III. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NAS ESCOLAS MUNICIPAIS DE EDUCAÇÃO INFANTIL
 

Desde muito pequenas, as crianças devem ser mediadas na construção de uma visão de mundo e de conhecimento como elementos plurais, formar atitudes de solidariedade e aprender a identificar e combater preconceitos que incidem sobre as diferentes formas de os seres humanos se constituírem como pessoas. Poderão assim questionar e romper com formas de dominação etária, socioeconômica, étnico-racial, de gênero, regional, linguística e religiosa, existentes em nossa sociedade e recriadas na relação dos adultos com as crianças e entre elas. Com isso, elas podem e devem aprender sobre o valor de cada pessoa e dos diferentes grupos culturais, adquirir valores como os da inviolabilidade da vida humana, a liberdade e a integridade individuais, a igualdade de direitos de todas as pessoas, a igualdade entre homens e mulheres, assim como a solidariedade com grupos enfraquecidos e vulneráveis política e economicamente. Essa valorização também se estende à relação com a natureza e os espaços públicos, o respeito a todas as formas de vida, o cuidado de seres vivos e a preservação dos recursos naturais. ”
BRASIL. Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil,
Parecer CNE/CEB n. 20/2009

EDH nas EMEIs

Não existe um salto de desenvolvimento das crianças dos CEIs em relação às das EMEIs. A educação é um processo contínuo que avança abrindo possibilidades diferentes de interação com o mundo, com seus colegas e adultos. No decorrer do tempo, suas experiências se tornam mais complexas e elaboradas, as crianças desenvolvem mais consciência de si mesmas, de seus desejos e sentimentos, que conseguem nomear e explicitar. Seu grande desafio é aprender a conviver, escutando e respeitando os desejos, os sentimentos e as opiniões dos outros. Dessa forma, cresce seu interesse pelos jogos de regras, de tabuleiro e de mesa, que podem simbolizar situações de conflito e levar as crianças à experiência de encontrar soluções, bem como de ganhar e perder, tão importantes para a vida em sociedade. O maior domínio da linguagem verbal amplia a sua experiência de participação nas rodas de conversa diárias, nas quais a vida e as decisões do grupo são reguladas, levando as crianças a aprender que aquilo que elas sentem, dizem, pensam e escolhem é importante para o convívio na escola. Nesse período em que estão nas EMEIs, não só acontece a intensificação de jogos simbólicos, mas também avanços na construção da escrita e da leitura, quando as crianças passam a distinguir imagens de textos. Isso tudo cria outra possibilidade de se relacionar e de interagir, abrindo um leque maior de atuação também para a EDH

Como intervir em situações cotidianas?

Da mesma forma que nos CEIs e em toda escolaridade, a Educação em Direitos Humanos na EMEI se fará principalmente na vivência e na valorização reais desses direitos. Assim, os princípios que pautam as intervenções cotidianas do educador dos CEIs permanecem inalterados. Entretanto, como as crianças de 4 e 5 anos já são capazes de se expressar de maneira mais autônoma, sua participação nas atividades vai mudando, e elas podem colaborar em projetos comuns de toda a turma, enfrentando, nas brincadeiras e na vida cotidiana, os primeiros desafios da ética e da necessidade de reconhecer e respeitar as diferenças.

Por isso, é necessário que os educadores permaneçam abertos à discussão de experiências e conflitos em todos os momentos, demonstrando, com suas atitudes, que a solução de qualquer problema pode ser encontrada, mas que só se encontra a solução de um problema pensando sobre ele. E não se trata apenas de conflitos que envolvam brigas ou o contato físico, já que, nessa idade, o confronto de opiniões e ideias, bem como a necessidade de tomar decisões coletivas, são muito comuns.

Indicamos aqui algumas sugestões de interferência do educador que podem ajudar as crianças a desenvolverem o interesse de conversar para buscar a resolução de possíveis problemas:

1. Se surgir algum problema, é importante identificá-lo e reconhecê-lo. Se houver briga ou uma discussão acalorada, o educador deve interromper qualquer atividade e pedir às crianças envolvidas para conversar em conjunto sobre o que aconteceu e sobre o comportamento delas.

2. Pedir às crianças uma descrição do que aconteceu. Perguntar aos envolvidos e a quem esteja por perto sobre os acontecimentos que ocorreram. Dar a todos uma oportunidade de falar sem interrupção. Incentivos positivos, como um toque ou um abraço, se for o caso, também podem aliviar sentimentos de raiva ou culpa. No entanto, é essencial manter a neutralidade sempre.

