Tarefa 6 – Curso REP! – Daniela Muelas Bonafe de Andrade

Data

10 de julho de 2020

Cursista

Daniela Muelas Bonafe de Andrade

Função

Professora de ensino fundamental 2

DRE / Unidade Educacional

Jaçanã / Tremembé

Escola

Emef Marcos Melega

I – INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

Hoje, certamente mais importante que a consciência do lugar é a consciência do mundo, obtida através do lugar. (SANTOS, 2005, p. 161)

A EMEF Marcos Mélega está localizada na zona norte da cidade de São Paulo e atende alunos dos ciclos de Alfabetização, Interdisciplinar e Autoral, nos turnos matutino e vespertino. É uma escola grande e bastante reconhecida na região, que possui uma participação efetiva da comunidade. Está rodeada de comércio e avenidas importantes, com uma clientela do bairro e de bairros vizinhos. Com o passar dos anos, a escola está cada vez mais heterogênea, com alunos de classes econômicas distintas e repertório cultural variado, bem como núcleos familiares diversos, apresentando desafios diários para a prática docente.

O espaço físico da escola é amplo e com muitas áreas de uso coletivo, salas ambiente e espaços ao ar livre. É inegável que essas características contribuem para diversas possibilidades de convivência harmoniosa, mas nem sempre apenas os espaços dão conta das relações.

Também é importante ressaltar como a concepção arquitetônica da escola interfere nas relações construídas dentro dela. A escola possui um grande pátio interno com palco, utilizado para apresentações e colóquios em Direitos Humanos que já fazemos anualmente, trazendo uma concepção bastante interessante para educação, que pode ali ser democrática e libertária. Mas, apesar da escola ser grande e acolhedora, fértil para uma educação que vise autonomia e emancipação, ela ainda carecia de um projeto que fosse voltado a sustentabilidade emocional de seus alunos.

É certo que nossa comunidade, por viver as mazelas típicas da periferia, que envolvem todos os tipos de carências e preconceitos, precisa de acolhimento sempre; mas também há que se lembrar e sua força e resistência frente às adversidades, bem como sua capacidade de superação delas. Aí reside o que podemos denominar de “oportunidade”, numa perspectiva relacional mais horizontal.

Nós somos responsáveis pelo outro, estando atento a isto ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossas vidas. (BAUMAN, 2001)

Então venho contar a experiência do projeto Coletivo Rede, que iniciou seu percurso em 2017 na EMEF Professor Roberto Patrício, da DRE Freguesia do Ó/Brasilândia, com as professoras Daniela Bonafé e Nely Drumond, foi vencedor de prêmio de Educação em Direitos Humanos da Cidade de São Paulo em dez/2017 e deu seu primeiro salto em 2018 como uma nova semente, resistindo até hoje na EMEF Marcos Mélega.

A continuidade do projeto até hoje se dá por inúmeras justificativas: ex-alunos que já eram do Coletivo Rede e que ainda precisam dele para manterem-se saudáveis emocionalmente; a escola não possui um outro projeto que atenda os alunos em questões de vulnerabilidade emocional, em todos os anos o projeto colheu bons frutos, com encaminhamento de alguns alunos e famílias para atendimento terapêutico, a melhoria de rendimento dos alunos nas aulas além da formação de vínculo desses alunos com a escola como um todo.

Durante os últimos anos acompanhando os jovens nas salas de aula, percebemos o crescente e assombroso número de alunos em quadro depressivo, praticando diversas violências contra si. Nos anos de 2016 e 2017 especificamente, acompanhamos nas redes sociais e mídias de massa os jogos “Blue Whale” (Baleia Azul), Mommo e SimSimi, incitando jovens vítimas a cometerem o suicídio. Tais jogos, aliados a série americana de TV chamada “13 Reasons Why”, foram popularizados no Brasil entre jovens que possuem suas vidas invisibilizadas[1] e uma qualidade emocional pouco sadia.

