III. Educação em direitos humanos no ciclo interdisciplinar
 
III. Educação em direitos humanos no ciclo interdisciplinar

1. Características do ciclo interdisciplinar

Já mais crescidas e capazes (com idade entre 9 e 11 anos), tanto do ponto de vista das aprendizagens quanto no que se refere à capacidade de se relacionar, dialogar, ouvir o outro e considerar o meio social, as crianças a partir do Ciclo Interdisciplinar (4.º, 5.º e 6.º anos) podem ser desafiadas a olhar para o mundo de forma mais ampla, autônoma e singular. A leitura e a escrita têm cada vez mais um papel determinante na vida de todos, como um importante procedimento de trabalho, estudo e fruição.

Mesmo com um número maior de áreas de conhecimento e de professores, é possível estabelecer relações entre os temas e os objetos tratados em cada uma dessas áreas. Nesse ciclo, o 4.º e o 5.º anos contam com a possibilidade de abordar conteúdos por meio do trabalho com projetos. E, a partir do 6.º ano, os professores especialistas podem atuar de forma a compartilhar a docência de uma mesma classe.

Aos poucos, os alunos percebem que o mesmo assunto pode ser observado, tratado e investigado de diversos pontos de vista. Pode-se oferecer aos alunos, por exemplo, a possibilidade de lidar com o tema da discriminação da cor de pele por meio do estudo das Ciências Humanas, abordando questões históricas que podem elucidar aspectos geradores, como a dominação de um povo pelo outro, a escravidão, a colonização e algumas guerras.

Entretanto, é importante que a ciência também os apresente às diversas composições de características físicas de diferentes povos, esclarecendo que não é possível classificá-las como melhores ou piores, apenas como diferentes. Esse tema pode ser abordado ainda por meio da arte, tomando como objeto de estudo, por exemplo, a produção de artistas de diferentes etnias.

Quanto mais frequentes forem essas abordagens interdisciplinares, maior será a possibilidade de os alunos aprenderem a estabelecer relações para a compreensão de questões complexas.

Elaborar ideias (hipóteses, proposições) acerca dos assuntos tratados na escola e compartilhá-las com os colegas são oportunidades que devem fazer parte da rotina dos alunos com muita frequência.

Nesse momento, torna-se possível algum tipo (mesmo que incipiente) de organização de grupos munidos de objetivos comuns, como campanhas e reivindicações coletivas, no ambiente escolar, contando com a orientação e o monitoramento dos adultos. Essas são experiências iniciais de organização que terão repercussão nas etapas posteriores da vida escolar e social.
2. Sugestões de atividades no ciclo interdisciplinar

Apresentamos a seguir algumas atividades para promover a construção e a manutenção de princípios dos Direitos Humanos que almejamos manter vivos na escola. Trata-se de situações que, em alguns casos, inauguram a ação e a reflexão acerca de questões relacionadas aos Direitos Humanos e à ideia de respeito mútuo. São propostas de atividades marcadas pela interdisciplinaridade, uma das principais características desse ciclo do Ensino Fundamental. É importante lembrar que os DH devem permear as atividades culturais e os demais eventos realizados pela escola.

Planejando uma nova comunidade ou um novo país

Uma proposta de atividade muito interessante é sugerir aos alunos que definam regras de convivência, direitos e combinados para reger um país imaginário (ou uma escola, uma sala de aula, uma rua). Esse exercício é uma oportunidade de reflexão e discussão que pode contribuir de forma significativa para a compreensão dos direitos de cada um e de todos, aproximando-os das questões inerentes à convivência e à vida em grupo.

Assim, ao imaginar uma situação ideal, fica evidente o que não vai bem, o que precisa ser mudado. Por isso, mais importante que fazer uma lista de direitos e


1Os alunos devem enumerar aquelas regras e direitos que realmente consideram importantes. Muitas vezes, as crianças enumeram regras e combinados de forma a reproduzir os valores e ditos dos adultos. Aqui, a ideia não é chegar a um consenso, mas seguir pensando sobre o tema.

 


2Não cabe a nós, educadores, avaliar ou atribuir importância maior ou menor àquilo que foi exposto pelos alunos. Nossa função é promover momentos de fala e de escuta que contribuam com a ressignificação constante das ideias. 

 

Apresentando a Declaração Universal dos Direitos Humanos

Abordando conceitos que permeiam as relações dos grupos de toda a comunidade escolar, a apresentação da Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma proposta que pode atravessar todas as áreas e todas as situações da vida escolar.

Há muitas versões lúdicas e ilustradas da Declaração, editadas especialmente para o público infantil. No entanto, basta uma breve explicação acerca da história desse documento, pois, nesse momento, o mais importante é que as crianças entrem em contato com os direitos explicitados na Declaração e com a ideia de que eles existem para a proteção de todas as pessoas, para garantir a todos o direito à vida e à dignidade. As discussões podem incluir a temática da efetivação desses direitos, tanto no que compete ao Estado quanto à responsabilidade de todos para com o direito de todos.


1O conhecimento da Declaração Universal dos Direitos Humanos não deve se tornar, para as crianças, mais um conteúdo a ser estudado. As ideias contidas na Declaração devem, aos poucos, fazer parte do dia a dia do grupo.

 


2Podemos propor às crianças que levem o tema para casa antes de apresentar o documento à classe. Assim, cada uma chegará à escola trazendo algumas ideias que podem ser compartilhadas e dar início a conversas e discussões.

