2. O MAPEAMENTO: identificando problemas e potencialidades
 

Aquilo que foi levantado com base nas impressões e nas experiências pessoais durante a caminhada “à deriva” e na montagem do mapa precisa ser analisado do ponto de vista institucional para que a reflexão não fique restrita ao limite individual.

Para tanto, a proposta é aprofundar o olhar sobre a escola focando os aspectos apresentados a seguir, organizados em cinco campos de análise:

Campo 1) A rede de relações – As relações que se estabelecem entre todos os integrantes da escola (alunos, profissionais de apoio, professores, diretores, coordenadores, adultos responsáveis, familiares etc.).

Campo 2) Quem não se comunica… – As formas de comunicação que existem na escola.

Campo 3) Desacostumar para mudar – As regras de convivência e funcionamento da escola.

Campo 4) O espaço e o tempo – A organização do espaço e do tempo escolar.

Campo 5) O patrimônio de conhecimento que a escola possibilita construir – Os conteúdos historicamente construídos, selecionados para o Ensino Fundamental e as experiências planejadas na Educação Infantil.

É possível que, por meio do mapa coletivo já realizado, o grupo identifique outros campos de análise interessantes para serem incluídos.

Importante salientar que nenhuma das sequências de atividades aqui propostas esgota a complexidade de cada um dos campos eleitos. Elas apenas iniciam a prática de olhar a escola de modo analítico, que, para efetivar a cultura de EDH, precisa ser apropriada pela equipe e retomada sempre para se tornar permanente

repeitar-preciso-responsabilidade-escolaEm razão da relevância dessas reflexões, é importante desenvolver as atividades em diferentes encontros para que se tenha mais tempo e todos possam pensar sobre os diferentes aspectos da vida escolar, seus problemas e suas potencialidades, produzindo um mapeamento que melhor a represente. Esse tempo e o número de encontros devem ser gerenciados de acordo com as possibilidades em cada local. Portanto, as atividades propostas para o mapeamento podem ser agrupadas em um, dois ou mais encontros.

Campo 1) A rede de relações

Mesmo que os papéis e as funções de todos os que participam do dia a dia da escola estejam definidos de forma clara e minuciosa, as relações que se estabelecem entre as pessoas são bastante complexas e envolvem questões de poder, grau de intimidade e de reconhecimento do trabalho do outro, incluindo a história de cada escola, a capacidade de escuta mútua, entre tantas outras variáveis. São as relações dos adultos entre si (gestores, professores, profissionais de apoio, familiares), entre os adultos e os alunos,dos alunos entre si, dos profissionais da escola com os familiares e responsáveis, da escola com sua comunidade.

Essas relações construídas entre os diversos sujeitos contribuem de forma decisiva para a construção e a sustentação de um ambiente de trabalho e estudo norteado pelo respeito mútuo.

Daí, a importância de um olhar atento, buscando detectar eventuais discriminações, sejam elas dissimuladas ou explícitas. Discriminações e preconceitos de etnia, origem, gênero, orientação sexual, idade, entre outras, são combustível para o desrespeito e para as violências simbólicas ou físicas entre os alunos e entre alunos e adultos. Do mesmo modo, o uso arbitrário do poder sobre o outro (lembrando que todos têm poder em alguma medida) e o autoritarismo nas suas múltiplas variações também são formas de violência. Por outro lado, é importante não deixar de evidenciar relações de solidariedade, acolhimento, reconhecimento respeitoso do outro, valorizando-as e tomando-as como referência de possibilidade.

O campo de análise das relações interpessoais que ocorrem na escola talvez seja aquele que mais vai tocar cada participante em suas atitudes e em seus sentimentos. Contudo, não se trata de identificar os responsáveis pelas situações (aquelas em que o respeito está presente, ou aquelas em que isso não acontece). O importante é observar como e por que acontecem.

