Tarefa 6 – Curso EDH – Talita da Cruz Coelho

Data

8 de julho de 2020

Cursista

Talita da Cruz Coelho

Função

Professor de fundamental I

DRE / Unidade Educacional

Freguesia do Ó / Brasilândia

Escola

Emef Nilo Peçanha

Tema: A voz das crianças – uma pedagogia de sarau

Justificativa

Sou professora alfabetizadora, e antes fui Professora Orientadora de Sala de Leitura na rede municipal de São Paulo. Tenho uma relação muito intensa com a literatura e formação do leitor – tema do meu TCC na graduação, sou poetisa e amante de livros; essa é uma forte influência na minha prática docente. Atualmente, leciono para uma turma de 1º ano na EMEF Nilo Peçanha, na Diretoria Regional Freguesia/Brasilândia e meus pensamentos nesta proposta didática foram mobilizados para essa faixa etária.

O Ciclo de Alfabetização compreende que: as infâncias são diversas; as crianças têm direito a acessar múltiplas linguagens; brincadeira é direito fundamental; atividades lúdicas e desafiadoras facilitam a aprendizagem escolar; variação dos espaços e materiais auxiliam na aprendizagem.

O projeto pensado para uma turma de 1ºano: “A voz das crianças” intenciona desenvolver o protagonismo infantil nas escolhas de suas trajetórias individuais e coletivas referenciadas pelo respeito à diversidade, construção de valores de convivência e pelos estudos das relações étnico-raciais. Numa tentativa de unir a discussão de temas importantes e trabalhar questões emocionais da criança, este projeto teve como base a pedagogia do sarau. Essa brincadeira poética trabalha na criança como lidar com: medo, insegurança, timidez. E sua abordagem pedagógica prioriza a voz dos alunos na medida que consegue se expressar em público e expor suas ideias e experiências com clareza. O “falar em público” é uma prática social de linguagem, consonante com a alfabetização. “A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra vazia de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento despido de palavras permanece na sombra” ((Vygotsky, 1991, p. 131). Algumas práticas específicas do sarau – como aplaudir a todos, escuta ativa dos participantes e espaço democráticos – tornam essa atividade em colaboradora da autoestima e identidade de todos os que participam.

A experiência de um convívio pautado pelos princípios dos DH propicia a legitimação de valores que, uma vez adotados, passam a orientar o posicionamento diante de problemas como a homofobia, a discriminação étnico-racial e de gênero, a violência e o ódio social. Do mesmo modo, o estabelecimento de relações pautadas pelo respeito mútuo contribui para o afastamento da violência na vida dentro e fora das UEs. Essa é a finalidade da EDH. (Caderno Respeito na escola, 2019, p. 42)

O Currículo da Cidade de São Paulo da Educação Infantil define a escola como espaço de vivências de infâncias, de interações sociais, culturais, de aprendizagens e de desenvolvimento.  Essa definição implica para a escola a função de trazer propostas acolhedoras e pedagógicas – que busquem ampliar repertórios e saberes – e de garantir direitos civis, humanos e sociais. Os alunos de 1º ano do Ensino Fundamental vivem um período de transição em relação à Educação Infantil e precisam valer-se de ações pedagógicas de continuidade. Nesta perspectiva, é necessário enfatizar as interações e brincadeiras como princípios da ação pedagógica. As práticas sociais de linguagem propostas em sala devem possibilitar à criança ir além do espaço escolar. Podemos citar aqui os seminários, ensaios de teatro e simulação de sarau contidos no projeto didático da turma com enfoque no protagonismo infantil- por meio do contato artístico. A alfabetização é um processo discursivo.

Finalidade

O sarau é uma brincadeira poética que propicia trocas de experiências entre os sujeitos e cria condições de aprendizagem significativas onde o aluno possa compreender e atuar sobre sua realidade, e aprenda a fazer escolhas desde pequeno com autonomia:

Pretende-se formar sujeitos autônomos, ou seja, pessoas que tenham ideias próprias, pensem por mesmas, sejam capazes de escolher entre alternativas, decidam o caminho a ser seguido, implementem ações e tenham argumentos para defender suas escolhas e suas ações. (ANDRÉ, 2016, p. 20)

Algumas práticas específicas do sarau – como aplaudir a todos, escuta ativa dos participantes e espaço democráticos – tornaram esse projeto em colaborador da autoestima e identidade de todos os que participam e merecem um olhar especial. Eu atribuo a esse projeto, uma potência de construções coletivas de valores de convivência e respeito à diversidade. Segundo Maria do Céu Roldão; ensinar é muito mais que dar a matéria é estimular a reflexão, oportunizando estratégias que promovam na aprendizagem; questionamentos e problematização. Ensinar envolve entender que o aluno é participativo nesse processo – mediação, diálogo, problematização e investigação. (ROLDÃO[1] , 2009 apud CRUZ, HOBOLD, 2016, p.239).

