Tarefa 6 – Curso EDH – Jocely de Paula Lima Roque

Data

27 de julho de 2020

Cursista

Jocely de Paula Lima Roque

Função

Professor de educação infantil e ensino fundamental

DRE / Unidade Educacional

São Miguel Paulista

Escola

CEI JARDIM CAMARGO VELHO

Projeto Diversidade cultural na educação infantil.

Território educativo Jardim Camargo velho.

 

Unidades escolares: CEI Jardim Camargo velho e EMEI Alberto Mendes Júnior.

Professora responsável: Jocely de Paula Lima Roque. RF 794.319.9

Público Alvo: Bebês e crianças de 0 a 6 anos, famílias, comunidade e educadores.

 

“A diversidade não representa um obstáculo para a convivência, nem para a construção de um projeto coletivo. Pelo contrário, abre novas possibilidades, enriquece e valoriza os diferentes grupos. No entanto, muitas vezes, as diferenças são pretexto para a criação ou o reforço de desigualdades que violam os direitos fundamentais, desde o atendimento de necessidades básicas para uma vida digna até o acesso à justiça”. Pág. 12 caderno diversidade e discriminação- respeitar é preciso 3ªedição, 2019.

 

Justificativa:  Localizadas no bairro do Itaim Paulista, as escolas de educação infantil, CEI Jardim Camargo Velho e EMEI Capitão Alberto Mendes Júnior, além de serem vizinhas, trazem como marco e identidade a valorização das raízes da comunidade. Questões como discriminação racial e territorial, assim como a necessidade de valorização da identidade, ficaram evidentes nas interações com as crianças, famílias e eventos. Desde 2017 o fortalecimento das culturas advindas do bairro reforçam a necessidade de explorar o tema diversidade cultural na educação infantil, afinal as interações, aprendizados e descobertas permeiam esse universo, possibilitando significar ou ressignificar valores, atos e ações por meios de práticas educacionais que valorizam a escuta, o protagonismo das crianças, educadores e de toda comunidade, tendo a diversidade como fonte de aprendizados e desenvolvimentos.

Dados dos PPP’S (Projetos Políticos Pedagógicos) apontam que a comunidade do nosso entorno são em sua maior parte de pardos e negros, de origem nordestina. O bairro teve grande crescimento populacional a partir de 1930, com migração da população rural, dos estados nordestinos e de Minas Gerais, devido a expansão comercial e industrial da cidade São Paulo no século XX. Itaim Paulista carrega também em sua história, a participação e grande contribuição dos indígenas, não só no nome (Pedra Pequena), mas também na sua fundação, nos marcos, símbolos e significados, como por exemplo a fazenda Biacica, que representa a chegada dos portugueses e a catequização dos indígenas que aqui habitavam, os Guaianás, tombado pelo Patrimônio Histórico (IPHAN) em 1994.

É a partir desses dados, a contínua formação das educadoras e a contribuição do Curso EDH- desafios do contexto atual, que esta sequência didática parte, mostrando um recorte do projeto que se dá entre as unidades escolares e a comunidade.

 

 

Finalidade

 

Articular concepções e práticas por meio do resgate cultural e histórico que permeiam no território, participando de vivências, brincadeiras, histórias, cantigas, costumes, culinárias, artes, entre outras, potencializando as descobertas, construindo e reconstruindo novos significados através das interações e socializações entre escolas e comunidade, valorizando a cultura local, sua diversidade e contribuições para uma vivência de respeito, dignidade, valor e estima, com a preservação e garantia dos direitos contra qualquer ato de preconceito, atitudes racistas de maneira sutil ou evidente que se manifestam ou podem manifestar no dia-a-dia, dentro ou fora das escolas, desde a primeira infância.

 

Objetivos

 

  • Valorizar a cultura e história do bairro, estimulando o respeito à diversidade.
  • Ressaltar o protagonismo africano, afro brasileiro e indígena nas vivências e interações.
  • Proporcionar a representatividade étnico racial nas vivências, desenhos, vídeos, imagens, culinárias, artes entre outras.
  • Criar elo entre as escolas e a comunidade, para um diálogo aberto quanto ao papel de cada uma e em conjunto no combate ao preconceito e racismo dentro das escolas e fora delas.
  • Explorar nosso território e espaços para brincadeiras fora da escola.