 

Os direitos das crianças

Uma prática comum dos professores é promover, em sala de aula, conversas sobre as formas de resolver conflitos sempre que eles surgem. Assim, pode ser interessante os alunos conversarem também sobre os seus próprios direitos, muitas vezes reivindicados por eles. Para encorajá-los a procurar por esses direitos, é possível propor que façam uma pesquisa sobre direitos da infância e da juventude em diferentes fontes (livros, internet, entrevistas).

Certamente, eles encontrarão informações sobre a Convenção sobre os Direitos da Criança, que pode ser investigada nas suas origens e conhecida por todos. A sugestão é que a pesquisa seja feita de maneira detalhada, sem que seja preciso determinar um prazo para sua conclusão.

1Para evitar que o assunto se esgote rapidamente, pode-se convidar todos para fazer um mural na sala de aula ou no pátio da escola com notícias que revelam desrespeito aos direitos das crianças. Sugerir ainda que os alunos convidem diferentes pessoas para conhecer o mural e conversar com eles sobre o assunto. 


2   Apresentar aos alunos os filmes:

   MUDAR O MUNDO (animação da Agência Canadense para o Desenvolvimento Internacional)
  DIREITOS HUMANOS PARA CRIANÇAS (animação de Fernando Rabelo)

Produção de um jornal

Convocar nossos alunos a fazer o papel de “pequenos jornalistas” pode fazer com que a questão dos Direitos Humanos esteja sempre presente e viva entre todos, passando a permear todas as relações, conversas, conflitos e estudos de alunos, professores, profissionais de apoio e demais adultos ligados às crianças.

Trata-se de uma proposta interdisciplinar, uma vez que diversas áreas do conhecimento podem ser abordadas e oferecidas à análise das crianças. Além da Língua Portuguesa, que está presente como procedimento fundamental para a produção do jornal, é possível abordar, por meio das notícias, diversas áreas do conhecimento, como: Ciências da Natureza (apresentando aos alunos e convidando-os a escrever matérias sobre o desmatamento e as consequências dele, por exemplo); Ciências Humanas (denunciando um caso de violência nas ruas ou nas escolas); Matemática (analisando gráficos e comparando dados que apresentam, por exemplo, a queda do nível de água de uma represa).

Antes de dar início à produção, é preciso que o jornal passe a ser um veículo de comunicação familiar para as crianças. Para isso, é necessário que o professor traga jornais para a sala de aula, sempre munido de um propósito: mostrar uma matéria interessante, comentar uma notícia ocorrida no fim de semana, deixar clara sua indignação com notícias de desrespeito aos direitos de alguém, entre outros. São muitas as possibilidades: jornal da classe, da escola, de uma determinada série escolar ou de qualquer outro grupo que possa ser formado na comunidade (esportistas, alunos da aula de dança etc.). O importante é que todos sejam convidados a produzir textos que possam interessar à comunidade e ser lidos pelo maior número de pessoas possível.

Para adquirir fluência na produção textual, os alunos precisarão de um apoio efetivo por parte dos professores. Portanto, esse projeto pode fazer parte do planejamento dos anos e dos ciclos do Ensino Fundamental. Não podemos deixar de considerar, porém, que os alunos se encontram em diferentes etapas e momentos de seus processos de formação como leitores e escritores. Assim, é importante que todos possam contribuir com aquilo que são capazes de fazer. Se, de um lado, alguns alunos se mostram prontos para escrever textos relativamente longos ou complexos, de outro, é possível propor que outros alunos produzam as legendas das imagens que acompanham as notíci
as. Outros, ainda, poderão se responsabilizar pela tarefa da revisão dos textos.

A produção de um jornal oferece aos alunos a oportunidade de explorar diferentes tipos de texto: notícias, reportagens, legendas, entrevistas, informações precisas (previsão do tempo, filmes em cartaz etc.), artigos de opinião. Esses são textos que apresentam diferentes graus de complexidade de produção, favorecendo a
aprendizagem de todos. Pode-se escolher entre fazer um jornal em cada uma das classes, mas também pode ser 3muito interessante e produtivo para todos se a escola puder produzir um único jornal, feito por todos, de acordo com as suas possibilidades. É possível ainda optar por um jornal mural, caso não seja possível a impressão de muitos exemplares.

1As notícias de dentro da escola são sempre compreendidas com mais facilidade pelas crianças. Assim, é essencial garantir o espaço delas no jornal. 

 


2A aprendizagem das crianças será mais efetiva se elas puderem trabalhar sempre em parcerias, contando com a troca de ideias e o confronto de hipóteses.  

Participação na escola e campanhas pelos Direitos Humanos

Assim como os alunos do Ciclo de Alfabetização elaboram campanhas sobre temáticas relativas ao convívio na comunidade escolar e sobre Direitos Humanos, os alunos do Ciclo Interdisciplinar devem continuar essa prática, ampliando e aprofundando os temas e envolvendo outros integrantes da comunidade escolar, incluindo seus familiares.

Essas são atividades para os alunos aprenderem mais sobre o funcionamento da escola, se integrando a esse espaço e tomando posse do espaço que é também deles. Pela sua própria natureza, essas atividades fomentam o protagonismo e a atitude de participação, identificando questões e buscando transformações.


Bibliografia