Providenciar

– Espaço para os participantes se organizarem em grupos
– Folhas grandes de papel para registro e confecção do quadro do mapeamento

Atividades

1. Narrativas – Cada participante pode fazer uma rápida narrativa de como costuma ser o seu dia na escola, desde a sua chegada, tentando se lembrar das pessoas com as quais se encontra, o que diz a elas e com quem se relaciona indiretamente. Por exemplo: “Quando entro na escola, a primeira pessoa que costumo encontrar é _____. Vou à cozinha e tomo café feito por _____. Tomo a água que foi colocada por _____. Uso o banheiro que foi limpo por _____. Quanto entro na sala de aula, a primeira coisa que faço é _____. Durante o meu dia, me relaciono intensamente com _____”. Uma fala curta, mas que indique algumas das pessoas com quem cada um mais se relaciona e direcione o olhar para quem faz o quê.

2. Situações cotidianas – Em pequenos grupos, escolhe-se uma situação vivida na escola para analisar e depois dramatizar, como forma de compartilhar as reflexões com os outros grupos. É importante que seja uma situação considerada marcante ou exemplar de algo recorrente que costuma ser observado nas relações entre as pessoas.

Cuidar das relações entre os sujeitos é algo que vai além da cortesia, da “boa educação” e do bom humor. Trata-se de imprimir o respeito em cada uma das ações, estejam elas relacionadas à tomada de decisão, à mediação de conflitos ou à resolução de situações de emergência, considerando sempre o papel que os adultos cumprem na escola: a função de educadores.

Para escolher a situação

Algumas questões para inspirar a escolha da situação:

  • Vocês conseguem identificar pessoas (adultos ou alunos) que não se sentem respeitadas na escola? Quem? Em quais situações? O que provoca esse desrespeito?
  • Que práticas presentes no cotidiano escolar vocês identificam como promotoras do respeito entre as pessoas?
  • O que acontece quando alguém se sente desrespeitado? Como são encaminhadas essas situações? Os encaminhamentos são realizados de forma respeitosa?
  • Que tipo de discriminação já ocorreu ou costuma ocorrer no ambiente escolar? Como isso acontece?
  • Há situações de violência na escola? Que tipo de violência? Em que circunstâncias?
  • Vocês conseguem falar o que pensam, colocar sua opinião mesmo que divergente da opinião da maioria?
  • Sentem que sua opinião é considerada? Vocês conseguem ouvir uma opinião mesmo pensando diferente ou discordando dela?

Preparação da encenação

Depois de escolher uma situação significativa, a ideia é montar uma cena incluindo os participantes, suas atitudes e seus sentimentos. Os integrantes do grupo definem quem vai representar cada “personagem”, suas falas, sua atuação e preparam uma dramatização para apresentar aos demais as questões a serem discutidas e provocar reflexões sobre os aspectos considerados essenciais.

repeitar-preciso-responsabilidade-escolaNinguém precisa ser “ator” ou “atriz”, o objetivo é trazer as questões para que sejam vistas e discutidas e não apresentar a melhor peça teatral. Para facilitar a dramatização, o grupo pode representar a situação escolhida em, no máximo, três cenas: contexto, clímax e desfecho.

3. Dramatização e debate – Encenação das situações selecionadas, trazendo a complexidade da realidade representada.

Após as dramatizações de todos os grupos, segue-se um debate sobre a presença do respeito ou do desrespeito com base no que foi apresentado.

Algumas questões importantes para o debate:

  • Essas situações acontecem com frequência? As pessoas da escola reconhecem já terem vivido ou presenciado situações como as que foram encenadas?
  • Há consenso entre todos sobre o que é considerado manifestação de respeito e de desrespeito? Há contradições entre algo considerado respeito ou desrespeito? Por exemplo: O uso do boné pelos alunos em sala de aula; chamar os professores de “sr.” ou “sra.”; falar palavrão; usar o cargo em vez do nome para se referir a alguém (“a tia da limpeza”, “a moça da cozinha”); sair no meio de uma reunião para fazer outra coisa; faltar ou atrasar sem avisar; comentar questões de caráter pessoal de membros do grupo em momentos coletivos (na classe, na reunião de pais).
  • Há necessidade de mudanças? Quais?

Finalização

Sistematizar o que foi trabalhado preenchendo coletivamente e de modo bem resumido o quadro a seguir e escrever numa folha grande para que possa ser retomada posteriormente.

