Tarefa 6 – Curso EDH – Camila Santo Lisboa

Data

7 de agosto de 2020

Cursista

Camila Santo Lisboa

Função

Professora de educação infantil e ensino fundamental I

DRE / Unidade Educacional

Ipiranga

Escola

EMEI Patrícia Galvão

Relações de gênero na educação infantil: Descontruindo estereótipos sobre feminilidades e masculinidades a partir dos brinquedos.

Como professora de educação infantil, especificamente da faixa etária que compreende crianças de 4 a 5 anos atendidas nas EMEIs, considero, a partir das minhas vivências, e pela necessidade de uma educação de qualidade voltada ao combate das desigualdades de gênero, raça e classe, de extrema importância desconstruir estereótipos do que é entendido por “ser menina e/ou coisa de menina” e “ser menino e/ou coisa de menino”.

A educação infantil é um espaço privilegiado para que as crianças vivenciem suas infâncias através da experimentação, da brincadeira, dos jogos de imaginação e da desconstrução e reprodução dos papéis sociais percebidos por elas. Ou seja, as crianças pequenas também reproduzem estigmas e padrões do que seria socialmente aceitável dentro dos papéis binários de “ser menina” e “ser menino”. Estas experimentações estão, a todo o momento, permeadas pelos jogos de poder que atravessam as relações de classe, gênero, raça, geração, ou pelo chamado de “interseccionalidade”. Contudo, é preciso salientar que as crianças não só reproduzem, mas também rompem com esses papéis pré-estabelecidos, principalmente nos momentos de brincadeiras “quando a professora não está olhando”.

De fato, muitas educadoras da infância ainda consideram trabalhar as questões voltadas às relações de gênero como um tabu. Seja porque não possuem formação que lhes deem repertório para compreender o tema com a propriedade necessária, seja porque elas próprias reproduzem muitos destes estereótipos binários, ou por medo de ter este diálogo com as famílias ou seus pares. Aqui, cabe salientar que muitas pessoas tendem a relacionar a temática de gênero somente à questões que envolvam as mulheres (feminismo), ou sexualidade, especificamente pautas LGBTQI. Discutir temáticas que envolvam gênero depende muito do recorte a ser feito e do conceito entendido por gênero. Aqui entendo gênero como uma forma de dar sentido às relações de poder socialmente construídas, como uma categoria de análise.

Podemos usar gênero para problematizar, por exemplo, a construção de uma masculinidade hegêmonica (branca, hétero, cis) e sua influência na constituição dos meninos negros. Estudar gênero nos permite entender que não existe apenas um modo de ser mulher ou ser homem, ou mesmo romper com este binarismo que relaciona o órgão genital com a identidade de gênero.

A discussão é bastante ampla, portanto, para fim de recorte para esta atividade, escolhi trabalhar as desconstruções dos estereótipos do “ser menina” e “ser menino” através dos brinquedos. Afinal, desde antes do nascimento, os papéis de gênero são bem definidos pela escolha do enxoval rosa e/ou azul, pelas roupas e pelas expectativas atribuídas à meninas e meninos. Nos brinquedos não é diferente. Ao adentrar uma loja de brinquedos, percebe-se, já pelas propagandas dispostas nas caixas e encartes, o que a indústria determina que seja aceitável como brinquedo de meninos e meninas. Por exemplo, a divisão de brinquedos pela cor: brinquedos relacionados a tarefas domésticas cor de rosa (fogão, casa, vassoura, pia, etc.), bonecas com meninas segurando (geralmente brancas e loiras), berços e brinquedos para a estética (esmaltes, secador de cabelo, maquiagem, bolsa, etc.). Já, para os meninos: ferramentas, dinossauros, carros, aviões, bonecos de guerra, etc.

Mesmo que tenhamos avançado muito nestas discussões, estas reproduções ainda são perceptíveis nos ambientes escolares desde a primeira infância. Quando dividimos os banheiros por rosa e azul, como dispomos as crianças por filas de meninos e meninas, ou quando relacionamos certos comportamentos a cada gênero (meninas dóceis e meninos bagunceiros), já estamos dizendo para as crianças onde elas se encaixam socialmente, ou deveriam se encaixar, e a escola tem muitas dificuldades em lidar com as que rompem com estes papéis de masculinidade e feminilidade (que é branco, classe média, cis e hétero, diga-se de passagem).

