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Poesia política de poetas negros e negras: de Solano a Daniel, de Carolina a Tula

Eu canto aos Palmares
odiando opressores
de todos os povos
de todas as raças
de mão fechada
contra todas as tiranias!

A rua é seu palco, seu púlpito, o povo o melhor público, aquele que chega aos poucos e se reconhece. Ou aquele que nem precisa chegar, já está lá, nunca saiu de cena, nunca deixou de estar.

O público-povo que é a própria cena, num outro possível santíssimo tripé: corpo, alma e substância da poesia negra.

Solano Trindade foi poeta vagamundo, Pernambuco, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo. Passeou pelo Brasil levando sua luta do povo negro sofrido. E nesse passeio inventou um teatro com atores que eram domésticas, operários e estudantes que viajou o mundo. De tanto passear inventou a cidade de Embu das Artes, de um pequeno lugar bucólico que era até então apenas Embu.

Poesia assumidamente negra, diziam os críticos. Solano viveu de 1908 a 1974, incansável, um gigante que cantava seu povo, morreu triste e esquecido.

Eu canto aos Palmares
Sem inveja de Virgílio de Homero
E de Camões
Porque o meu canto
É o grito de uma raça
Em plena luta pela liberdade

Lá vem o navio negreiro
Lá vem ele sobre o mar
Lá vem o navio negreiro
Vamos minha gente olhar…
 
Lá vem o navio negreiro
Por água brasiliana
Lá vem o navio negreiro
Trazendo carga humana…
 
Lá vem o navio negreiro
Cheio de melancolia

Lá vem o navio negreiro
Cheinho de poesia…
 
Lá vem o navio negreiro
Com carga de resistência
Lá vem o navio negreiro
Cheinho de inteligência

Vieram outros tantos Solanos. Daniel veio também. Assim como o mestre, usou a rua como palco. Agora isso se chama Slam. A força do verso negro está ainda na reunião, no chamado para gritar junto.

Daniel Marques enfrentou ainda o racismo e a homofobia e usou seu verso afiado no campo de batalha. Militante da região do Itaim Paulista onde reunia gente de todas as idades fortalecendo a cultura local, o movimento negro e agitava o fantástico Sarau dos Umbigos.

Daniel viveu pouco. Escolheu partir aos 28 anos. Sobre esta partida, escreveu Luciana de Carvalho: “Esta perda tão repentina e dolorosa de Daniel expõe uma realidade que infelizmente  cerca a vida de jovens negros.  Além da realidade que já nos é conhecida, de que os  jovens negros  são as principais vítimas da violência, têm 2,5 vezes mais chances de serem assassinados no Brasil, sendo que a cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil,  de acordo com CPI  divulgada em 2016. Outra forma que  vitima a vida de  nossos jovens negros é o suicídio,  resultado de uma triste combinação de ausência de políticas publicas, racismo, dificuldade de acesso a tratamento especializado e o sofrimento psíquico desencadeado pela vivência do racismo,  da desigualdade social e da LGBTfobia que desencadeiam quadros de sofrimento psíquico que podem levar ao suicídio. A vivência do racismo é uma fonte frequente de problemas de saúde, embora seja negligenciada”. 

Todo bicho tem direito a moradia /
Por que eu não teria? /
Até cobra debaixo da terra /
João-de-barro nos pé de árvore /
E o sabiá tem donde morá /
E eu? / Onde vô pará?

Carolina Maria de Jesus precisou carregar muito entulho, muito ferro velho, garrafa, lata. Fez do lixo seu ganha pão e escreveu sua vida para que pudéssemos depois de sessenta anos perseguindo sua lida diária numa grande favela de São Paulo e, desesperadamente, perceber que algumas realidades ainda não mudaram.

O diário e os poemas de Carolina ganharam mundo, sua palavra reverberou em mais de quinze línguas, como a Babel na qual viveu e criou sozinha seus filhos.

A escrita de Carolina permitiu que ela saísse da favela e visse sua obra ser homenageada, deu entrevistas, autógrafos, ficou famosa. Mas não viu que seu livro mais lido é hoje “obra de vestibular” e que em 2017 filmes, peças teatrais, ballets, exposições recontaram sua trajetória.

Não é pouca coisa: sua obra ajuda a entender o Brasil e por isso faz parte de uma lista privilegiada de leituras.

Este vídeo é muito importante porque foi feito por alunos de EJA do CEU Atlântida: 

E vieram outras Carolinas, que também cataram papel e foram babá, cozinheiras, arrumadeiras, copeiras e namoradeiras e que também cuidaram sozinhas de seus filhos.

Veio Tula Pilar Ferreira, considerada uma das maiores poetas da periferia de São Paulo.

“Sua jornada se assemelha, e muito, com a de Carolina Maria de Jesus, uma de suas maiores referências. Assim como a de tantas outras mulheres brasileiras que permanecem lutando, diariamente, contra opressões e impedimentos que são justificados com base em uma estrutura racista e misógina. Inclusive observamos que quando fala em Carolina, talvez, Tula esteja falando de si mesma.(…)
Lembra ainda que desde pequena gostou de escrever e que na casa das patroas pegava os livros das estantes e se inspirava para escrever suas próprias palavras. “Um dia, quando eu era pequena, escrevi um poema. A patroa me viu com o papel, pegou para ler e perguntou se eu estava louca por ler e escrever ao invés de trabalhar e onde eu tinha aprendido a escrever. Eu falei que tinha gostado do que tinha lido no livro e tinha me inspirado. Aí ela olhou de novo, rasgou o papel e jogou no tapete, falando que era para eu limpar, que eu estava na casa dela para trabalhar e que se ela me pegasse escrevendo, eu ia ver. Nisso ela puxou meu cabelo e me deu um beliscão”.

(Trecho escrito por Brenda Torres e Sabrina Nascimento, originalmente
publicado no livro  “Identidade e Força Ancestral: histórias de mulheres dentro da periferia de São Paulo”)

Mas Tula resistiu ao beliscão e a humilhação, escreveu durante toda a vida que terminou abruptamente em 11 de abril deste ano com apenas 49 anos. Apresentou-se em saraus, Bienais de Livro, programas de TV, ficou famosa. E ganhou uma sala com seu nome na biblioteca mais importante da cidade: a Biblioteca Mario de Andrade.

VESTIDO RODADO
 
Lá vem   a negra de vestido rodado
Ai que delícia seu requebrado
Me deixou tonto desconcertado
De salto alto com um bom gingado
Cangote jeitoso, sorriso lustroso

Cintura marcada traseiro empinado
A negra me deixa excitado
Na roda de samba com um belo bailado
Me deixa todo

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