Síntese do mapeamento do campo 1

repeitar-epreciso-crianca-guia-conversa-mapeamento

Elaboração da vivência

Refletir sobre como cada um poderia contribuir para realizar as mudanças indicadas como necessárias.

Campo 2) QUEM NÃO SE COMUNICA…

O campo de análise da comunicação está intimamente interligado ao das relações interpessoais. A comunicação acontece por meio da fala, da escuta, da escrita, da leitura, do olhar, da postura, do gesto… Tão importante quanto falar, escrever e gesticular de modo a se fazer entender é dedicar esse cuidado também à escuta, à leitura e à observação. A comunicação envolve então uma via de mão dupla. Nesse sentido, a preocupação com nossos interlocutores deve ocupar um grande espaço nas situações de comunicação. Escutar o que o outro tem a nos dizer é, sem dúvida, condição para que ele se sinta digno, respeitado. O contrário, não ser ouvido nem levado em consideração, é sentido como desrespeito.

Providenciar

– Folhas grandes de papel para registro e confecção do quadro do mapeamento
Atividades

1. Reflexão em grupo – Estamos sempre nos comunicando, de diferentes maneiras enas mais diferentes situações, mas é importante que a forma de comunicação seja sempre cuidadosa e permeada de respeito para que haja compreensão.

Algumas questões para refletir: Comunicamos tudo o que queremos? Acreditamos que podemos ser ouvidos e compreendidos? Ouvimos e buscamos compreender o que nos é dito?

Por meio dessas reflexões, o grupo poderá identificar como a comunicação entre as pessoas na escola acontece nas situações de respeito e desrespeito: Pela fala? Pelo tom de voz? Pelo gesto? Pelo olhar?

O que pesa mais? A palavra ou o tom de voz? A palavra ou o gesto, o olhar? O que uma palavra, um gesto, o tom de voz pode causar no outro?

Se essas reflexões tiverem sido feitas em subgrupos, é importante que sejam socializadas para todo o coletivo.

2. Continuando a reflexão – Muito importante a se considerar também em relação à comunicação, mas para além da via interpessoal, são os canais existentes na escola para que as informações e a expressão de opiniões possam circular.

A rede de comunicações de uma comunidade é construída não só pela existência de murais, jornal, entre outros, mas, antes de tudo, pela forma como essa comunicação se dá, como esses canais são utilizados.

Assim, é importante pensar: Quais são os canais existentes na escola? Quem organiza essa comunicação? Existem setores da escola para os quais o acesso à informação é difícil?

Finalização

Outras perguntas que podem ajudar a mapear esse campo de análise:

  • Os canais de comunicação existentes são suficientes? Atingem todos os que frequentam a escola (inclusive os que são analfabetos, aqueles que não têm e-mail, os pouco assíduos etc.)?
  • As ideias, os problemas e as opiniões de toda a comunidade são compartilhados para contribuir com a sustentação do projeto político-pedagógico da escola?
  • Todos os sujeitos envolvidos na rotina escolar sentem que são ouvidos e podem se colocar sempre que necessário e para as pessoas que precisam saber?
  • É possível identificar desrespeito nas formas de comunicação no dia a dia?
  • As diferenças de pensamento e opinião são objeto de diálogo?
  • Há espaços de reunião com todos os segmentos que trabalham na escola?
  • Há necessidade de mudanças? Quais?
  • Sistematizar o que foi trabalhado preenchendo, no coletivo e de modo bem resumido, o quadro a seguir, reproduzido numa folha grande, para que possa ser retomado posteriormente.

Síntese do mapeamento do campo 2

repeitar-epreciso-crianca-guia-tabela-pesquisa

Elaboração da vivência
Refletir sobre as mudanças nas quais cada participante gostaria de se empenhar para concretizar.