 

  • Aproximar e envolver as famílias e comunidade.

 

 

Duração: 2 meses

 

Desenvolvimento:

 

  • Ubuntu: eu sou porque nós somos.

 

Reuniões com as famílias e equipe escolar, por turma e/ou coletivo, trazendo o tema diversidade cultural, racismo na educação infantil, abordando brevemente o perfil do bairro e das crianças que frequentam as escolas e os demais espaços da comunidade; praça, campo de futebol, parques entre outros. Reflexões quanto o papel da escola e da comunidade nas ações que valorizam as diversidades culturais e histórias de cada criança, de cada família, aproximando-nos da escola. A leitura do livro Ubuntu e provérbio africano, dão apoio às interações juntamente com as leis federais 10.639 e 11.645, que regulamentam e incluem no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”.

 

“É preciso uma aldeia para se educar uma criança”.

 

  • Parcerias com as famílias e a comunidade nos projetos e ações.

 

Aproximar, trazer as famílias e a comunidade para as interações na escola é fundamental para efetivação das vivências e propostas realizadas com as crianças, além da constante formação das educadoras, qualificando e fundamentando as ações. O elo comunidade e escola tem o papel de garantir os direitos e o desenvolvimentos dos bebês e crianças dando significados, valores e potencializando as descobertas, trocas, diversidades que permeiam num universo democrático e igualitário.

As vivências a seguir, já fazem parte dos projetos e ações realizadas nas escolas, revelando a cada ano novas possibilidades, ações e ampliando os espaços educativos. Com a pandemia da COVID-19, foi preciso se reinventar e manter a identidade das escolas com a temática diversidade étnico racial, respeito, cultura e aprendizado.

 

 

  • História Africana “Abayomi” um olhar afetivo.

 

Através dessa história, abordamos não só a história da vinda dos africanos ao Brasil, mas os sentimentos e emoções de um povo que precisou manter sua cultura, elo e valores, a palavra Abayomi tem origem Iorubá, seu significado é aquele que traz felicidade ou alegria.

 

“No interior dos navios negreiros, as crianças eram separadas de suas mães e ficavam chorando. Então as mães rasgavam as próprias vestes, faziam bonecas, só com nozinhos, sem outro material, e mandavam para essas crianças. As crianças sentiam aquele acalento, o colo da mãe, o cheiro da mãe, a roupa da mãe… Quando elas recebiam as bonecas, sabiam que a mãe amava cada uma delas, independentemente de estarem lá fisicamente ou não. Isso dava força para as crianças resistirem ao que estava por vir”. Divina Neder. SBPC Cultura.

 

 

A proposta por trás dessa história, vai além da confecção da boneca em família e na escola, ela amplia para rodas de conversas sobre nossas relações em casa e nas unidades escolares, oportunizando a escuta e o diálogo sobre como nos sentimos, nos vemos e somos vistos, ouvidos e acolhidos.

 

 

 

  • Amarelinha africana ou “Teca- teca”.

 

Mostrar diferentes brincadeiras para as crianças, vindas de outras culturas é uma forma de trabalhar a diversidade. A amarelinha africana ou “teca- teca” é um jogo super gostoso de brincar e que traz a cultura de outra região, na linguagem das crianças. Para brincar é só desenhar no chão o traçado do jogo. Pode ser com giz, carvão ou fita crepe.

 

  • Contos e cantigas Africanas e afro-brasileira.

 

“Ayele mido kulo mido papa, Ayele, ô ô mido papa Ayele, Ayele mido kulo mido papa, Ayele, ô ô mido papa Ayele”. Com a música o pai dizia ao seu filho: “Que seu espírito continue a dançar, que seu continue a dançar.” Trecho do reconto africano Ayele de Tiago de Melo Pinto. Pág. 47 e 48. Trilhas de aprendizagens brincadeiras e interações para crianças de 4 a 5 anos. São Paulo: SME/COPED, 2020.

 

O reconto africano “Ayele” que se encontra no caderno “Trilhas de aprendizagens” da prefeitura de São Paulo para a realização de ações com as famílias no período de distanciamento social, pai e filho possuem uma canção que marcam suas histórias, é um convite às famílias a conversarem sobre suas origens e significados dos nomes, árvore genealógica, e nesse universo lúdico, apresentar a música “Olelê Moliba Makasi”, uma canção africana que valoriza a sabedoria dos mais velhos, respeito a natureza e auxilia as crianças nos ritos de passagens que terão pela vida. A congada entra nas interações como a  presença afro em nossa cultura e costumes, a cantiga “Tá caindo Flor” permeia nesse espaço de luta, tradição, família, mostrando que sempre aprendemos com o outro e com os espaços, a diversidade nos permite evoluir, somar, na certeza de que se aprende no mesmo tempo que se ensina.

