Orientações para o Ensino Fundamental
 

I. EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS NO ENSINO FUNDAMENTAL

1. CARACTERÍSTICAS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Educação formal e avaliação

No Ensino Fundamental (EF), os processos educacionais são marcados pela ampliação de possibilidades dos alunos para interagir entre si, com os adultos e com os conteúdos curriculares.
Programa Mais Educação São Paulo tem afirmado a necessidade de transformar a estrutura tradicional de ensino, marcada, entre outras coisas, pela fragmentação dos conteúdos, pela preponderância do ensino sobre a aprendizagem, pelas avaliações formais (provas).

A reorganização curricular desse programa para o Ensino Fundamental se orienta em três ciclos de três anos cada: Ciclo de Alfabetização (1.º, 2.º e 3.º anos), Ciclo Interdisciplinar (4.º, 5.º e 6.º anos) e Ciclo Autoral (7.º, 8.º e 9.º anos). A proposta dos ciclos busca romper com a visão seriada, criando um foco comum para diferentes momentos da escolaridade, sem rupturas no processo de desenvolvimento e aprendizagem dos alunos.

Essa perspectiva educacional é construída no decorrer do tempo, com base nas experiências realizadas e aprendidas nas escolas. A escolaridade fundamental é marcada pela ampliação do compromisso com aprendizagens que surgem de forma mais estruturada, por assim dizer. É também nesse período da escolarização que os processos de avaliação vão se tornando mais presentes e evidentes para os educandos, que, aos poucos, vão atribuindo sentido e se responsabilizando por esses processos. Assim, o EF demanda encorajamento no desafio da vivência escolar.

A avaliação é um instrumento importante para o processo educacional, tanto para o professor ajustar sua ação quanto para o aluno orientar suas aprendizagens, e deve acontecer ao longo do tempo, não apenas em provas pontuais.

Muitas vezes, ainda que aconteça de forma processual, a avaliação é vivida pelos estudantes como uma situação difícil e passível de julgamentos. Se o estudante vai bem, é porque estudou, é comportado e a família o apoia, se vai mal, é porque tem dificuldades, não presta atenção e a família não o apoia. Para fugir dessa rede assustadora, muitas vezes, os estudantes assumem uma postura do tipo “Não estou nem aí” ou “Eu não consigo mesmo”. De outro modo, os professores também podem ser julgados pelos estudantes e pelas famílias.

Para os familiares, também é difícil: ou “Meu filho foi muito mal porque tem problemas, não estudou, não prestou atenção”, ou “A professora está perseguindo meu filho e sendo injusta”.
Assim, é criado um campo de tensão que gera culpabilização e crise de autoridade, podendo levar a situações de desrespeito.

Os conteúdos

Outra marca do EF é a presença de conteúdos que são apresentados de forma mais sistemática e organizados de um modo diferente do que acontecia nos anos da Educação Infantil, levando os estudantes a construir uma nova postura, o que nem sempre acontece de maneira tranquila.
Como alterar essa situação? Os ciclos de aprendizagem servem justamente para rever a organização das práticas pedagógicas e dos tempos de aprendizagem para que os estudantes possam seguir seu próprio percurso nos processos de aprendizagem.

A discussão atual na Rede Municipal de Ensino de São Paulo sobre reorganização curricular é um momento importante para rever critérios de seleção de conteúdos escolares pela sua relevância na formação dos estudantes.
O ensino e a aprendizagem dos conteúdos, a avaliação, o livro didático, as lições de casa, entre outros aspectos, permeiam as relações escolares, em especial as relações entre estudantes, professores, familiares e responsáveis, e podem gerar situações conflituosas na comunidade escolar.

É preciso considerar as diferenças

Não podemos deixar de considerar e respeitar a individualidade e as características de cada uma das crianças. Num mesmo espaço (que pode ser a sala de aula ou não), é possível encontrar crianças que, embora tenham a mesma idade, não realizam as mesmas conquistas ao mesmo tempo. É verdade também que a interação entre elas cumpre um papel determinante para que avancem nas aprendizagens.

Viver em um ambiente permeado pela diversidade (de idade, competência escolar, condição social, orientação sexual, cultura, origem, religião, déficit intelectual ou qualquer outro tipo de deficiência), compartilhando o mesmo espaço, as mesmas regras de convivência e os mesmos objetivos, é fator determinante para que, desde cedo, as crianças construam, com base nas situações do dia a dia, uma postura de respeito ao outro e de se fazer respeitar na igualdade de serem todos humanos.

Convivência em muitos espaços

Com idade entre 6 e 14 anos, os alunos do Ensino Fundamental têm independência para transitar pela escola, permanecendo longe dos olhos dos educadores e vivenciando uma série de situações que nem sempre são acompanhadas ou conhecidas pelos educadores. Para entender o comportamento dos alunos dessa faixa etária, algumas questões são importantes: Como os alunos se relacionam? Como lidam com situações adversas? Como resolvem seus conflitos? O que os diferentes espaços proporcionam ou impedem?

Muitas vezes, são os profissionais da limpeza, da cozinha ou o porteiro que interagem com os alunos em situações muito peculiares, nos corredores, no pátio e no refeitório, escutam discussões, queixas ou até mesmo presenciam brigas e situações de humilhação, cuidando de intervir para resolvê-las. Ao mediar conflitos, acolher e ouvir, esses profissionais ocupam, portanto, o papel de educadores. Contudo, nesse contexto, algumas perguntas se colocam: Eles reconhecem e são reconhecidos nesse papel tão importante? Participam de reflexões e orientações sobre essas questões? Eles têm oportunidade de analisar, junto com os demais educadores, o que ensinam nessas situações?

O cuidado faz parte do Ensino Fundamental

Infelizmente, muitas vezes, a dimensão do “cuidado”, mesmo tendo espaço na Educação Infantil, quase desaparece no Ensino Fundamental. As crianças do Ensino Fundamental, se, por um lado, não precisam mais do apoio do educador para ir ao banheiro ou se alimentar, por outro, necessitam de outros cuidados nem sempre palpáveis, como o acolhimento nos momentos de atrito entre os colegas, a compreensão de suas fragilidades (seja nas aprendizagens, seja nas relações interpessoais), a atenção às situações da sua vida familiar que acabam refletindo em comportamentos na escola. Assim, é preciso lembrar que, mesmo sendo crianças do EF, os alunos do EF ainda estão aprendendo a se colocar no mundo e que precisam da atenção e do cuidado dos adultos.


Bibliografia