3. Explorar uma variedade de soluções. Perguntar às crianças diretamente envolvidas no problema como ele pode ser resolvido. Se as crianças não conseguirem sugerir soluções, o educador pode oferecer algumas ideias.

4. Ponderar as soluções. Apontar que, muitas vezes, pode haver mais de uma solução justa. Incentivar as crianças a pensar nas consequências físicas e emocionais dessas soluções. Relembrar com elas experiências semelhantes vividas anteriormente pelo grupo.

5. Escolher um modo de agir. Buscar um acordo mútuo com base em uma das soluções apresentadas.

6. Cumprir o que foi acordado e acompanhar o grupo relembrando e incentivando todos a fazerem o mesmo.

Em casos de comportamentos discriminatórios, as soluções não são tão fáceis de encontrar. Desse modo, não podemos esquecer que o racismo, o xenofobia e o sexismo, assim como outros, normalmente já estão presentes em crianças muito pequenas, por imitação do que é vivenciado. Em geral, nem a criança insultada nem a criança que insultou têm uma compreensão clara do que seja discriminação.

Assim, as ações do educador são especialmente importantes nessa situação. Primeiro, ele deve se posicionar fortemente diante do comportamento discriminatório (sem acusar, agredir ou ofender quem discriminou) e deixar claro que essa atitude é inaceitável. Depois, o educador pode apoiar claramente a criança que foi objeto da ofensa, sendo firme, ainda que compreensivo, com a criança envolvida no comportamento discriminatório. Também é preciso ajudar as crianças vítimas a perceber que reações negativas a gênero, aparência, deficiência, língua, raça ou outros aspectos acontecem por causa de preconceitos. As questões em jogo devem ser analisadas com as crianças envolvidas, bem como com aquelas que testemunharam a situação. Se necessário, é importante discutir e incluir esses incidentes nas pautas de reunião com os pais, os profissionais de apoio e os membros da comunidade local.

repeitar-e-preciso-coletivo-criacao-dialogandoAtuar dialogando é um grande passo para a criação de uma cultura em que os problemas são discutidos abertamente e em que as crianças se sentem seguras e acolhidas pelos adultos, que sempre estão por perto para ajudá-las a compreender e encaminhar conflitos. É desejável que essa cultura se instaure em todos os níveis de ensino, bem como na crítica a situações fora do ambiente escolar, quando se trata da erradicação de comportamentos discriminatórios.

A igualdade pode ser vivenciada pelas crianças por meio da distribuição, da organização ou da ocupação da sala de aula. A organização de meninos e meninas exclusivamente em grupos separados, por exemplo, ainda é uma prática comum em nossas escolas, o que pode reforçar a discriminação e também alguns preconceitos como “atitudes naturais”. A escola é o lugar adequado para quebrar essas formas de organização e propor outras, integrando as crianças, incentivando a cooperação, o respeito e o desenvolvimento de capacidades por todo o grupo.

É possível que novas formas de organização gerem desacordo ou dúvidas entre as próprias crianças. Assim, é fundamental que isso seja discutido e que o grupo construa, se houver necessidade, regras para equalizar a situação e quebrar ou impedir comportamentos preconceituosos e discriminatórios. Essas regras tornam-se desnecessárias à medida que os valores da igualdade e do respeito são aprendidos e passam a fazer parte do cotidiano de todos.

Pode-se perceber o quanto o papel mediador do educador é importante não apenas na roda de conversa, mas em outros momentos de interação, seja ele professor, profissional de apoio ou qualquer outro integrante da comunidade escolar.

Todos os adultos da escola devem facilitar as amizades entre as crianças, bem como a consciência de que as diferenças são naturais. São eles que ajudarão as crianças nesse aprendizado.

Contudo, muitas vezes situações discriminatórias são tratadas como se fossem naturais. Desse modo, os educadores precisam estar cientes de que eles também podem trazer consigo atitudes discriminatórias, devendo se esforçar para reconhecê-las e superá-las. Nesse sentido, é preciso cuidado para que não seja o próprio educador a apresentar o discurso discriminatório para as crianças, pois nessa idade é muito provável que elas não tenham clareza da sua própria atitude discriminatória.

Ser educador de crianças pequenas exige, portanto, um exercício cotidiano de avaliar seus próprios valores e crenças, pois nessa faixa etária idade as crianças costumam ser “taxadas” e estigmatizadas por características apresentadas em algumas situações.

Entretanto, não se pode afirmar que uma criança que frequenta uma EMEI “é violenta”, “não sabe escutar” ou “não respeita ninguém”.