Essa constatação merece atenção, pois crianças e jovens da periferia, estudantes de escolas públicas, em expressa maioria negros e pobres, são invisibilizados em decorrência dos diversos preconceitos arraigados em nossa sociedade. Decorrente desses preconceitos, essas crianças e jovens são mera estatística nas mídias de massa, nas políticas públicas e no íntimo de grande parcela da população. Suas aspirações e sonhos, bem como suas carências e necessidades, são relegadas a último plano diariamente. Evidentemente, diante do exposto, fica simples compreender a “qualidade emocional pouco sadia”.

Algumas situações se agravaram ao longo dos anos, dentre elas: a falta de comunicação com a família ou pessoa de confiança para falar sobre problemas, tirar dúvidas, fazer perguntas sobre sexualidade, drogas, medos; a falta de abertura e até de tempo por parte dos professores para tratar dessas problemáticas; a carência de uma rede de apoio social menos burocrática que o conselho tutelar e assistência social provida pelo Estado.

Nesse panorama, surge sempre uma dicotomia: como fazer com que esses jovens se sintam acolhidos e amparados em situações de violência como bullying, gravidez precoce e outras situações previstas e imprevistas recorrentes do universo juvenil, se há a uma carência de psicólogos em postos de e/ou unidades públicas de saúde; elitizando os atendimentos terapêuticos e dificultando o acesso e permanência em tratamento, dentre outros?

Os relatos do Coletivo Rede nos últimos 3 anos apontaram caminhos pouco saudáveis escolhidos pelos alunos para a resolução de seus problemas e conflitos, como a prática do cutting; a ingestão excessiva ou mínima de alimentos gerando obesidade ou bulimia; a extrapolação de regras da família; a utilização de drogas lícitas e ilícitas mesmo por crianças; o extravasamento da raiva através de atos violentos contra familiares ou amigos, o isolamento social, entre tantos outros exemplos.

Desse cenário árido, instalou-se uma grande inquietação e é essa a principal justificativa para a existência do projeto: Como podemos dar apoio e cuidarmos uns dos outros dentro do ambiente escolar? Afinal, é na relação com o “Outro” que eu construo minha identidade. Foi assim que nasceu o impulso para que o Coletivo Rede plantasse sua primeira semente na EMEF Marcos Mélega e decidisse por sua continuidade.

Fiz inúmeras formações na área de Direitos Humanos, inclusive com o Respeitar é Preciso, e à partir delas, todos os anos o projeto é aperfeiçoado e toma novos contornos. Esse ano, atípico por conta da pandemia e do ensino remoto, tivemos que reinventar nosso Coletivo e as maneiras de nos relacionar, pondo à prova mais uma vez a nossa rede. O presente curso me ajudou muito a repensar como faremos nosso retorno presencial, mantendo o caráter de acolhimento preservado, mas sem riscos para a saúde e como incluir a comissão de mediação de conflitos numa rotina integrada com o nosso grupo.

Ao final de 2019 a EMEF Marcos Mélega optou por iniciar seu percurso na Educação Integral – o que corrobora com a existência do projeto – já que nessa perspectiva, o aluno é um ser total, composto por memórias, história de vida, desejos, angústias e experiências diversas, que fazem da escola um organismo vivo, onde o currículo é a própria vida. O Programa Mais Educação em conjunto com os projetos da Escola de Tempo Integral abraçam a comunidade e a escola se torna um pólo de cultura e de relações dinâmicas.

“Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto.”

Humberto Eco

 

II – OBJETIVOS:

Os desejos que permeiam esse projeto tornam-se objetivos a serem lançados e perseguidos numa nova realidade:

  • que o jovem consiga zelar por sua autoestima, sendo capaz de perceber que é importante estar em equilíbrio emocional para ser feliz. Portanto, precisa estar atento aos sinais do seu corpo como um todo, percebendo-se como um ser humano integral;
  • o reconhecimento de sua identidade no espelho que o outro é para ele, conceito de alteridade;
  • estabelecer o lugar onde o jovem pode protagonizar sua trajetória, sem julgamentos ou comparações com os outros, sabendo que é acolhido e amado, que seus relatos e experiências são respeitados e dignos, que sua vida tem valor, que sua alma é capaz de tocar outra alma através de gestos solidários, generosos e amáveis;
  • constituir uma rede de apoio, onde o jovem se sinta amparado nas suas mais diversas questões sem que elas sejam hierarquizadas em graus de importância; um grupo facilitador para que ele encontre seu próprio caminho sabendo que não está sozinho;
  • trabalhar com a Arte-Terapia como ferramenta facilitadora dos relatos e integradora do grupo, ajudando a dar concretude para a terapêutica e com uma prática sustentada pela salvaguarda dos Direitos Humanos e
  • integrar-se à feita cultural, à comissão de mediação de conflitos e ao colóquio em direitos humanos que a escola produz anualmente.

 

III –  METAS GERAIS

  • aproximar a comunidade da escola por meio da divulgação do projeto com os alunos e nas reuniões de pais, do conselho de escola, do grêmio e da comissão de mediação de conflitos;
  • propor intervenções e ações voltadas aos Direitos Humanos, como a criação de campanhas, fundamentais para o fortalecimento e visibilidade do grupo, para que os jovens que participam do Coletivo sintam-se atuantes e necessários;
  • oportunizar o trabalho voluntário como ação correta voltada a fazer a diferença, minimizando o próprio sofrimento e o do outro através da partilha, da escuta e da generosidade; em ações sociais como visitas a abrigos, asilos e outras instituições que sejam abraçadas pela escola e pela comunidade como um todo.
  • proporcionar passeios culturais e sessões de Cine & Debate, constituindo momentos de trabalho da autoestima, valorização dos alunos e oportunidades de trazer para a realidade concreta, a abordagem de temas muito delicados de maneira sensível, como só a Arte é capaz de fazer; além de lanches comunitários e participação em outros projetos da escola.
  • estreitar o vínculo com a Comissão de Mediação de Conflitos da escola, da qual também faço parte, para traçarmos campanhas integradoras e uma rotina, em que nosso grupo pode contribuir com ideias e com suas experiências.

As perspectivas se dão no campo das incertezas, mas também do otimismo. Lançar uma semente é sempre uma ação da confiança na vida e no universo. As devolutivas durante esses anos de trabalho foram muito interessantes: as famílias agradeceram a existência do grupo e desse espaço de acolhimento porque perceberam, em casa e nas relações do dia-a-dia, mudanças benéficas em seus filhos; assim como outras vieram nos pedir ajuda, contando um pouco do que sabiam do sofrimento dos filhos, pedindo apoio e atenção.

Durante esses três anos, foram atendidos mais de 190 alunos em nosso coletivo, que fizeram avaliações muito positivas. Gostaria de citar alguns exemplos importantes que ocorreram nos últimos anos, de prática apoiadas em Direitos Humanos e que são responsáveis pela continuidade do projeto:

  • Exemplo 1: em 2018, os alunos integrantes do projeto, passaram um mês fazendo cachecóis de tricô de dedos e que foram levados, por eles mesmos, às idosas moradoras do asilo para senhoras no Horto Florestal. A visita foi maravilhosa para todos, que se sentiram amados e acolhidos. Os alunos perceberam a força de suas ações generosas e como elas podem de fato mudar o pequeno mundo de cada um.
  • Exemplo 2: Em 2018 fizemos um encontro de intercâmbio com o Coletivo Rede da EMEF Professor Roberto Patrício, para que os alunos ampliassem suas experiências e estreitassem suas relações. Puderam trocar ideias e aprenderam uns com os outros.
  • Exemplo 3: Em 2019 organizamos uma grande campanha de arrecadação de roupas e alimentos e fizemos a doação aos moradores de rua da região de Santana e Carandiru, numa tarde em que passamos conversando com essas pessoas e percebendo a realidade em que vivem.
  • Exemplo 4: Em 2019 fizemos inúmeros passeios culturais e de lazer, seguindo as votações democráticas em nosso grupo, e os alunos puderam conhecer novos lugares, se divertir e ocupar a cidade e os seus territórios.
  • Exemplo 5: Fomos à Casa 1 conhecer o abrigo para pessoas LGBT, acolhendo assim a demanda de alunos do próprio grupo, que queriam estar entre seus iguais.
  • Exemplo 6: participação na feira cultural da escola com um espaço livre para escuta e um stand com plantas medicinais para cura das dores físicas e emocionais, que foi precedida por estudos sobre as contribuições indígena e africana para o tema, bem como a participação das mulheres nesse contexto através dos tempos, fazendo os recortes de gênero e raça.

