Tarefa 6 – Curso EDH – Lilian Araujo Baleeiro

Data

31 de julho de 2020

Cursista

Lilian Araujo Baleeiro

Função

Professora de educação infantil

DRE / Unidade Educacional

Santo Amaro

Escola

Ceu Cei Alvarenga

Lilian Araújo Baleeiro  RF: 836778-7   Ceu Cei Alvarenga

 Projeto contínuo de reflexão e conscientização e vivências das relações étnicos-raciais para a educação Infantil

 

Sou professora de educação Infantil. Trabalho com bebês e crianças de 0 a 3 anos. Nessa faixa etária, sabemos que as crianças estão descobrindo o mundo e, consequentemente se descobrindo como pessoa. Entendo que são com uma esponja que absorvem tudo que estão ao seu redor. Infelizmente essas percepções e absorções

Pensando nisso, fico a imaginar o porquê de nossa sociedade ainda ser tão preconceituosa, com poucos espaços de reflexão e conscientização que abranja o tema da nossa negritude, em um país que é composto por sua maioria de pessoas que se declaram negras e pardas.  Mas não é só isso, sabemos que a questão é muito mais abrangente e complexa quanto parece. A falta de oportunidades, falta de equidade, a negação de direitos básicos, formação precoce de baixa autoestima, entre outros e tantos assuntos que poderíamos passar horas a fio citando.

Como professora de educação infantil, me sinto desafiada a mudar essa realidade. Mesmo que minhas ações sejam como gotas comparadas a um oceano, entendo que se faz necessário esse trabalho de “grão em grão”. Cada um fazendo sua parte poderemos ver grandes mudanças em nosso país, mesmo que a longo prazo. Começando em nossas práticas diárias nas creches, pois é onde temos a oportunidades de ter contato com a fase de absorção da aprendizagem, da rotina, do encantamento e das experiências que vão fazer diferença para uma vida inteira.

Nos CEIs, os bebês necessitam muito da mediação de um adulto para explicar valores, atitudes, conceitos, jogos, experiências, enfim. Em nossa percepção pedagógica, sabemos que o cuidar e o educar andam juntos, os dois são igualmente importantes nessa fase. Em nossas estratégias de aprendizagens precisamos contemplar os dois aspectos, já que é no cuidado, na rotina e na interação que os bebês têm suas necessidades alcançadas, tornando uma aprendizagem integral.

A rotina é parte essencial dessa aprendizagem. As crianças sentem-se seguras quando conhecem sua rotina diária e se adaptam mais facilmente ao ambiente escolar. Elas conseguem perceber a hora da troca, da higienização, da alimentação, do sono, das brincadeiras e, mesmo que para as outras modalidades essas coisas possam parecer insignificantes, na educação infantil são essenciais.

Nesse trabalho de atuação, irei relatar o que já venho realizando a alguns anos na escola. Nada tão mirabolante, mas que introduzo na minha prática diariamente com os bebês, para que se acostumem e se adaptem desde cedo com um ambiente voltado à diversidade, aceitação e respeito a todos, sem distinção, bem como valorizar as culturas que estão intrinsecamente ligadas a nossa, principalmente a cultura afro-brasileira, que foi e é a menos difundida (na maioria das vezes propositalmente), em nossas escolas e sociedade em geral, vista como uma cultura inferior.

 

Os Objetivos principais desse projeto são:

  • Tratar as crianças com dignidade e proporcionar a elas experiências significativas, com intuito de reconhecer e colocar em prática seus direitos como seres humanos e capazes na sociedade.
  • Promover reflexão sobre o tema das relações étnicos raciais em sala de aula, de maneira lúdica e que imitem atividades de sua rotina para que se torne uma aprendizagem permanente e significativa.
  • Identificar e atuar sobre situações que geram a desvalorização da autoestima causadas por preconceitos e não aceitação às diferenças e diversidades
  • Valorizar a cultura afro-brasileira, através de histórias, contos, brincadeiras e autoaceitação.
  • Favorecer a representatividade negra em sala de aula através de imagens, atividades e brincadeiras.

 

Como relatado anteriormente, a rotina é extremamente importante para essa fase. Com ela os bebês aprendem de maneira segura, organizando em sua mente uma experiência de aprendizagem significativa. Sendo assim, se faz necessário, a preparação da escolha de materiais, brinquedos, músicas, histórias adequadas e que levem em consideração os objetivos que queremos alcançar a longo e curto prazo.

Já que me sinto desafiada a trabalhar de maneira a valorizar a cultura afro-brasileira e aceitação e valorização das diferenças, tenho sempre o cuidado de pensar semanalmente nas histórias, atividades, músicas, brinquedos e materiais que favoreçam esse objetivo. Mas tem algumas coisas que são fixas em minha rotina em sala de aula. Entre eles estão os brinquedos, como bonecos e bonecas com a cor da pele negras, principalmente com cabelos bem cacheados. Em nossas brincadeiras com essas bonecas, temos semanalmente atividades como:

  • banho dos bebês, onde disponibilizamos banheiras com um pouco de água para as crianças darem banho nas bonecas. Em dias muito frios, eles utilizam apenas lenços umedecidos.
  • higienização dos bebês, onde as crianças trocam as fraldas das bonecas, utilizam lenços umedecidos, tecidos e papel toalha para limpar boca e secá-las, escovam os dentes delas, após as refeições (das bonecas, claro).
  • Dia do cabeleireiro, esse é um dia muito esperado pelas crianças. Trazemos pentes, escovas, “xuxinhas”, presilhas, fitas, potes de xampus e cremes, potes de gel. Eles fazem a festa.