Rodas de conversa

Na Educação Infantil, a roda de conversa é uma excelente atividade para tratar de questões relacionadas aos Direitos Humanos. Em roda, as crianças podem ser ouvidas e os temas de interesse do grupo podem vir à tona. Do ponto de vista do desenvolvimento da linguagem verbal, o objetivo da roda de conversa é aprender a dialogar: ouvir, respeitar a opinião dos outros, argumentar e saber expressar a sua própria opinião e também ponderar e ceder.

Assim, nada melhor que praticar o exercício do diálogo utilizando temas que fazem parte da vida do grupo, como decidir que lugar visitar no passeio semestral, a qual filme gostariam de assistir, e tantos outros surgidos dos anseios e das necessidades das crianças. Nessas conversas, podem surgir situações interessantes para discutir como se sentem quando são discriminados por um colega, que as meninas podem jogar futebol tanto quanto os meninos, colocar para o grupo que uma criança pode se sentir ofendida porque outra não quer se sentar a seu lado ou brincar com ela por algum motivo.

Em geral, nos ambientes de Educação Infantil, não há o costume de inserir as crianças em discussões que envolvem discriminação, conflitos e distinção de atividades “para meninos” e “para meninas”. No entanto, podemos nos surpreender se dermos voz às crianças, perguntando como elas se sentem, o que pensam sobre determinados assuntos ou problemas e o que sugerem fazer para solucionar uma situação difícil.

O educador deve estar atento para, quando surgir uma oportunidade, não deixar de dar a merecida relevância.

Leitura e escrita

repeitar-e-preciso-crianca-cuidados-rodas-cadeiraA relação com a leitura e a escrita se intensifica nessa faixa etária, e o contato com livros e histórias mais longas e elaboradas é mais frequente. A escolha de histórias a serem lidas ou contadas e a seleção dos livros que estarão à disposição das crianças podem ser feitas pensando em narrativas que provoquem o pensamento das crianças sobre temáticas relativas aos Direitos Humanos. É importante contemplar histórias variadas, que apresentem personagens de ambos os sexos como personagens multiculturais, ativos e não estereotipados. Nesse sentido, alguns livros possibilitam o contato com uma grande diversidade de culturas, como: contos de fadas em que a mocinha quer encontrar um príncipe, junto com outras histórias em que a mulher tem vida própria; histórias da cultura popular das diferentes regiões brasileiras; histórias africanas e de outros lugares do mundo.

Uma sugestão é a elaboração de livros nos quais as crianças possam falar de si mesmas e de suas histórias, garantindo o espaço para a expressão e a valorização de características, preferências e experiências de cada criança, bem como a divulgação delas para o grupo, reforçando a autoconfiança e o reconhecimento e valorizando suas famílias e suas histórias. Atividades como essa promovem a construção do autorrespeito e do respeito ao outro, contando com o importante papel do educador no sentido de orientar e organizar essa vivência.

Artes visuais e participação na construção dos ambientes da EMEI

Do mesmo modo que sentir que suas ideias, histórias, opiniões e produções são valorizadas pelo grupo, o fato de contribuir para o ambiente estético da sua escola, em que suas produções podem “fazer a diferença”, favorece a construção do autorrespeito pelas crianças dessa faixa etária. Nas atividades e nas oficinas nos ateliês de artes, as crianças podem ser convidadas a confeccionar imagens, objetos, desenhos e outras produções que venham a fazer parte do ambiente. Valorizar e expor essas produções garante um espaço de expressão dos jeitos de ser e dos desejos de cada uma, mas traz também uma dimensão estética, que é a de interferir no espaço da escola com seus estilos pessoais.

Nesse sentido, é possível, por exemplo, oferecer a cada criança um pedaço de barbante que represente sua própria vida e estendê-lo na sala para que cada uma pendure desenhos, histórias e objetos que se relacionem a momentos importantes vividos por elas. Isso pode ser feito em ordem cronológica ou em qualquer outra ordem sugerida pela criança. Essa atividade pode contemplar ainda as expectativas e os desejos em relação ao futuro. É particularmente interessante a ideia de que essa linha seja composta ao longo do ano letivo, aproveitando a oportunidade de convivência do grupo para conversar sobre o que cada criança escolheu para colocar na sua linha.

A atividade de contornar o corpo das crianças é bem conhecida na Educação Infantil, e sabemos o quanto está ligada ao conhecimento de si e à formação pessoal e social. No contexto da EDH, essa atividade adquire ainda mais significado. A proposta dessa atividade é, mantendo as crianças deitadas sobre folhas grandes de papel, contornar com giz a silhueta delas, marcando o contorno do corpo no papel. Depois disso, pode-se pedir a elas para desenhar ou pintar detalhes físicos e, em seguida, escrever em volta dos desenhos alguns dados e características (como nome, altura, peso, o que a criança mais gostaria de aprender ou fazer na escola ou na vida adulta). É interessante fixar os papéis na parede, deixando-os expostos para que todas as crianças se conheçam, se reconheçam e aprendam mais umas sobre as outras, bem como sobre si próprias.