Campo 3) DESACOSTUMAR PARA MUDAR

Num ambiente democrático, regras e normas são instrumentos para promover a igualdade de direito e o bem comum. Para isso, precisam ser justas, precisam ser conhecidas e legitimadas por todos os que participam do contexto em que se encontram vigentes. Em qualquer instituição, há regras e normas explícitas, e outras que são implícitas. No caso da escola, o Regimento Educacional expressa aquelas que são oficiais. Entretanto, muitas vezes, o cotidiano escolar é regido por normas não ditas, naturalizadas pelo costume e das quais não se sabe a origem nem a razão de ser. Elas estão “embutidas” nas práticas e podem ser muito sutis. Buscar explicitá-las ajuda a analisar: Quais são justas? É possível encontrar algumas que ajudam a reproduzir as injustiças sociais? Às vezes, são até mesmo contraditórias com o que está posto no Regimento.

Providenciar

– Folhas grandes de papel para registro e confecção do quadro do mapeamento

Atividades
1. Debate sobre o Regimento – Todas as escolas têm um regimento que deve expressar os anseios educacionais da comunidade escolar, por meio de seus princípios e suas regras de convivência. Assim, o Regimento é um instrumento educativo, que tem como finalidade organizar a vida da comunidade escolar, construído de modo participativo para que tenha legitimidade, e não apenas um documento formal. Não é algo fechado ou definitivo, sendo passível de mudanças para atender às questões da vida, sempre em movimento. O importante é que seja sempre discutido e acordado entre todos.

Pensando nisso, uma discussão com todo o grupo pode ajudar a explicitar o papel que o Regimento tem. Algumas perguntas contribuem com essa discussão:

  • Todos os aqui participantes conhecem o Regimento da escola? E os demais profissionais da escola?
  • Os alunos conhecem o Regimento? E os seus responsáveis?
  • Vocês acompanharam a elaboração, ou gostariam de ter acompanhado?
  • Seu conteúdo é efetivamente compreendido por todos?
  • Vocês usam o Regimento? Em que situações? Que função ele tem?
  • Há sanções previstas para o não cumprimento das regras e normas? Essas sanções (principalmente as que se referem aos alunos) foram pensadas e são efetivadas como parte do processo educativo e como forma de promoção do desenvolvimento da autonomia?
  • Existe algo no Regimento que precisa ser revisto?

2. Reflexão em subgrupos – O que os participantes identificam como uma regra que não está no Regimento nem nunca foi discutida? Ao analisar a escola como espaço da Educação em Direitos Humanos, é fundamental fazer um esforço para iluminar as normas não ditas e avaliar se estão a serviço da promoção de relações de respeito ou se as atrapalham. A ideia é identificar costumes que impõem formas de funcionamento que nunca foram acordadas, costumes que, por exemplo, podem impedir alguns setores da comunidade escolar de usufruir de suas instalações, ou costumes que autorizam algumas pessoas a fazer algo que não é adequado para o convívio democrático. Por exemplo: Alguma regra ou costume impede alguém de ter acesso aos livros, CDs e outros materiais da biblioteca, da sala ou do espaço de leitura? Se não é utilizada por todos, já foi analisado o porquê? O seu acervo (e como utilizá-lo) já foi apresentado a todos, incluindo os profissionais de apoio? Outro exemplo: Há escolha ou indicação de alunos para participar de eventos e passeios? Como essas escolhas são feitas? São sempre os mesmos alunos? Qual é, na prática, a regra para isso?

Outras questões para aquecer o levantamento do que pode ser mapeado:

  • Alguém se sente desrespeitado por alguma regra? Privilegiam-se, sem motivo aparente, determinadas pessoas?
  • O que alguns podem e outros não? Da fila na cantina ao uso do celular, as obrigações e proibições são justas para todos? Ou alguns podem coisas que outros não podem? Quando há necessidade de diferenças, elas se justificam (pela responsabilidade ou pela necessidade)?
  • Há regras (ou costume) que separam os locais de refeição? Todos podem usar as mesmas dependências sanitárias?
  • São consideradas justas? Alguém se sente desrespeitado com alguma delas? Privilegiam, sem motivo aparente, determinadas pessoas?
  • Na implementação das normas, são consideradas as pessoas que, por algum motivo, se encontram em situação de desvantagem (pessoas com necessidades especiais, déficit intelectual, em situação de grande desvantagem social, entre outras)? Isso é colocado claramente para todos?
  • Existe, ainda que nas entrelinhas, alguma regra que favoreça o desrespeito a alguém ou a algum dos Direitos Humanos ou definidos na legislação brasileira (Constituição Federal, Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto do Idoso, Estatuto da Juventude etc.)?
  • Há necessidade de mudanças? Quais?