Os objetivos principais dessa proposta são:

  • Garantir um espaço acolhedor onde a criança possa expor suas ideias e o diálogo;
  • Incentivar o respeito à diversidade;
  • Fomentar a apreciação literária como repertório de vivências e resolução de problemas;
  • Valorizar as produções literárias e o objeto livro;
  • Desenvolver o comportamento adequado à experiência de sarau.
  • Desenvolver habilidades sociais;
  • Melhorar competências socioemocionais e de resolução de problemas;
  • Desenvolver a sensibilidade e o gosto pela leitura de: parlendas, adivinhas, cantigas e poemas;
  • Conhecer um repertório de poemas por meio da leitura feita pelo professor e por si mesmo;
  • Ouvir a leitura de textos literários diversos, como contos de fadas, acumulativos, de assombração, modernos e populares — garantindo a diversidade de culturas (africana, boliviana, indígena, síria entre outras), bem como mitos; lendas; poemas (haicais, limeriques, de cordel, quadrinhas etc.); fábulas, entre outros, identificando a especificidade de sua organização interna.
  • Ler cantigas, parlendas e textos da tradição oral, refletindo sobre os efeitos de sentido;
  • Apresentar ideias sobre temas diversos, reconhecendo as características da situação comunicativa – rodas de conversa, de jornal, de leitores, entre outras;
  • Relatar experiências vividas, organizando-as de acordo com a situação comunicativa;
  • Participar de discussões, ouvindo com atenção e emitindo opinião;
  • Participar de jogos e brincadeiras tradicionais que explorem contagens, cálculos rápidos, movimentos etc., realizando adivinhações, decifrando charadas, levantando hipóteses e testando-as;
  • Identificar nos textos lidos os jogos de palavras, as rimas, as repetições que marcam os ritmos, as intenções do autor, a beleza da linguagem.
  • Conhecer alguns autores, de estilos variados, e saber um pouco sobre sua vida, trajetória e principais obras;
  • Declamar poemas com ritmo e entonação adequados ao texto, ao público e à situação de comunicação;
  • Discutir e elaborar, coletivamente, regras de convívio nos diferentes espaços do cotidiano do estudante (espaços de lazer, escola, casa, praças etc.) e em diferentes situações (jogos, brincadeiras etc.), pensando no respeito à diversidade;
  • Reconhecer o sarau como um tipo de evento cultural;
  • Participar ativamente da organização e realização de um sarau.

Duração

Um projeto para o ano letivo de 2021

Percurso e suas práticas:

1º bimestre: Ampliação de repertório

Escolha de poemas de estilos e autores variados para apresentar aos alunos. Ler/declamar ou apreciar áudios e/ou vídeos de pessoas experientes declamando. As crianças de 6 anos têm uma postura interessada e colaborativa. Junto da apresentação de parlendas e poemas, as músicas são muito importantes para estimular textos de memória. Este projeto intenciona uma parceria com a Sala de Leitura da escola; onde haja alimentação do projeto com livros e materiais de qualidade e amplie as leituras com as crianças. Destaco aqui, o acervo das salas de leituras das escolas municipais e sua bibliodiversidade. As formações específicas de Sala de Leitura que vivenciei sobre estratégias de leitura e o meu conhecimento sobre o acervo da escola são condições facilitadoras para a atuar nessa fase do projeto e, diante disso, percebo que esse controle está ligado ao desenvolvimento das atividades e seu planejamento conforme o programado.

 

 

2º bimestre: Falar em público e seleção de repertório

Essa fase busca estimular os alunos a ler e/ou declamar os poemas, cantigas e parlendas selecionados por eles. Ao proporcionar atividades de apresentação na sala de aula, proponho o recurso da filmagem ora para criação de um registro dinâmico do processo vivido ora para a criação de feedbacks. Os alunos podem assistir uma vez por semana o vídeo das apresentações com a consigna de uma escuta atenta e apresentação de pontos que fariam o vídeo melhorar: voz alta, olhar para câmera, inclusão ou exclusão de gestos, ruído da sala. As primeiras utilizações desse recurso causam euforia e tem pouco retorno porque as crianças costumam rir dos colegas e o foco de observação precisa ser trabalhado afinco. A mudança de postura desejada demanda insistência e treino até que seja incorporada a rotina. Essa atividade dever ser incorporada às atividades permanentes da sala, junto das tradicionais como leitura e roda de música. O intuito é promover um clima harmonioso entre os colegas, onde as atividades desenvolvidas em sala tenham um caráter de participação e respeito. E assim com o feedback, aprender a elogiar os outros.