Outra sugestão é propor às crianças a confecção de uma família de bonecos, incluindo a si mesmas. Esses bonecos podem ser muito simples, feitos com recortes de papelão colorido e colados em palitos, ou feitos de argila, ou de pano. Pode-se ainda pedir às crianças que identifiquem e nomeiem esses bonecos, explicando umas às outras quem são eles. Ou pode-se também sugerir às crianças que criem uma situação (um teatro, um casamento ou uma festa, por exemplo) com seus bonecos, para apresentar aos outros do grupo. A família de bonecos pode ser complementada com outras pessoas que sejam próximas. E as crianças podem usar esse material criado por elas mesmas para brincar e dramatizar no cotidiano. Essa coleção de bonecos pode incluir ainda indivíduos de qualquer lugar no mundo, dando novos sentidos à brincadeira.

Jogos e brincadeiras no parque

Os espaços externos da escola, em especial o pátio, são lugares onde as crianças podem brincar juntas, explorar seu corpo e seus movimentos, conhecer e participar de brincadeiras tradicionais. O contexto do pátio oferece oportunidades privilegiadas de relação dos adultos com as crianças e entre elas, em que é possível aprender sobre o valor de cada pessoa e dos diferentes grupos culturais. A vivência de jogos e brincadeiras pode ser enriquecida por propostas desafiadoras e que também estimulem as crianças a pensar sobre o cuidado humano, as diferenças e o respeito.Uma boa experiência é brincar em duplas nas quais uma das crianças é vedada e guiada pelo braço pela parceira.

Certifique-se de que a criança “líder” não vai abusar do poder para liderar, pois a ideia é alimentar a confiança, e não destruí-la. O “líder” do par deve tentar fornecer uma ampla variedade de experiências possíveis, como deixar o parceiro “cego” sentir as coisas com os seus pés ou os dedos, liderar com orientações vocais ou até mesmo jogar outro jogo. Os papéis podem ser invertidos e pode-se repetir o processo para que o “líder” seja agora o que foi liderado, e o parceiro “cego” seja o único a enxergar.

Ao final, as crianças podem falar sobre essa experiência, como se sentiram não apenas como parceiros “cegos”, mas também sobre seus sentimentos de responsabilidade como “líderes”.

Essa atividade tem um sentido metafórico: não é o andar com olhos vendados em si que favorece a EDH, mas essa é uma forma de criar uma situação para que os alunos experimentem e reflitam sobre a vida para as pessoas com dificuldades visuais (ou auditivas), assim como sobre a confiança e o respeito.

Outra sugestão é desenvolver jogos e brincadeiras, como brincar de se agrupar e reagrupar, trocando de lugar de acordo com algumas características (por exemplo, “quem está usando cinto”, “quem está usando camiseta vermelha”). Aqueles que compartilham uma ou outra característica devem trocar de lugar, ensinando às crianças que a formação de grupos pode seguir diferentes critérios, e que estes podem ser semelhantes e diferentes de muitas maneiras.

Enfim, existem muitas brincadeiras que podem trazer à tona questões importantes para a EDH.

Jogos de mesa e de tabuleiro

Importantíssimos para a aprendizagem das crianças no que diz respeito à compreensão e ao exercício das regras e sua aceitação, à experiência de ganhar ou perder, sabendo que os resultados podem ser diferentes a cada dia, dependendo da situação, os jogos de mesa e tabuleiro oferecem às crianças a possibilidade de atuar de maneira autônoma. As situações simbólicas trazidas pelos jogos muitas vezes ajudam as crianças a se fortalecerem como sujeitos, aprendendo a lidar com a frustração e com a alteridade (considerar o lugar do outro), capacidade fundamental para a construção do respeito.

Por isso, é recomendável que seja organizada uma ludoteca com jogos desafiadores para a faixa etária, de modo que as crianças possam jogar durante atividades diversificadas ou mesmo em momentos de transição entre uma atividade e outra. Algumas sugestões de jogos de percurso são: “Serpentes”, “Escadas e escorregadores”, “Ludo” e “Jockey” . Esses são jogos clássicos, mas as crianças também podem inventar e confeccionar seus próprios jogos, com seus desenhos, suas pinturas e suas colagens, com base em situações vividas no grupo ou mesmo em suas histórias preferidas.


Bibliografia