Finalização

Cada subgrupo apresenta para os demais grupos as conclusões a que chegou para que seja feito um registro único.

Síntese do mapeamento do campo 3

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Elaboração da vivência

É provável que estejam emergindo muitas diferenças no modo de pensar e sentir entre as pessoas do grupo. Assim, é importante compartilhar os sentimentos que essas diferenças provocam em cada um.

Campo 4) O ESPAÇO E O TEMPO

O convívio escolar é organizado pelo tempo e pelo espaço, e estes podem contribuir para sustentar na escola um ambiente regido pelo respeito mútuo e pela soberania dos Direitos Humanos. A rotina da escola precisa ser organizada e mantida com recursos e regras que sejam respeitosos, considerando as necessidades educativas e de convivência para que tanto alunos quanto educadores se sintam respeitados e considerados, desde como é organizada a entrada e a saída da escola, o sinal para o intervalo, como são mantidos os ambientes agradáveis, valorizando, cuidando e fazendo o melhor uso possível desses espaços na prática educativa.

Providenciar

– Folhas grandes de papel para registro e confecção do quadro do mapeamento
– Materiais para colagem, canetas, tintas, revistas e outros

Atividades
O espaço

repeitarepreciso-atividades-discriminacao1. Análise em grupo – O espaço comunica coisas diversas por meio da sua organização, o que inclui a disposição dos móveis, dos acessos, a luminosidade, os cheiros que exala, os sons que emite, a temperatura, as cores, o cuidado e o uso que se faz dele.

Olhar para os espaços utilizados todos os dias como se fosse a primeira vez é um exercício interessante para a observação de aspectos que passam despercebidos no dia a dia.

Assim, em grupos, os participantes podem pensar em alguns espaços, como sala de aula, pátio, diretoria, secretaria, refeitório, banheiro, biblioteca, espaço e sala de leitura, compartilhando como sentem esses espaços por meio de uma representação plástica utilizando colagem, canetas, tintas…

O importante aqui não é representar literalmente esses espaços, mas tentar “traduzir” a impressão que possuem deles e os sentimentos que esses espaços despertam.

2. Exposição e discussão – As representações são expostas para análise de todo o grupo, conduzindo para as seguintes reflexões:

O que cada representação de espaço comunica? Esses espaços são organizados e ocupados adequadamente para garantir um clima de trabalho, estudo e lazer apropriado às suas finalidades e seguros? Todos têm a mesma forma de ver e sentir esses espaços?

O espaço indica disponibilidade para a interação com a comunidade? As pessoas que chegam veem um local acolhedor?

Como a questão da segurança está colocada no espaço escolar (tanto aquela relativa à integridade física das pessoas quanto a dos equipamentos)? A escola precisa de grades, portas de ferro, cadeados, policiamento? Se for o caso, o que isso provoca nas pessoas?

É provável que existam espaços nas escolas que são muito bem cuidados e conservados e outros muito mal cuidados. Por quê? O que isso indica?

O que falta em cada espaço para que ele possa cumprir sua função educativa e de convívio?

Cabe aqui uma reflexão sobre o que faz com que, fora da escola, determinados espaços também sejam cuidados e conservados, em detrimento de outros. Podemos lembrar da atenção e do zelo dispensados a alguns espaços públicos que indicam respeito aos cidadãos e a seus usuários (espaços culturais, metrôs, entre outros) e do respeito com que esses mesmos cidadãos, em resposta, os utilizam. Por que isso acontece?

3. Outras perguntas que podem ajudar a mapear esse campo de análise:

  • repeitar-e-preciso-crianca-adolecenteQue espaços têm merecido da comunidade escolar a atenção e os cuidados necessários? Quais os que não contam com isso?
  • Há lugares em que se concentram problemas como brigas, vandalismo ou discussões desrespeitosas? Há outros em que “tudo vai bem”? Quais são eles?
  • A sala de informática educativa, a sala e o espaço de leitura são abertos para a comunidade?
  • Quem cuida da limpeza e da organização dos espaços? Apenas os profissionais da limpeza ou todos que os utilizam?
  • A organização e o uso dos espaços da escola são decididos levando em conta as necessidades do coletivo? Quais necessidades são atendidas e quais não são?
  • Há necessidade de mudanças? Quais?