“Respeito” vem do latim respectus, que remete à ideia de “olhar outra vez”; prestar atenção a algo que merece um segundo olhar. Assim, respeitar tem a ver com a disposição de conhecer, de prestar atenção e levar em consideração. Aqui, o respeito mútuo não está sendo proposto como mera prescrição, mero dever ser, mas como algo que permeia, por princípio, as relações estabelecidas pelos sujeitos, em toda e qualquer situação. O respeito mútuo implica reconhecimento de si e do outro como igual e diferente, porque o outro é igualmente digno de respeito, porque humano, independentemente da diferença de função, idade, raça, classe social etc., mas também porque único, singular. (Caderno Respeito na escola, 2019, p. 49)

As atividades de apreciação literária constantes contribuem para que, pouco a pouco, os alunos descubram seus estilos, temas e autores preferidos. Ao mesmo tempo que ampliam seu repertório poético, a ideia é conhecer para escolher os poemas que querem apresentar no sarau. Essa é a fase que mais implica a autonomia dos alunos e o êxito do trabalho, do ponto de vista do que se espera atingir nos alunos: a leitura como fruição e não atividade pedagógica direcionada. A escolha para alguns alunos é muito difícil porque demanda que entre seu repertório interno revele algo subjetivo que são suas preferências. Percebo nas turmas de alfabetização que atuei que algumas crianças estavam acostumadas que suas escolhas fossem direcionadas por opções externas.

Atuar como protagonista possibilita aprender a tomar decisões e a atuar coletivamente, reconhecendo seu papel e considerando o dos demais, e, com isso, construir uma imagem de si próprio como cidadão. Em outras palavras, o protagonismo promove o empoderamento (a crença na própria capacidade e possibilidades), necessário para atuar e fazer valer os DH na sociedade. O trabalho educativo será orientado no sentido de proporcionar situações para que os princípios sejam colocados em prática, de modo que todos, adultos, crianças e adolescentes, se envolvam no planejamento e na realização de ações internas e/ou externas à escola… (Caderno Respeito na escola, 2019, p. 58)

Algumas brincadeiras poéticas e estratégias de memorização são recursos importantes nessa fase. Algumas lições de casa podem levar a consigna de memorizar algum poema escolhido e apresentar à família. Esse movimento é muito especial no projeto, porque fixa a ideia aos pais que a lição de casa é para os filhos e não para ele, e que acompanhar as aprendizagens é participar ativamente do projeto da escola e das necessidades individuais dos filhos. O pertencimento ao projeto fica maior.

3º bimestre: Ensaios e Modalidades Artísticas

A ideia de se apresentar publicamente pode intimidar alguns alunos. Para garantir que eles se saiam bem nessa empreitada, é preciso ensaiar com a classe e conversar sobre suas atuações para que se aperfeiçoem pouco a pouco e se sintam mais à vontade com a exibição no dia do sarau. Fica a critério dos alunos escolher se preferem ler em voz alta ou memorizar um poema e declamá-lo de forma mais dramática, coletiva ou individualmente. Nessa fase, estão previstos jogos teatrais e estratégias vocais. Como os ensaios são previstos semanalmente, a ideia é convidar os funcionários da escola para assistir, como: agentes de apoio, funcionários da secretaria, merendeiras, de forma que conheçam o projeto e ampliem o vínculo. Eles também serão convidados à declamar poemas, se desejarem.

Nas aulas de artes, os alunos trabalham outras modalidades artísticas – como, desenhos, pinturas, esculturas – elaboradas pelos estudantes. Isso também pode enriquecer o sarau, numa abordagem multidisciplinar.

4º bimestre: Preparação e Avaliação

Envolver toda a turma na organização do evento, definindo: o local, o dia e o horário em que acontecerá; a produção dos convites, as formas de divulgação e quem serão os convidados; os recursos que serão usados nas apresentações etc. O sarau dever ser apresentado para as outras duas turmas do Ciclo Alfabetizador da escola no período da manhã, na Sala de Leitura. E o convite será estendido aos funcionários da escola. As atividades de produto final darão um sentido ao projeto, assim como uma sensação de pertencimento muito significativa aos sujeitos.