Nessas ocasiões aproveitamos para brincar junto com as crianças, interagir com elas e conversar sobre os temas importantes da cor da pele, estilos de cabelos, valorização do corpo, aceitação da diferença e diversidade. Essas brincadeiras nos ajudam a comunicar a linguagem da criança, pois imitam suas rotinas na escola e em casa, como o cuidado com seu corpo e viabilizam a formação da autoestima desde cedo. Sem contar que a diversão e a aprendizagem são garantidas, com os pequenos gestos do dia a dia.

Outra atividade importante da nossa rotina é a hora da história. Então, não podemos esquecer de incluir, também semanalmente, histórias de relações étnicos-raciais. Temos um grande acervo em nosso Cei de histórias e contos que no auxiliam nesse sentido. As preferidas de nossas turminhas são:

  • Menina bonita do laço de fita;
  • O pente penteia;
  • O cabelo de Lelê;
  • Bruna e a galinha d’Angola;
  • Maju não vai a festa;
  • Meu crespo é de rainha;
  • As tranças de Bintou;
  • Betina;
  • O menino Nito.

Notamos que a maioria dos livros citados tem alguma relação com os cabelos, isso se deu inicialmente pelas nossas brincadeiras de cabeleireiro nas bonecas e também nas crianças. Percebemos que essa brincadeira divertia bastante as crianças e por isso, resolvemos investir um pouco mais nelas. Trouxemos para a sala perucas diversas, inclusive as Black power’s. Trouxemos tranças, bem como fazemos tranças nas crianças. Para os meninos, além das perucas, usamos gel, sprays de tintas, chapéus, bonés, enfim, uma variedade de ornamentos. É uma das brincadeiras preferidas deles. Por isso aproveitamos a oportunidades para tratar do tema étnico racial através também das histórias selecionada, que eles também aprenderam a amar tanto os personagens como suas mensagens.

Outra estratégia que utilizamos é a contação dessas histórias que são:

  • Fantoches;
  • Dedoches;
  • Caixa surpresa (com objetos diversos);
  • Teatro e encenação, tantos dos educadores quanto das crianças;
  • Ornamentos para produzir o cantador ou contadora da história;
  • Roda de história tradicional;

Ao enfatizarmos a contação dessas histórias, contribuímos tanto para a ludicidade como para a aprendizagem do que esperamos que a criança precisa aprender. Esse é um momento mágico, onde elas soltam a imaginação e conseguem refletir sobre o tema que é apresentado. É certeza que a aprendizagem e a conscientização sobre as questões étnicos-raciais, negritude, valorização da cultura afro-brasileira são contempladas.

Outras atividades que fazemos em nossa sala é:

  • Confecção de murais;
  • Painéis com fotos das famílias;
  • Painéis com fotos das crianças da sala;
  • Exposição de atividades realizadas pelas crianças;

 

Buscamos sempre trazer figuras e imagem com representatividades negras em nossos murais, sejam com as fotos das famílias, onde destacamos, sempre que possível as famílias negras, também utilizamos imagens de figuras públicas, como artistas, presidentes, personagens de histórias, também com representatividade negra bem valorizada. Procuramos fazer os painéis junto com as crianças explicando os motivos de cada imagem estar sendo escolhida e representada.

Lembro de uma atividade que realizamos, que foi muito legal de fazer. Desenhamos o formato de um rosto grande, em um papel pardo. Pedimos que as crianças completassem a imagem com os cabelos, confeccionado com massinha. Eles fizeram bolinhas com massinhas marrons e pretas. Para finalizar colocamos uma faixa colorida nos cabelos da imagem que produzimos. Ficou esplêndido, um lindo black power produzido por eles e que ficou em exposição por um bom tempo em nosso mural. Demos o nome de Lelê, sugerido por uma criança, que era personagem da história o “cabelo de Lelê”, uma das preferidas deles, como já citado.

Bom, esse é o relato de um projeto contínuo que trabalhamos diariamente em nossa sala de aula. Como foi falado, a educação infantil é uma fase onde a rotina é determinante para a aprendizagem, portanto, temas como esses precisam estar presentes dia a dia e fazer parte da realidade das crianças, para que a aprendizagem seja realmente significativa. O cuidar e o educar caminham lado a lado, por isso os projetos para fazerem sentido e surtir efeitos esperados, precisam estar relacionados a essas duas noções básicas essenciais na educação infantil. Sigo com meu desafio de poder promover a reflexão e conscientização de temas que abordem os direitos humanos na aprendizagem dos pequenos, nesse caso, específico, o direito de viver em uma sociedade que respeita e valoriza a diversidade, que acredita na pluralidade e as relações étnicos-raciais podem superar progressivamente preconceitos e que surtam efeitos efetivos em nossa sociedade.