Em 2019 foi criado o primeiro Dicionário de Sinônimos do Coletivo Rede Semente, com todos os temas abordados durante o trabalho anual e a percepção de cada aluno sobre esses temas, através da atribuição de palavras sinônimas. Tal recurso trouxe um panorama do grupo, que pode ser visto como um recorte da juventude periférica atual, mas também como um sintoma das relações humanas contemporâneas que nos atravessam.

Foram vistos filmes e realizados debates, preparamos campanhas de valorização da vida, fizemos mediação de leitura na Fábrica de Cultura, visita à abrigos como Saica Edel Quinn da RedeCor, além de passeios culturais ao Masp e de diversão como ao parque Horto Florestal.

O projeto em 2017 foi apresentado no VI Encontro de Pedagogia Profunda na FEUSP, com o objetivo de partilhar essa prática fundamentada nos Direitos Humanos e foi amplamente acolhido por lá. Em 2019 foi apresentado no VII Encontro de Pedagogia Profunda como uma prática consistente, onde o trabalho abraçou desdobramentos. Essa apresentação foi fundamental para a transformação do projeto em artigo acadêmico, que escrevi e que foi  publicado como artigo de pesquisa científica na revista eletrônica Hermes ed. 24 disponível no link: https://revistahermes.wixsite.com/hermes24 . Em 2019 o projeto também ganhou o prêmio “Escolas de Paz e Liberdade” pela Bancada Ativista na Alesp, foi apresentado em diversas escolas da Dre JT como Raul de Leoni e João Domingues Sampaio e nos fóruns de saúde mental da nossa região, em parceria com a secretaria de Saúde. Também foi apresentado no II Encontro “Dialogando sobre a Rede Protetiva” no CEU Jaçanã.

Desses encontros e da intensificação do nosso trabalho junto a UBS da região, podemos dizer que hoje fazemos parte da rede protetiva de nossa região, atuando como um braço de apoio à esses equipamentos.

É o cuidado que enlaça todas as coisas; é o cuidado que traz o céu para dentro da terra e coloca a terra dentro do céu; É o cuidado que fornece o elo de passagem da transcendência para a imanência, da imanência para a transcendência e da história para a utopia; É o cuidado que confere força para buscar a paz no meio dos conflitos de toda ordem. Sem o cuidado que resgata a dignidade da humanidade condenada à exclusão, não se inaugurará um novo paradigma de convivência. (BOFF, 1999, s/p.).

 

lV – METODOLOGIA

A existência, porque humana, não pode ser muda, silenciosa, nem nutrir-se de falsas palavras, mas de palavras verdadeiras, com que os homens transformam o mundo. Existir humanamente é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar. Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão. Mas dizer a palavra verdadeira, que é trabalho, que é práxis, é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens. (FREIRE, 2005, p.90).

O Coletivo Rede Semente foi pensado como um grupo para fazer a escuta dos jovens e dar apoio a eles, assegurando um espaço para que digam suas palavras e suas emoções, na medida que o grupo consegue lidar com os relatos. A proposta é que a escuta seja problematizada e compreendida através de outras atividades complementares artísticas e terapêuticas. Aos poucos, pode-se fazer os encaminhamentos necessários com apoio da coordenação pedagógica, em consonância com as famílias.