Avaliação

Avaliação do evento: orientar que cada um enfoque a própria atuação, pois assim aparecerão mais os pontos positivos, que favorecem o fortalecimento da autoestima e a confiança entre o grupo e o professor. Além de resgatar individualmente na sua apresentação indícios do trabalho desenvolvido ao longo do ano e as habilidades adquiridas nesse processo, os alunos serão convidados a resgatar aspectos relativos ao coletivo e suas impressões sobre a participação dos outros alunos.

A avaliação busca medir a relevância do trabalho em equipe, convivência e a importância das modalidades artísticas nas suas trajetórias individuais.

O grupo não é uma somatória de pessoas e ele é construído coletivamente, a partir de necessidades compartilhadas. Partindo da ideia de (SOUZA,2001, p.29), o planejamento do professor e as atividades da sala de aula precisam desenvolver no grupo a busca de objetivos comuns. Retorno aos objetivos principais do projeto: garantir um espaço acolhedor onde a criança possa expor suas ideias e o diálogo; incentivar o respeito à diversidade; desenvolver habilidades sociais; melhorar competências socioemocionais e de resolução de problemas; desenvolver o comportamento adequado à experiência de sarau. Durante o percurso formativo proposto, será possível observar no comportamento do grupo os objetivos pretendidos, uma vez que os vínculos estarão estabelecidos. Mobilizo meu pensamento nas ideias de Madalena Freire[2] (1993, p.28) sobre os movimentos de grupo em construção. A autora nos apresenta três movimentos básicos de um grupo em construção. A princípio, o grupo é um amontoado indiferenciado que espera que o professor venha a prover as suas necessidades; quais as expectativas dos alunos no primeiro dia de aula? Ao longo dos dias, o grupo desmitifica o professor, e a relação se humaniza. Pode observar aqui as divergências do grupo. Apesar de lidar com alunos pequenos, a relação humana demonstra que nem sempre os alunos concordam com o que apresentamos e validamos sobre suas necessidades, e eles divergem de nós. Por fim, diante de um espaço acolhedor e de vínculos estabelecidos, o grupo exercita as divergências. (FREIRE, 1993 apud SOUZA, 2001, p.31-32). No decorrer desse projeto, os alunos se reunirão para trabalhar diferenças, conviver com os conflitos e aprender a criticar e elogiar. A constituição de um grupo colaborativo em sala de aula é sem dúvida a avaliação mais próspera dessa ação formadora.

Professora Talita Coelho

Referências Bibliográficas:

ANDRÉ, Marli E. D. A. Formar o professor pesquisador para um novo desenvolvimento profissional. In. ANDRÉ, Marli E.D.A. (Org.). Práticas Inovadoras na formação de professores. Campinas: Papirus, 2016. p. 17-34

CADERNO RESPEITO NA ESCOLA. São Paulo, julho de 2019, 3.ª edição. Disponível em: http://respeitarepreciso.org.br/wp-content/uploads/2019/12/Respeito_na_Escola.pdf (Acessado em 08/07/2020)

CRUZ, G.B. DA.; HOBOLD, M. Práticas Formativas de Professores de Cursos de Licenciatura. In. ANDRÉ, Marli E.D.A. (Org.). Práticas Inovadoras na formação de professores. Campinas: Papirus, 2016. p. 237-262

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Educação Infantil. – São Paulo: SME / COPED, 2019.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Ensino Fundamental: Língua Portuguesa. São Paulo: SME / COPED, 2017.

SÃO PAULO. Diretoria Regional de Educação Freguesia/Brasilândia. EMEF PRESIDENTE NILO PEÇANHA Projeto Político-Pedagógico 2020.

SOUZA, Vera L. T., O coordenador pedagógico e a constituição do grupo de professores. In. ALMEIDA, Laurinda R.; PLACCO, Vera M.N.S., O Coordenador Pedagógico e o Espaço de Mudança. São Paulo, Ed. Loyola, 2001. p. 27-34.

VIGOSTKY, L. Pensamento e linguagem. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

 

[1] ROLDÃO, M. do C., Estratégias de ensino; O saber e o agir do professor. Vila Nova Gaia: Fundação Manoel Leão, 2009

[2] FREIRE, Madalena. Grupo: indivíduo, saber e parceria. São Paulo, Espaço Pedagógico, 1993.