Ao responder a essas questões, o quadro relativo ao “espaço” já pode ser preenchido.

Síntese do mapeamento do quadro 1 do campo 4

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O tempo

4. Reflexão – A forma como se usa o tempo está intimamente relacionada ao sucesso da tarefa educativa e pode também ser fator determinante nas relações que os alunos estabelecerão entre si e com o mundo na vida adulta. Todos precisam de tempo para que as relações aconteçam de forma saudável e respeitosa. Ainda que a rotina da escola seja bastante complexa e “atribulada”, no que diz respeito aos alunos, é preciso considerar as características das etapas de desenvolvimento em que se encontram, oferecendo o tempo necessário para que tirem real proveito das ações educativas propostas dentro e fora da sala de aula. Quanto aos adultos, é preciso promover práticas de colaboração entre todos para viabilizar o melhor uso possível do tempo de que o grupo dispõe, incluindo aí o cuidado consigo mesmo e com os colegas.

Considerando que o convívio escolar é importante, podemos refletir:

  • Há tempo dedicado a conviver com os alunos, conversar com eles e saber sobre a vida eles?
  • Há tempo para contato com familiares?
  • O tempo do recreio é definido com base nas necessidades dos alunos e dos professores? Quais são elas?
  • Qual o tempo dominante nos diferentes espaços da escola? O tempo rápido? Lento? Esses tempos estão de acordo com o que aí se faz?
  • A organização dos tempos atende às necessidades de todos, em especial as necessidades educativas dos alunos?
  • É possível pensar e elaborar planos de médio e longo prazos na escola ou só se pensa no “aqui e agora”?
  • Há necessidade de mudanças? Quais?

Finalização

Dar continuidade ao quadro iniciado no momento anterior (quadro 1 do campo 4), sistematizando o que foi trabalhado.

Síntese do mapeamento do quadro 2 do campo 4

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Elaboração da vivência

Modificar a organização do tempo e do espaço da escola mexe com a vida de todos. Compartilhar com os participantes do grupo o que cada um considera ser o maior desafio.

Campo 5) O patrimônio de conhecimento que a escola possibilita construir

repeitar-e-preciso-crianca-conhecimentoO quinto campo de análise é bastante complexo e, como os demais, demanda olhares e debates constantes. Sua especificidade está em ser mais explícito, uma vez que está, em boa parte, escrito em documentos (o currículo, o PPP, o Plano Anual), sendo alvo de análises e discussões para planejamento e avaliação. No Ensino Fundamental, trata-se dos conteúdos das áreas a serem construídos pelos alunos e, na Educação Infantil, do “conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade” (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, 2010, artigo 3.º).

As atividades sugeridas a seguir não abarcam tudo o que é possível e necessário analisar nesse campo, mas possibilitam um olhar sobre essa questão, um exercício para iniciar a prática de analisar, coletivamente, os valores e as concepções que os alunos aprendem com aquilo que planejamos intencionalmente. Na função de educadores, precisamos refletir se o que os alunos aprendem é aquilo que a escola tem a intenção de garantir. Será que estamos realmente ensinando o que queremos ensinar? Será que os materiais, as atividades e a organização da sala de aula são coerentes com os princípios dos DH?

Nesse campo, é importante observar as especificidades da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, que se organizam de modo diferente. Para isso, a sugestão é que os educadores se agrupem conforme as turmas com as quais atuam.

Para familiares, equipe gestora e administrativa, a sugestão é integrar os subgrupos conforme sua aproximação com as turmas de estudantes.