 

Presença indígena.

 

No dia 21 de junho de 2019, o bairro Itaim Paulista comemorou 409 anos, como já citado anteriormente, o bairro tem origem indígena muito marcante na sua história, permitindo adentrar na cultura dos povos originários e descobrindo que algumas famílias são de origem indígena, outras conhecem bem ou são membros ativos do bairro, sejam nos serviços sociais, comércio, além da presença e costumes indígenas no dia a dia, como na culinária.

Em 2017, com o início do projeto diversidade e valorização da nossa cultura e do bairro, as escolas realizaram parceria com o povo indígena Kariri Xocó, do estado de Alagoas e desde então uma vez ao ano, eles nos visitam e interagem com as crianças e a comunidade, essa iniciativa ganhou força e hoje desenvolvemos durante o ano, brincadeiras, receitas culinárias, contos e cantigas de origem indígena e afro, mostrando a diversidade e a influência nos nossos costumes de hoje.

 

 

  • Vivências com as crianças e famílias, exemplos de interações e vivências que realizamos.

 

  • Resgate das brincadeiras indígenas; arranca mandioca (aproveitando o momento para ampliar a proposta com a lenda da mandioca, o uso da raiz na culinária brasileira), cabo de força, corrida de toras, gavião e o passarinho, corrida do saci, a onça e os porquinhos, peteca, entre outras.

 

  • Lendas, contos, cantigas, danças, artes e artesanatos indígenas.

 

  • Culinária indígena e a influências na cozinha brasileira. (temperos, raízes, frutas, legumes, vegetais, folhas e ervas).

 

“Por meio das brincadeiras, as crianças aprendem sobre si mesmas, sobre os homens e as mulheres e as suas relações com o mundo, sobre os objetos e os significados culturais do meio em que vivem. Nesse sentido, brincar é uma experiência por meio da qual os valores, os conhecimentos, as habilidades e as formas de participação social são constituídos com a ação coletiva das crianças.” Pág.88. Currículo da cidade: Educação Infantil. – São Paulo: SME / COPED, 2019.

 

Integração entre as escolas de educação infantil e a comunidade.

 

            A união das escolas de educação infantil veio através do projeto território educativo, por atenderem a mesma comunidade, partilham de experiências e demanda que permitem a união e troca de vivências, visitas e interações em conjunto. Duas educadoras lecionam nas duas unidades, Jocely e Rúbia, aumentando o vínculo entre as escolas e as famílias, efetivando os projetos no que encontram de comum e nas suas especificidades.

 

O universo lúdico e o protagonismo permeiam os espaços, cada ação, cada interação é pensada no intuito de fortalecer os laços com a comunidade, as famílias atendidas e principalmente os bebês e as crianças. Visitas no entorno também vêm ganhando espaço e vez, como ida à feira, à praça, à viela, ao campo de futebol vizinho, numa escola a outra, mostrando às crianças que nossos espaços precisam ser ocupados e valorizados, aproximando e trazendo para a comunidade o papel de cuidar e valorizar o seu território, mobilizando ações com o governo, rede de apoio, pela proteção e vigilância dos espaços que, embora vem melhorando com as interações, ainda são alvos de assaltos, descartes lixos e entulhos que depreciam e desvalorizam os locais, cada ação é um passo pensado e necessário na valorização da história de si e do bairro, trazendo a responsabilidade e o papel de ser cidadão com direitos e deveres, desde dos adultos até as crianças.