A princípio a ideia é que seja um grupo aberto a qualquer aluno da escola que esteja cursando os 7, 8 e 9ºs anos do Ciclo Autoral e que se sinta chamado à participar, priorizando os alunos que se envolvem em conflitos, que apresentem dificuldades de aprendizagem ou de relacionamento, inibição, entre outros. Para participar do Coletivo o jovem precisa mostrar interesse e vontade. O grupo está aberto para a composição e participação de professores, gestores e outros funcionários da escola que desejarem.

Os participantes do projeto se reúnem duas vezes por semana, por uma hora e meia, após o término do horário de aulas e utiliza o parque no pátio externo. Colocamos tatames e tapetes, almofadas e nos sentamos para nossas rodas de conversas. Além dos encontros semanais, há um encontro mensal destinado a confraternização desses alunos com lanche comunitário e uma ação social por bimestre para trabalho voluntário, pois a partilha é a melhor maneira de aprender a ser solidário.

A metodologia se destaca em diversas frentes: 

  • Escuta: as histórias a serem escutadas (relatos) serão trazidas ao grupo de diversas maneiras: através do relato pessoal, ao vivo e em grupo, onde o jovem consegue assumir sua fala e sua questão; através de carta anônima à caixa de correio do Coletivo Rede, que está instalada no pátio interno, onde o jovem escreve o seu relato sem assumir que é seu e o relato é encaminhado ao grupo para que seja trabalhado por todos; através de relato individual à professora e esta, traz à todos do grupo de maneira a preservar a identidade do jovem, entre outras possibilidades;

A importância da escuta é que nela outros podem se reconhecer e à partir da fala é possível o jovem reorganizar suas emoções e ordenar seus pensamentos e atitudes, bem como entender sua própria realidade para tentar modificá-la. 

  • Problematização: discussão dos temas trazidos nos relatos, coletivamente, onde cada um presente expõe sua opinião, coloca seu conselho ou sua história, se reconhece ou não nos temas;

Quando o homem compreende a sua realidade, pode levantar hipóteses sobre o desafio dessa realidade, e procurar soluções. Assim pode transformá-la e com seu trabalho pode criar um mundo próprio: seu eu e suas circunstâncias. […]. A educação não é um processo de adaptação do indivíduo à sociedade. O homem deve transformar a realidade para ser mais. (FREIRE, 1979, p. 30-31).

  • Terapêutica: oportunização de atividades terapêuticas e artísticas que colaborem para a resolução de problemas e conflitos, bem como trabalhem sutilmente os temas abordados nos relatos e discussões;

As propostas terapêuticas e artísticas envolvem pintura, modelagem em argila, trabalho com elementos naturais, confecção de objetos significativos, dinâmicas de grupo, escrita de cartas, jogos, colagens, oficinas culinárias, desafios do bem, entre outros. 

  • Atravessando os Muros: oportunização de encontros para lanches e atividades culturais e de lazer, que fomentem a partilha e o vínculo entre todos os integrantes e que levem o projeto para fora dos muros da escola.

A proposta de atravessar os muros é para que o grupo ocupe os territórios e a cidade, conhecendo e aproveitando cada passeio, ampliando seu repertório. Além disso, traz uma perspectiva crítica que refina o olhar para que cada um possa tecer suas próprias questões sobre a realidade, com intenção de provocar ainda mais a autonomia na busca por respostas à elas.

  • Trabalho Voluntário: caracterizado por visitas a instituições diversas, para que os alunos percebam suas ações diretas no mundo e as mudanças benéficas internas e externas a eles, que tais ações podem provocar.

A partir dessa iniciativa será possível abraçar a comunidade, através do estreitamento das relações com as famílias e de trabalhos voluntários, que sensibilizem os jovens para outras realidades possíveis em que sua intervenção é de considerável importância.

 

V – COMO ESCOLHEMOS O NOME DO COLETIVO

Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida. (BAKHTIN, 1997, p.81).