A Orientação Normativa n. 1/2013 da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (Avaliação na Educação Infantil: Aprimorando os Olhares) recomenda que, nas unidades de EI, construa-se uma pedagogia para/com a infância, afirmando a ideia de criança “contextualizada em sua concretude de existência social, cultural e histórica, participante da sociedade e da cultura de seu tempo e espaço, modificando e sendo modificada por elas”. É, portanto, uma concepção de currículo que prevê, em seus próprios termos, uma participação ativa das crianças, reconhecendo-as e respeitando-as como sujeitos.

Providenciar

– O projeto político-pedagógico (PPP) da escola
– Os planejamentos anuais de cada classe
– Acesso à biblioteca, à sala de leitura ou ao acervo das classes
– Para o Ensino Fundamental, os livros didáticos utilizados na escola

Atividades

repeitarepreciso-atividades-discriminacao1. Reflexão – É essencial um olhar para os conhecimentos que planejamos ensinar e para as ideias e os valores que ficam implícitos nas nossas escolhas, assim como nas nossas omissões, porque podem não ser aqueles desejáveis para a Educação em Direitos Humanos. Na Educação Infantil, mapear as experiências vividas pelas crianças no CEI e na EMEI significa reconhecer quais delas são realmente promotoras de descobertas e aprendizagens relacionadas à convivência e ao respeito. E, em todas as idades, os alunos aprendem tanto pelo que se ensina quanto pelo modo como se ensina.

Algumas questões que ajudam a fazer uma reflexão geral sobre as intencionalidades educativas da equipe a ser realizada no coletivo:

  • O que gostariam que os alunos pensassem sobre os DH ao sair dessa escola?
  • Quais os valores que essa escola quer ensinar?
  • Quais atitudes gostariam que tivessem desenvolvido ao longo da escolaridade nessa unidade?
  • Como educadores profissionais, que contribuição essa equipe quer dar à construção da democracia?

2. Pesquisa – Organizar a turma em grupos. Definir lugares e materiais que podem ajudar a analisar os conhecimentos trabalhados na escola sob a perspectiva da EDH.Algumas possibilidades para análise:

Sobre as práticas da Educação Infantil

  • Que momentos são os mais preciosos para que as crianças se sintam respeitadas e aprendam o que é serem respeitadas?
  • Em que momentos as crianças podem viver experiências de respeitar o outro?
  • Como se assegura às crianças essas experiências de respeito, a ponto de poderem reconhecê-las como direitos e poderem lutar por eles quando, porventura, não os tiverem reconhecidos?
  • Em quais dessas práticas ainda é preciso avançar?

Sobre os livros didáticos do Ensino Fundamental

  • É possível observar neles os princípios vinculados à promoção dos DH e uma visão de mundo baseada em conceitos democráticos?
  • A luta e a conquista de direitos são explicitadas nos livros didáticos? Situações em que houve violação dos Direitos Humanos são tratadas como tal? Os livros colocam foco nos DH, nos movimentos sociais e no papel da participação na vida pública, ou apenas tratam de heróis mitificados, como a princesa Isabel no caso da abolição?

Sobre os planejamentos (EI e EF)

  • O planejamento de aulas leva em conta tempos, espaços, necessidades mais urgentes do contexto e também a garantia de trabalho com um rol de conhecimentos sistematizados, seja nas aulas no EF, seja nas experiências da EI?
  • As atividades promovem o protagonismo de professores e alunos e alimenta experiências nas quais a voz de todos é considerada?
  • Os professores das diversas áreas ou grupos etários realizam projetos conjuntos, não só no espírito da interdisciplinaridade, mas também da educação emancipadora e democrática?
  • Os professores orientadores de sala de leitura (POSL) e os professores orientadores de informática educacional (POIEs) participam de reuniões pedagógicas e outras com o objetivo de colocar seus espaços e tempos também em sintonia com a EDH? Realizam projetos especiais, participam da elaboração e de conteúdos à luz da EDH?

