II. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO
 
II. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO
1. CARACTERÍSTICAS DO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO

Como já apontado anteriormente, o ingresso no Ensino Fundamental é marcado por uma série de mudanças, tanto no que diz respeito à escola (rotina, aprendizagens, estrutura, exigências) quanto ao desenvolvimento das crianças, começando pelas relações estabelecidas com o professor: se antes as crianças o tinham como a principal referência do espaço escolar, agora elas passam a considerar de forma muito mais intensa os colegas e as amizades, identificando-se cada vez mais com eles. Desse modo, o professor passa a ocupar um espaço diferente, como uma figura permeada de autoridade na promoção da aprendizagem, ainda que continue mantendo com todos um vínculo forte de afeto e confiança. Podemos dizer que, ainda que continuem (por muito tempo) a ser crianças, no Ciclo de Alfabetização do Ensino Fundamental, elas passam a fazer parte de outra categoria: mais autônoma, mais vinculada ao mundo das outras crianças e mais preparadas para encarar os desafios que a aprendizagem lhes impõem.

Os novos desafios da aprendizagem e a alfabetização

A orientação para o Ciclo de Alfabetização incorpora fortemente as dimensões do brincar, da alfabetização para o letramento e da autoria, assim como compreende que as práticas pedagógicas e as decisões do educador devem ser orientadas pelas demandas dos estudantes. No que diz respeito à aprendizagem, são muitas também as transformações que ocorrem nessa faixa etária (dos 6 aos 8 anos).

Um dos maiores e mais importantes desafios enfrentados pelas crianças nesse primeiro ciclo é o processo de alfabetização, que possibilita ampliar o acesso à cultura e às informações a que todos têm direito na sociedade, contribuindo de forma significativa para a construção da condição de cidadão.

Assim, a escola vai ganhando um significado mais amplo para os alunos. O sentimento de pertencimento à comunidade escolar leva as crianças a rever e reconstruir sua postura com base nas situações que vivenciarem juntas e nas experiências compartilhadas. Por isso, promover situações em que os alunos sejam convocados a interagir munidos de um objetivo comum (compartilhar saberes e dificuldades, pedir e oferecer ajuda) pode incrementar um processo de construção compartilhada de conhecimento e de atitudes de solidariedade.

2. SUGESTÕES DE ATIVIDADES NO CICLO DE ALFABETIZAÇÃO

As atividades propostas aqui são situações que foram planejadas almejando a construção e a manutenção dos princípios que devem permear todas as relações que se estabelecem dentro da escola: justiça, respeito, equidade, cuidados, solidariedade e democracia. Na verdade, são situações “disparadoras”, que têm como passo inicial uma atividade baseada nos princípios citados anteriormente, que poderá se estender e fazer parte da rotina dos alunos, que estarão, assim, implantando, no espaço e no dia a dia da escola, uma cultura baseada na soberania dos Direitos Humanos.

Cuidando dos colegas em pequenos acidentes

Uma ideia é construir coletivamente um “Guia de primeiros socorros de pequenos acidentes” para orientar os alunos no momento em que algum de seus colegas se machucarem, contemplando perguntas como: O fazer quando um colega se cortar? Como fazer quando um colega bater a cabeça? E quando for picado por um inseto? Como proceder quando alguém cair da escada? E quando desmaiar? Em todos esses casos, um adulto deve ser chamado, mas é preciso que as crianças saibam tomar algumas providências básicas.

Outra possibilidade é confeccionar cartazes e avisos para evitar acidentes na escola e em casa. Os alunos que começam no ciclo da alfabetização também devem ser desafiados a escrever nesses cartazes. Ainda que não sejam capazes de fazê-lo da forma convencional, eles podem lançar mão de desenhos explicativos com pequenos textos. Um texto do tipo instrucional, contendo uma pequena lista de procedimentos, sem frases elaboradas, é uma produção possível, contribuindo com o processo de aquisição da escrita. O trabalho pode ter início nas salas de aula, para depois reunir as indicações em um produto único e coletivo, que pode ser um mural a ser exposto num espaço de grande visibilidade, cartazes espalhados pela escola ou um folheto explicativo a ser distribuído para toda a comunidade.

Uma variação dessa atividade pode ter como foco campanhas de saúde, como prevenção da dengue, higiene, economia de água, cuidado com o lixo, ou outras que estejam em pauta.

O importante é que a ideia do cuidado com o outro esteja presente e constitua um valor na comunidade.

Fique de olho: É interessante que os alunos possam ter contato com médicos e enfermeiros na comunidade escolar (pais de alunos, parentes de professores e funcionários de unidades de saúde das redondezas) que possam ser entrevistados pelos alunos. As perguntas devem ser elaboradas e escolhidas com antecedência.