A palavra “rede” vem do latim e etimologicamente significa “teia de aranha”. Rede designa, entre tantas definições, algumas bem pertinentes: uma espécie de malha resistente, formada por um entrelaçado de fios, cordas, arames ou outro material; um conjunto de pessoas, órgãos ou organizações que trabalham em conexão, com um objetivo comum e ainda um conjunto de pontos que se comunicam entre si. 

Simbolicamente, essa palavra coube bem aos propósitos do grupo, de se fortalecer e resistir, através da intercomunicação de todos, numa perspectiva de interdependência. Uma rede, feita de fios que se fortalecem através de nós, se sustentam através da tensão implicada por essa própria estrutura. Assim, trazendo para a vida, uma rede de pessoas se sustenta através de suas conexões, que se dão por pontos que possuem em comum e que podem ser pontos de tensão.

Além disso, o objeto rede é acolhedor e traz em seus contornos a confluência com o corpo, como num abraço que embala. E com certeza esse é mais um símbolo que serviu como uma luva à essa proposta. Portanto o nome Coletivo rede não é só um nome, mas é o nome que faz sentido. Na EMEF Marcos Mélega, não mudou de nome, mas a esse nome foi acrescentado o subnome Semente, porque designa a iniciativa e a felicidade de darmos continuidade à proposta.

A escolha do nome Semente veio de uma assembléia com os alunos, em 2018. Eles ajudaram posteriormente a criar o logotipo do grupo, os cartazes de divulgação do projeto na escola e o cantinho para recebimento das cartas e relatos anônimos.

 

VI – RECURSOS MATERIAIS E HUMANOS

Todos os anos, para que o grupo dê início aos seus trabalhos, são entregues autorizações para os alunos que desejam participar. No primeiro encontro são traçados os combinados (que são relembrados em cada encontro), para que os jovens sintam que suas vivências e histórias são respeitadas.

Esses combinados dizem respeito à confiança que depositamos uns nos outros, a certeza de que os relatos serão guardados com zelo, sigilo e respeito, sem que sejam divulgados ou comentados fora do Coletivo, trazendo aos integrantes a certeza de que estão seguros. Além disso, os combinados ressaltam que podemos falar livremente, mas sempre pensando no outro e em como as palavras são capazes de ajudar ou machucar, provocando sempre uma tomada de consciência sobre a responsabilidade que está implicada ao dizermos nossos pensamentos e sentimentos.

A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. (BAKHTIN, 1999, p.113).

Usamos uma caixa com pertences básicos que podem ser montados e desmontados, conforme a necessidade; almofadas e tapetes; uma pasta para arquivamento dos relatos, uma caixa de correio simples e materiais diversos de Arte e sucatas para práticas terapêuticas e artísticas.

Nosso grupo conta com o apoio da coordenação pedagógica e direção todas as vezes que se faz necessário compartilhar situações que precisem de encaminhamento para o CAPES, CRAS e outros serviços, bem como comunicar a família em casos que ultrapassem a possibilidade de intervenção ou mediação de minha parte.

Com a participação no curso esse ano, vi a necessidade do grupo se interligar com a Comissão de Mediação de Conflitos, para que os jovens possam apresentar suas ideias sobre como podemos melhorar a qualidade da sustentabilidade emocional em nossa escola. As reuniões mensais da comissão podem incluir um momento para que o Coletivo Rede Semente expresse o que pensa, após semanas de trabalhos terapêuticos e de relatos intensos, que muitas vezes não são levados em consideração nos colegiados.

Os colegiados da escola e outras instâncias nem sempre estão verdadeiramente abertos ao diálogo, ainda mais quando queremos tratar de assuntos tão delicados e importantes como os que surgem no seio do Coletivo Rede Semente. Dentro dessa realidade, já que faço também parte da Comissão de Mediação de Conflitos, pretendo incentivar que esse espaço dialogue com o Coletivo, afim de fortalecer a Cultura de Direitos Humanos que deu seu primeiro passo nessa unidade através de nosso projeto.

Sobre os gastos, os valores previstos são providenciados a partir de verba de PTRF, inclusive transporte quando necessário. As visitas voluntárias em ações sociais são optativas pelos alunos e suas famílias, mas são suportadas com recursos financeiros advindos dessa verba ou das contribuições da APM da escola.