Professores e profissionais de apoio discutem questões do contexto, sua relação com a sala de aula e o espaço escolar buscando manter na escola um clima de aprendizado constante em relação aos acontecimentos da atualidade que, muitas vezes, ainda não estão ou nunca estarão nos livros didáticos?
Sobre o PPP da escola
Os alunos e seus familiares conhecem o PPP? Podem opinar, debater, discutir e, especialmente, entender porque ele é escrito e debatido?
O ideal (a lei) de escola laica é respeitado? Ou existem práticas religiosas?
O calendário de atividades culturais é discutido com a Associação de Pais e Mestres (APM) e o Conselho Gestor? Qual tratamento é dado às datas comemorativas? Procura-se ensiná-las em sua dimensão histórica, política social ou apenas como um feriado para descansar?
Os alunos são incentivados a participar de concursos, programas, projetos, atividades culturais que possam enriquecer seu perfil de cidadão e de estudante?
A escola prevê cursos de extensão que aprimore conhecimentos e práticas de acordo com a EDH?

Observação: É importante ler a parte específica deste caderno, que tem orientações para a EDH nos CEIs, nas EMEIs e nas EMEFs, inclusive para o Ensino Fundamental, ajudando a analisar os conteúdos das diversas áreas curriculares.

3. Socialização das pesquisas – Apresentar o resultado da pesquisa, buscando relacionar o que foi analisado na biblioteca, no espaço e na sala de leitura, nos livros didáticos e nos espaços da escola, discutindo e buscando responder a questão: Existe coerência entre os valores do que se deseja ensinar e o que efetivamente é realizado?
Abrir o debate em plenária para análise, complementando, modificando e concluindo a pesquisa.

Finalização

Incluir as questões levantadas na análise desse campo no quadro que apresentará os resultados de todos os mapeamentos.
Síntese do mapeamento do campo 5

repeitar-e-preciso-crianca-conhecimento-didáticos

Elaboração da vivência

Esse mapeamento fez com que você se desse conta de algo importante sobre a escola que você ainda não sabia ou sobre o qual não tinha pensado?

Finalização do mapeamento

Expor o quadro completo no mural ou em um local em que todos possam ver, ler, analisar, comentar, sugerir. Esse quadro será retomado no próximo passo: o plano de ação.

Texto de apoio
RESPEITO MÚTUO

No levantamento realizado no início do Projeto sobre a questão do respeito, embora muito desejado por todos, ele aparece como um valor muito pouco praticado em algumas escolas. As queixas de desrespeito vieram de todos os grupos da comunidade escolar (professores, alunos, diretores, profissionais de apoio, familiares). Nessa ausência, ficou evidente a seguinte relação de mutualidade: “Desrespeito porque não sou respeitado e só respeito quem me respeita”.

Se levado a ferro e fogo, isso cria um círculo vicioso de desrespeito que só poderá ser quebrado se tomarmos a decisão, como educadores que somos, de respeitar sempre e a todos, independentemente de nos sentirmos ou não respeitados. Esse é o primeiro e essencial passo da educação em valores. Tomar o respeito como princípio de vida e da atuação como educador é resultado de uma reflexão ética, de um desejo e de tomadas de decisão.

“Respeito” vem do latim respectus, que remete à ideia de “olhar outra vez”; prestar atenção a algo que merece um segundo olhar. Assim, respeitar tem a ver com a disposição de conhecer, de prestar atenção e levar em consideração.

Aqui, o respeito mútuo não está sendo proposto como mera prescrição, mero dever ser, mas como algo que permeia, por princípio, as relações estabelecidas pelos sujeitos, em toda e qualquer situação. O respeito mútuo implica reconhecimento de si e do outro como igual e diferente, porque o outro é igualmente digno de respeito, porque humano, independentemente da diferença de função, idade, raça, classe social etc., mas também porque único, singular.

E como se fazer respeitar? Respeitando a si mesmo e ao outro

Os alunos esperam reciprocidade e negociação justa na relação com os adultos, sendo necessário construir compromissos com eles, confirmando a autoridade dos adultos nesse ato. Uma das demandas recorrentes entre os alunos para se sentirem respeitados é a de serem ouvidos e levados a sério. Trata-se de um pedido de reconhecimento como sujeitos que se dá pelo cumprimento do trato de respeito mútuo, de estima social.

Se isso vale para a relação aluno-professor, vale também para a relação adulto- -adulto. O respeito mútuo é fundamental para a vida em comum, para sedimentar na escola uma comunidade escolar.

repeitar-epreciso-crianca-guia-conversa-respeito