. Esses indicadores foram construídos durante as reuniões dos docentes com a equipe gestora e depois foram debatidos coletivamente com os discentes representantes de turmas e/ou do Conselho de Escola e apresentado a toda a comunidade escolar. Os indicadores construidos foram os seguintes: Extraclasse (visitas culturais); Frequência; Comprometimento com a aprendizagem, Participação e envolvimento na Semana Temática e Aprendizagem na disciplina/área e conhecimento.

Os discentes foram avaliados durante todo o desenvolvimento do PCI e no final do bimestre a equipe gestora apresentou individualmente as notas para cada estudante, apresentando sua pontuação em cada indicador avaliativo. Cabe salientar que a construção de um critério avaliativo ‘transparente e objetivo’, apesar de mitigar e reduzir equívocos, não é capaz de abarcar as complexidades do processo de ensino-aprendizagem dos educandos, que a avaliação, ao menos teoricamente, deve captar. Digo isso pois, existem especificidades e subjetividades que devem ser consideradas no processo de avaliação dos educandos  e que ao aplicar os critérios de maneira “pragmática” nem sempre é possível considerá-las. Contudo, essa situação é algo inerente ao próprio processo avaliativo, que somado a diversidade das/os educandas/os da EJA contribui para o aprofundamento desta complexidade.

REFLEXÃO POSTERIORI

Passado quase um ano do desenvolvimento do Projeto e após a realização do “Curso Respeitar é Preciso” penso que há três desafios ou melhor três pontos centrais a serem debatidos no PCI do CIEJA.

O primeiro deles vincula-se a uma prática de sensibilização, de troca e escuta mais efetiva entre a própria equipe docente. Embora exista uma boa sinergia, respeito e trabalho coletivo contínuo, percebi que muitas vezes deixo de escutar atentamente posicionamentos de alguns docentes, especialmente quando se trata de visões que ignoram os direitos de grupos vulneráveis e/o que tiveram/têm seus direitos negados. Mesmo com uma sensibilidade da equipe gestora, que coordena as reuniões formativas, que cabe destacar são organizadas de forma qualificada e com um respaldo teórico fundamental, verifico que alguns docentes permanece com um olhar discriminatório para os discentes e para o território da escola.  Acredito portanto que precisamos intensificar a própria sensibilização com alguns docentes. É um desafio manter o diálogo com profissionais que não vêem o estudante como um sujeito de direito tal como ele e cuja vivência é permeada por marcadores raciais, sociais, de gênero etc. Mas, é uma prática necessária. Nesse sentido, buscarei efetivamente praticar a escuta ativa.

O outro desafio é algo que já estamos debatendo na escola. Trata-se da participação efetiva dos discentes na construção do Mapa do PCI, embora a comunidade escolar participe da definição do tema do PCI, o mapa é construído pelos docentes. Para fortalecer e garantir uma apropriação mais qualificada de todas as etapas do Projeto e para construir uma escola efetivamente democrática é importante democratizar não apenas os conhecimentos ao longo do desenvolvimento do PCI, mas a sua própria construção.

Por fim, creio que seja fundamental articular as ações da Comissão de Mediação de Conflitos com as práticas pedagógicas do Projeto Curricular Integrado, nesse sentido, penso que as reuniões dos representantes de turmas, que já ocorrem com uma certa frequência, bem como do Grêmio recém instituído, podem ser um caminho estratégico de articulação para assegurar um tratamento qualificado, respeitoso e enriquecedor dos conflitos que permeiam as relações da comunidade escolar.

ANEXOS.

Anexo 01 – Mapa do PCI

Anexo 02 – Foto da Mostra Cultural e visitas citadas no texto

Anexo 01 – Mapa do Projeto Curricular Integrado

Anexo 02 – Foto da Mostra Cultural e de algumas visitas citadas no texto