VII – QUANDO 2020 SE APRESENTOU COMO UM DESAFIO

Para o presente ano, com o projeto já aprovado e iniciado na escola, tínhamos muitos planos, que foram bruscamente interrompidos por conta da pandemia do coronavírus, que nos obrigou a rever nossas formas de atuar e de nos encontrar. Para a preservação da vida, todos fomos compelidos à ficar em casa e as escolas fechadas, trazendo para o nosso coletivo, que preza tanto pelas relações presenciais e pelo contato, a obrigatoriedade de estar longe. Mantivemos nossos contatos semanais pelo whatsapp e por ferramentas tecnológicas como encontros virtuais via diversas plataformas, ainda que sem atingir a todos os integrantes que, por condições de severa desigualdade social em nosso país, não possuem acesso à essa forma de comunicação e de estar junto.

Imersos nessa nova realidade de ensino remoto e do agravamento da crise, que coloca as periferias em lugar mais periférico ainda, acentuando as desigualdades existentes, o Coletivo Rede se engajou com professores da escola e pessoas da comunidade, a fim de construir um Fundo Solidário para prestar apoio às famílias de nossa comunidade que precisam nesse momento. Assim, desde março desse ano, quando fomos afastados da escola, começamos um lindo trabalho de arrecadação de verbas, alimentos e roupas, para manter a nossa comunidade com o mínimo de dignidade.

Hoje, nosso fundo arrecada mais de vinte mil reais mensais, em minha conta pessoal e de mais uma professora que me ajuda e com esse valor, abastecemos 75 famílias de nossa escola com cestas básicas, produtos de higiene e limpeza, guloseimas e depósitos em dinheiro mensais de R$250 para ajudar no pagamento de contas de consumo ou aluguel. Nosso Fundo Solidário recebe doações de pessoas da sociedade civil, do mercado da região e de pequenos comércios que atuam no bairro, além de pessoas que n em conhecemos de outros estados e países, o que nos faz crer que sim, estamos no caminho certo na perseguição dos Direitos Humanos como sendo a base para uma sociedade equânime.

As cestas básicas foram entregues de carro no endereço das famílias por vários professores da unidade, que puderam também conhecer mais de perto o entorno da escola e a realidade das famílias, trazendo nova percepção sobre como é nossa comunidade.

Arrecadamos mais de 1 tonelada de roupas em bom estado junto à pessoas e igrejas, terreiros e centros espíritas, que nos proporcionaram fazer uma feira permanente de roupas na escola, para retirada pelas famílias com hora marcada, em que podem levar para casa tudo o que precisam para passar com dignidade por esse inverno e por essa pandemia. Nesse sentido, o ano de 2020 no nosso grupo está sendo tomado pela frente do trabalho voluntário, que dessa vez estamos empenhando para nossa própria comunidade.

Agora estamos preparando nosso retorno, ainda que não saibamos quando, para uma nova realidade. Nos perguntamos sempre: Como vamos nos abraçar? Como faremos nossas deliciosas rodas de conversa com o distanciamento social de um metro e meio? Como ouvirei uma confidência ao pé do ouvido? Como daremos suporte uns aos outros sem o calor do contato? Essas inquietações, aliadas ao curso e às reflexões que fiz durante essa longa quarentena, me trouxeram a necessidade de integrar a Comissão de Mediação de Conflitos conosco, em reuniões mensais com nosso grupo, a fim de traçarmos estratégias que façam com que o acolhimento não se perca por conta das novas determinações de saúde, mas que ganhe prioridade. Por isso, já estamos fazendo algumas reuniões online pensando sobre como vamos superar mais esse desafio.

 

VII – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELORS, Jacques (org). Educação: um Tesouro a Descobrir – Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Ed. Cortez, 2012.

