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Escola é para todo mundo – Entrevista com Luiza Castro

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Luiza Castro é professora da EMEI Dona Leopoldina e viveu algumas experiências com alunos vindos de outros países. Ela destaca: “(…) as crianças pequenas se reconhecem com mais facilidade e se comunicam muito por meio da brincadeira, que é uma linguagem universal. A comunicação mais difícil de estabelecer, a meu ver, é da criança com o adulto que não fala a língua dela“.

Confira aqui o depoimento na íntegra.

Respeitar é Preciso!: O Brasil tem sido o país de destino de imigrantes e refugiados, vindos de diversos países. Como essa diversidade se manifesta na escola e na sala de aula?

 Luiza Castro: Manifesta-se no colorido da escola pública, na diversidade que percebemos apenas ao observar as turmas. É gente de todo tipo! A diversidade de culturas está presente não apenas na escola, e não necessariamente a diferença de origem (país) é maior do que a que observamos entre os próprios alunos brasileiros. Acho que essa questão se manifesta pela oportunidade de os imigrantes conviverem com as nossas culturas e de as crianças não imigrantes conviverem com diferenças específicas, como a língua, os modos de vida, os interesses, os costumes etc.

Respeitar é Preciso!: Recepcionar alunos imigrantes e integrá-los ao ambiente escolar tem sido um desafio para a equipe pedagógica? Em quais aspectos?

 Luiza Castro: Sim, sobretudo pelo idioma. As crianças “estranham” logo que conhecem os alunos, mas, como são pequenas, logo conseguem compreender a fala deles. Para nós, professores, acredito que seja importante encorajar esses alunos a lançar mão de suas próprias estratégias de comunicação e se sentirem seguros para falar. Na verdade, o grupo inteiro tem aí uma oportunidade de aprender muito e enriquecer-se, não só no que diz respeito à língua, mas também no que se relaciona à cultura, aos costumes etc.

Respeitar é Preciso!: Em relação aos demais alunos, como tem sido a integração com aqueles que chegam de outros países? Existem trabalhos ou projetos relacionados a isso? Esse trabalho se torna mais fácil ou mais difícil de acordo com a idade e o segmento escolar das crianças?

 Luiza Castro: Na Educação Infantil, acredito que seja um pouco mais simples, pois as crianças pequenas se reconhecem com mais facilidade e se comunicam muito por meio da brincadeira, que é uma linguagem universal. A comunicação mais difícil de estabelecer, a meu ver, é da criança com o adulto que não fala a língua dela. Acredito que o trabalho mais importante para essa questão seja olhar, reconhecer e valorizar a diversidade, como um projeto da escola. A diversidade está presente de forma natural não apenas em cada ser humano que frequenta a escola, mas também nos livros, nos brinquedos, nas referências musicais, estéticas. Quando ampliamos nossas referências para além do que é mais comum (apenas referências brancas, europeias, por exemplo), a escola torna-se um local que acolhe diariamente as diferenças, e isso inclui o aluno imigrante e sua cultura.

Respeitar é Preciso!: Como é o relacionamento das famílias com os demais membros da comunidade escolar? A diferença de idioma traz alguma dificuldade ou desafio maior?

 Luiza Castro: A língua pode se tornar uma barreira inicial para as crianças, mas, como já disse, vejo que aprendem muito rápido o português. Com os adultos da família, a barreira da cultura e da língua é maior. Muitas vezes, dificulta a comunicação e a participação da família na escola. É uma questão bem prática, para a qual ainda não encontramos solução. Já presenciei mães imigrantes em reunião de pais não compreenderem o que era falado. Elas estavam presentes na vida escolar dos filhos, mas havia essa barreira. E os próprios filhos eram os tradutores.

Respeitar é Preciso!: Quais os benefícios e aprendizados que um ambiente multicultural, com alunos de diferentes nacionalidades, pode gerar para as crianças que frequentam a escola?

 Luiza Castro: Muitos, para todos. Muitas vezes, o contexto em que as crianças vivem não traz esse aspecto multicultural. Então, é na escola que elas poderão ampliar essa convivência, e, consequentemente, a diversidade será algo natural, e não algo “exótico” ou diferente do restante. Esperamos que, assim, possam se tornar pessoas mais tolerantes.

Respeitar é Preciso!: Como são tratados o preconceito e a discriminação que podem atingir as crianças migrantes? É possível que, por causa desses fatores, algumas crianças deixem de frequentar a escola?

 Luiza Castro: Acredito que essas questões devem ser tratadas no dia a dia, reconhecendo e valorizando esse ambiente multicultural da escola pública. É muito importante contar com referências concretas e múltiplas no ambiente da escola, sobre cores de pele, modos de vida, crenças, costumes, narrativas, países de origem etc. Quando surgem comentários que podem parecer preconceituosos, muitas vezes sem nenhuma intenção das crianças, ou quando excluem o colega de situações como brincadeiras e jogos, por exemplo, por conta de alguma diferença específica, buscamos sempre olhar para isso e trabalhar com foco na diversidade entre todos. Comumente, questões assim acabam invisíveis, naturalizadas, e isso não pode acontecer.

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