Como proposta, entendo que num primeiro momento seria interessante observar as relações das crianças do grupo com este recorte de gênero. Isto é, observar como brincam, se há divisões entre grupos de meninas e meninos, se as crianças estão reproduzindo algum padrão nos desenhos, nas formas como se relacionam com sua autoimagem, entre outras coisas. Acredito que um primeiro diagnóstico é importante para saber de onde estamos partindo.

Após esta etapa faria uma roda de conversa com as crianças e, como estímulo, poderíamos fazer uma dinâmica para que apontassem alguns elementos como feminino ou masculino. Exemplo: sol, lua, alto, baixo, fraco, forte. Parece simples, mas estes elementos nos ajudam a entender como as crianças já determinam padrões de masculinidade e feminilidade.

Ainda nesta etapa diagnóstica, faria cantos de interesses com brinquedos diversos: carrinhos, bonecas e bonecos, ferramentas, objetos de cozinha e alimentos, dinossauros, etc. Perceber como a turma se movimenta e se divide nestes momentos também ajuda a compreender o que entendem por brinquedos de menina, e brinquedos de menino e, claro, sempre que possível, ficar atenta às falas das crianças enquanto brincam. Quero reforçar que é importante percebemos os momentos em que as crianças reproduzem, mas que também, rompem com os padrões estereotipados.

Após esta fase, organizaria, a cada dia, momentos na rotina em que seria ofertado o mesmo tipo de brinquedo para toda a turma. Ou seja, um dia brincando com dinossauros e dragões, outro com carrinhos de todas as cores, outro com bonecas, bonecos, bolsas e kits higiene, outro com ferramentas, outro com utensílios domésticos, outro sendo dentistas, médicas, cabelereiros, e por aí vai. A ideia não é restringir a brincadeira e a experimentação das crianças, mas sim, oferecer repertório para que se sintam a vontade de ampliar suas vivências e experimentações. Dentro disto, manter também um olhar sempre atento para a diversidade étnico racial presente nos brinquedos, bonecas e bonecos, livros e revistas.

Claro que é preciso entender que as crianças são seres pensantes, que produzem e reproduzem suas culturas e que também não há um só modo de ser criança. Portanto, é preciso pontuar que as crianças podem demonstrar resistência ou não, podem gostar ou mostrar indiferença, depende muito de suas construções individuais e coletivas. A ideia central é aumentar o repertório cultural delas, e fornecer meios para que entendam que nossas possibilidades de gostos, brincadeiras e vivencias não precisam estar diretamente relacionadas com as expectativas de gênero impostas socialmente.

É preciso dizer para as meninas que tudo bem elas quererem ser cientistas, engenheiras, astronautas, professoras, cozinheiras, motoristas, ou nenhuma dessas coisas, E para os meninos, que eles podem brincar com bolsas e bonecas, carrinhos, panelinhas, dinossauros. Precisamos garantir para as crianças oportunidades de vivenciarem suas infâncias com qualidade, sem privá-las, estigmatiza-las ou julgá-las pelo modo como, e com o que, brincam. E para isto, também é preciso repensar o modelo adultocêntrico de educação que dispomos nos espaços escolares.

Além dos momentos de brincadeira, entendo que as leituras, rodas de conversa, recontos e dramatizações são bons aliados para trocarmos impressões e reconstruir certas “verdades”. Histórias com meninas além de “princesas Disney”, e histórias com meninos que choram, que sentem medo, que dançam, que fazem afazeres domésticos. Também é importante manter um bom diálogo com as famílias e grupo de educadoras, pois certas temáticas são seguidas por resistência. É preciso diálogo, formação de qualidade e trocas significativas.

Não posso definir que estas atividades teriam uma duração específica, pois é um tema que deve permear as nossas ações durante todo o ano letivo, assim como trabalhar as questões étnico-raciais. A avaliação deve ser contínua, com base nos retornos das crianças e no que elas estão nos mostrando. É necessário perceber se houve avanços ou não, se as brincadeiras e divisões permanecem as mesmas, etc. É preciso um olhar atento e aberto.

Por fim, aponto que estas propostas não pretendem esgotar o tema, mas são formas de trabalharmos por uma educação que não reproduza desigualdades, estereótipos e exclusões de quaisquer tipos.