Dessa bibliografia, retiramos algo fundamental: “A socialização de cada indivíduo e o desenvolvimento pessoal não devem ser excludentes; torna-se necessário promover um sistema que se empenhe em combinar as vantagens da integração com o respeito pelos direitos individuais. A educação não pode, por si só, resolver os problemas desencadeados pela ruptura (quando se verifica tal ocorrência) do vínculo social; no entanto existe a expectativa de que ela contribua para o desenvolvimento do desejo de conviver, elemento básico da coesão social e da identidade nacional”.

Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU, salientamos especialmente o que tange o artigo 26º, inciso I: “A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do Homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.” E assim pensamos, para que haja paz entre todos é preciso estar em paz consigo.

Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental II – Cadernos de Temas Transversais: “Pluralidade Cultural” e “Diversidade Sexual”, fica a contribuição de que os jovens vivem diversas situações em suas vidas, advindas de preconceitos étnicos, raciais, religiosos, de gênero, de orientação sexual, entre outros e que é possível trabalhar essas questões e as marcas emocionais que elas deixam, através de projetos que abranjam temas transversais.

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Sejamos Todos Feministas. São Paulo, Companhia das Letras, 2016; retiramos trechos que abordam as questões de gênero de maneira clara e objetiva, embasando nosso olhar sobre o perfil do Coletivo.

BAKHTIN, Mikail. Estética da Criação Verbal – Os gêneros do discurso. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

______________. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hicitec, 1999, nossas reflexões sobre a importância da fala, da escuta, da palavra, da socialização através da linguagem.

BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. São Paulo, Jorge Zahar Editora, 2001; trouxemos todo o arcabouço filosófico sobre as relações na modernidade e suas implicações no cotidiano da escola.

BOFF, Leonardo.  Saber Cuidar – Figuras exemplares de cuidado. Disponível em http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/07/05/saber-cuidar figuras exemplares-de-cuidado-iii-l-boff/, retiramos um pequeno trecho que exprime, com muita poética e verdade, a importância de nos cuidarmo-nos todos.

FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas. Ed. Verus, 2005, destacamos o trecho: “um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro(s), causando dor, angústia e sofrimento.” À partir dessa definição, ela traça caminhos para uma educação para a paz e traz a relevância de estar atento ao bullying, cyberbullying e a influência das redes sociais na vida do jovem, seja de maneira positiva ou negativa.

FOCAULT, Michel. Vigiar e Punir – Nascimento da Prisão. São Paulo, Vozes, 2015, é o pilar que escolhemos para o fundamentar nossas inquietações sobre as relações de poder que  permeiam o espaço escolar.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 42 ed. Rio de Janeiro, Paz e terra, 2005.

____________. Educação e Mudança. 15 ed. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1979, retiramos textos que esclarecem nossas concepções de mundo e educação.

SANTOS, Milton. Da Totalidade do Lugar. São Paulo, Edusp, 2005, retiramos a importância do lugar como espaço de pertencimento e ação transformadora no mundo, para compreender nosso campo de ação em nossa escola.

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[1] O termo “inviabilizadas” tem como referência a noção de apagamento que a sociedade fomenta em relação aos seus problemas sociais. No contexto desse projeto, o termo corrobora com a concepção de jovens invisíveis e também está relacionado ao documentário “Al invisible children” título em português: Crianças Invisíveis, produzido pela UNICEF em 2005.

Nosso grupo reunido para mais uma roda de conversa

Dia do Intercâmbio com outra escola e troca de experiências

Saída para visita à Casa 1

Mediação de Leitura na Fábrica de Cultura sobre Machismo e Feminismo

Nosso grupo visitando o Masp para ver obras de arte feitas apenas por Mulheres

Passeio ao parque para lazer, conversa e tecelagem de filtro dos sonhos

Nosso grupo enrolando brigadeiros para nosso lanche comunitário mensal

Atividade terapêutica de mandalas com cera de vela, tempo de silêncio.

Comemoração do prêmio Escolas de Paz e Liberdade pela Bancada Ativista

Discussão sobre a campanha do Setembro Amarelo de 2019

Discussão sobre a campanha do Setembro Amarelo de 2019