 

Avaliação:

 

As avaliações na educação infantil são contínuas, se baseiam nas reflexões das ações, planejamentos, escutas e devolutivas das crianças. É nesse lugar de contínuos aprendizados, registros e observações que passamos a enxergar as histórias, as diversidades culturais, os preconceitos e segregação de direitos. A extinção das datas comemorativas, podemos dizer que foi um ganho neste aspecto, visto que, estava inserida neste universo que privilegiava apenas alguns grupos, famílias, religiões e culturas, e nada contribuía para formação e crescimento do ser humano. Essa sequência é um recorte do nosso projeto, com foco na valorização das diversidades e beleza de cada um, da representatividade na sociedade, nos contos, lendas, filmes, mídias, do crespo ao liso, das tranças as franjas, permitindo a criança se reconhecer, se identificar de forma positiva, na luta contra o racismo, a discriminação racial e social. Que as famílias percebam a importância do seu papel e da parceria com a escola, contribuindo com participações ativas nos eventos, interações, propostas, auxiliando e dialogando com as professoras e educadoras, na compreensão e fortalecimento da identidade dos nossos pequenos. Ao se reconhecer de forma positiva, garantimos às crianças que cresçam sabendo do potencial e dos direitos que elas têm na sociedade, mesmo que ainda enfrentem  preconceitos, saberão do seu valor, dos seus direitos e que estamos aqui para protegê-los, escola e comunidade garantindo um futuro melhor, com equidade, respeito e plena garantia dos seus direitos.

 

 

Referências:

 

Barbosa, Rogério Andrade. Ndule Ndule: assim brincam as crianças africanas– São Paulo: Editora melhoramentos, 2011. (Afro brasileira).

 

Sarmento, Pedro, 1987- Ubuntu: eu sou porque somos/ texto e ilustração Pedro Sarmento. 2. Ed.- Rio de Janeiro: Viajante do tempo, 2016.

 

Simões, Fábio. Olelê uma antiga cantiga da África; ilustrações de Marilia Piríllo, São Paulo: Editora Melhoramentos, 2015.

 

BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Brasília, DF, 2003.

BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394/1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília, DF, 2008.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Trilhas de aprendizagens: brincadeiras e interações para crianças de 4 a 5 anos. – São Paulo: SME/COPED, 2020.

 

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria pedagógica. Currículo da cidade: Educação Infantil. – São Paulo: SME / COPED, 2019.

 

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da cidade: Educação Infantil. – São Paulo: SME / COPED, 2019.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Orientações Curriculares: expectativas de aprendizagem para a educação étnico-racial na Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio -Educação Étnico-Racial. São Paulo: SME / DOT, 2008.

SÃO PAULO (Município). Lei nº 16.478, de 08 de julho de 2016. Institui a Política Municipal para a População Imigrante, dispõe sobre seus objetivos, princípios, diretrizes e ações prioritárias, bem como sobre o Conselho Municipal de Imigrantes. São Paulo, 2016b.

SÃO PAULO, Respeitar e preciso- caderno: Diversidade e discriminação. Educação em direitos humanos. 3.ª edição julho de 2019.

https://youtu.be/DiLWjP_jrwo, https://youtu.be/RlJjypRTqZIhttps://youtu.be/BwaDIOiO3uY, https://www.facebook.com/ceijardimcamargovelho/videos/2635606030026678/?extid=eLhWFgzZ7Nohnd0q&d=null&vh=e, https://www.facebook.com/ceijardimcamargovelho/videos/9052

Visita do povo indígena Kariri Xocó na escola em 2019.

Ida a feira com as crianças do CEI e EMEI junto com os responsáveis, compra de frutas para nosso piquenique.

Festa da comunidade 2019- EMEI. No final do ano realizamos um coletiva entre CEI e EMEI para o rito de passagem das crianças e fortalecimento de vínculos com as crianças e comunidade.

Reunião e roda de conversa com as famílias no CEI com roda de música e danças afro-brasileira e de roda.

Passeio ao campo de futebol vizinho as escolas, crianças da EMEI e CEI

Desfile com Chitas ou Panôs, complemento e brincadeiras com a leitura Bruna e a Galinha D'Angola. (CEI)

Pintura corporal com elementos da natureza, valorização da cultura indígena e africana. (CEI)

Participação dos berçários nas vivências sempre ocorreram, as vezes adaptadas as faixa etária, outras interagindo com os maiores.

Resgate pintural corporal, contos e brincadeiras indígenas e afro na EMEI.

Confecção Máscaras africanas em 2017 com as crianças do CEI, vivências que abriram as portas para o projeto e exploração da temática étnico racial na educação infantil.

Confecção Máscaras africanas em 2017 com as crianças do CEI, vivências que abriram as portas para o projeto e exploração da temática étnico racial na educação infantil.