Pense nisso: Cuidar do outro é respeitar. Ser cuidado é ser respeitado. Esse é um valor a ser afirmado para que as crianças dessa faixa etária reconheçam sua importância, adquirindo a noção de responsabilidade coletiva e a ideia de comunidade.

Mural de boas-vindas e dicas para receber novos colegas

Essa é uma sugestão para os alunos do 2.º ano (com 7 ou 8 anos de idade) que chegaram à escola no ano anterior e que receberão os novos alunos que estarão ingressando na comunidade. Com isso, pode-se fortalecer a autoestima desses alunos, que poderão atuar como “experientes” e conhecedores da rotina da escola. Vale ressaltar também a oportunidade que eles terão de revisitar as situações difíceis que viveram ao entrar no Ensino Fundamental e reconhecer seu processo de adaptação.

Nesse sentido, esperar e ser esperado, receber e ser bem recebido são situações que colocam em jogo, antes de mais nada, a ideia da solidariedade que, nesse caso, se encontra no cuidado e na ajuda prestada ao outro e na identificação com a dificuldade que o outro está enfrentando.

Pensando em fazer da escrita um desafio presente nesse momento de alfabetização, a produção de um mural de boas-vindas para os novos colegas pode ser uma proposta interessante. O mural pode contemplar não só mensagens de boas-vindas, mas também dicas de orientação espacial, horários, nomes e funções dos funcionários da escola etc. Nesse processo, é importante incluir a leitura do mural para os recém-chegados que ainda não são leitores. Essa proposta pode ser realizada em outras situações, como a chegada de um aluno novo na sala no meio do ano letivo, a apresentação da escola a visitantes, reformas no espaço escolar etc.

Fique de olho: É importante que todos os alunos possam se colocar, dando dicas e orientações aos novos colegas, e não somente aqueles que têm mais facilidade de comunicação. Nesse processo, todos devem se sentir autores.

Pense nisso: É fundamental criar um sentimento de comunidade entre os alunos, algo que os aproxime, que não seja artificial. Afinal, estamos ensinando a ler e a escrever e também cultivando valores.

Campanha de limpeza no espaço escolar

O objetivo desse tipo de campanha é fazer com que os alunos se apropriem do espaço escolar e se responsabilizem por ele por meio dos cuidados e da manutenção, lembrando que essas são atitudes de respeito para com o outro e para consigo mesmo. Também aqui a escrita pode estar presente. Dessa vez, as crianças podem ser convidadas a escrever pequenos bilhetes ou lembretes para os colegas, que podem ser deixados nas carteiras das salas (para os alunos do turno seguinte), no mural da escola, nos espaços de recreio ou até mesmo no banheiro.

Primeiro, é importante fazer um trabalho de conscientização sobre a importância desses equipamentos e espaços da escola, o que significam para todos, para que servem. Depois, identificar como podem cuidar e divulgar para todos essa iniciativa, inclusive para funcionários e a direção da escola, que podem ajudar com algumas iniciativas conjuntas.

Essa ideia também pode ser aproveitada em outras situações de cuidados com a escola, como a de potencializar os espaços que a escola oferece para proporcionar mais e melhores momentos de convívio, incrementar atividades de convívio no pátio ou no espaço do refeitório.

Fique de olho: Essas campanhas devem ser fruto de discussões com a classe, e as propostas devem vir dos alunos depois de um processo de compreensão e de pesquisa em materiais já existentes.

Brincando em segurança

Outro tipo de campanha sugerida para essa faixa etária é sobre cuidados com a segurança ao usar os brinquedos do pátio. O grupo de alunos pode circular pela escola e, depois de identificar possíveis riscos de acidentes, pode organizar uma lista de perigos sobre os quais todos da escola precisam ser alertados.

Para esse tipo de campanha, podem ser feitos murais e cartazes propondo cuidados e atenção. Os brinquedos do pátio da escola podem receber pequenas placas contendo orientações para utilização com segurança de cada um deles. O ideal é que os alunos escrevam com letras grandes e que as placas sejam plastificadas para que resistam ao tempo e ao ambiente externo. Nessa atividade, é importante que todos possam atuar como escritores, e não somente aqueles mais competentes nesse sentido.

Pense nisso: Todos os desafios relacionados à escola podem ser mais potentes para a aprendizagem das crianças se enfrentados de forma que os alunos possam discutir e colocar em jogo suas próprias hipóteses.

Fique de olho: Aqueles alunos que não conseguirem ou não quiserem escrever podem participar de outras formas, ajudando a decidir o que deve ser feito. Todos devem ser incluídos de alguma forma nessas atividades, que representam contextos de aprendizagem do valor e da atitude de respeito e cuidado com os outros.


Bibliografia