Educação em Direitos Humanos na Educação Infantil
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PARA CRESCER, PRECISA HAVER CONFLITO: CONFLITOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Por Maria Paula V. Zurawski (educadora/Vlado Educação)

 

 

Para começo de conversa

Antes de tudo, vamos lembrar que, atualmente, é possível encontrar orientações para que se observe e respeite os Direitos Humanos na Educação Infantil em todos os documentos oficiais, diretrizes e orientações curriculares dos últimos anos. Exemplo disso é o documento “Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças”, do MEC/SEB, de 1998 (disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/direitosfundamentais.pdf). Mais recentes, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (2010) afirmam os objetivos da Educação Infantil de garantir o direito das crianças:

  • ao acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de saberes e conhecimentos;
  • à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outros meninos e meninas.

A concepção de educação de crianças explicitada nas DCNEI rompe, assim, com dois modos de educação: o assistencialista e o escolarizante, que durante muito tempo predominaram em creches e escolas brasileiras.

A Base Nacional Curricular Comum para a Educação Infantil (BNCC-EI), ainda em discussão para a elaboração de uma versão final, sublinha as concepções de criança e do currículo já expressas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCN-EI) e está organizada em torno do compromisso de garantir cinco direitos básicos das crianças: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e se conhecer. A organização curricular com base nos direitos das crianças é um grande passo para reconhecê-las, não como objeto, mas como sujeito, e sujeito de direitos. Assim, vimos assistindo nos últimos anos a uma mudança na concepção de educação, do papel da Educação Infantil e das representações das crianças pequenas na sociedade.

Não podemos nos esquecer de que a criança é, simultaneamente, um sujeito que necessita e tem direito à proteção e que necessita e tem direito à educação. Nos CEI e nas EMEIs, é preciso que suas educadoras e seus educadores reconheçam a situação de desigualdade das crianças diante dos adultos, mais poderosos em seus papéis sociais, e que, por isso mesmo, e por terem escolhido ser educadoras e educadores, devem protegê-las e procurar sempre defender seus direitos.

Esta reflexão – sobre poder, proteção, educação e direitos – deve estar sempre presente em seu modo de estar com as crianças.

 

Conflitos na Educação Infantil

E por falar em representações, há quem tenha, ainda hoje, uma ideia das crianças como seres puros, inocentes, seres que são só “fofura” e bondade. É essa a representação de criança que surge frequentemente na mídia, nas campanhas beneficentes veiculadas na televisão, nas novelas, nas propagandas. Além de outros estereótipos: a criança “ideal” é na maior parte das vezes branca, tem uma família “estruturada”, dorme cedo, e por aí vai… Qualquer criança que fuja desse estereótipo pode ser rapidamente classificada como complicada ou problemática, levando-nos logo a nos perguntar sobre a causa dos seus problemas. Mas nós, educadoras e educadores, sabemos que não é bem assim. Ao olhar para as crianças como sujeitos, reconhecemos que elas pensam, têm desejos, observam o mundo e as relações entre as pessoas, constroem hipóteses e conhecimentos sobre o que as cerca. Agem e reagem. E, por isso, vivem conflitos e entram em conflito. Henri Wallon (1995) nos convida a valorizar os conflitos entre as crianças, e mesmo entre crianças e suas professoras e seus professores como situações que não devem ser evitadas, mas encaradas e reconhecidas como potencialmente promotoras de boas oportunidades para exercitar a alteridade, colocar-se no lugar do outro, aprender a viver em grupo. Viver é conflito. Descobrir o outro é conflito. Na Educação Infantil, situações como descobrir que os brinquedos da escola não são apenas seus, mas de todos, e que devem ser compartilhados, podem trazer e gerar conflitos para as crianças pequenas. Um dos papéis das professoras e dos professores de Educação Infantil é saber utilizar essas situações para promover aprendizagens para as crianças, e não fugir delas.

Mas e a violência?

Sabemos que, por meio de suas brincadeiras, as crianças muitas vezes querem compreender algo ou nos mostrar algo. Quando a violência é tema de seus jogos, é importante observá-los. Vivemos num mundo violento, de relações pouco cordiais, de desconfiança e onde o medo está presente. Assim, a violência está na pauta das crianças.  E, se as relações violentas, o medo ou a preocupação com a violência forem predominantes para as crianças, certamente surgirão em seus jogos e em suas brincadeiras.

Antes de nos indignarmos, nos assustarmos ou mesmo culparmos as famílias porque as crianças nos parecem violentas, é importante lembrar que, antes de qualquer coisa, elas são crianças. Diante de nós, precisam de um olhar cuidadoso, de proteção e de opções para  escapar de um círculo vicioso que muitas vezes se fecha em torno delas quando ainda são muito jovens.

Quando, para uma criança, o mundo é tão restrito que o que lhe resta é apenas a reprodução frequente de atitudes ou temas violentos em suas brincadeiras, podemos nos perguntar: O que fazer para ampliar as possibilidades simbólicas das crianças? O que a escola pode fazer? Longe de ser responsabilidade exclusiva da escola resolver todos os problemas das crianças, é certamente papel da escola – também colocado nas DCN-EI, nas orientações curriculares, e em outros documentos normativos – ampliar as possibilidades das crianças de compreender e de se relacionar simbolicamente com o mundo. Saber como fazer isso é um aspecto importante da profissionalidade da educadora e do educador infantil, e deve estar presente nos currículos de sua formação inicial e em sua formação continuada.

Por exemplo: ao ampliar o universo de histórias, lendas, mitos e canções que contamos e lemos para as crianças, é possível mostrar a elas que a violência, a injustiça e a maldade podem existir, mas também há a possibilidade de vencer, de superar, de fortalecer o espírito. Basta pensar na presença da violência e da tristeza, mas também da força e da alegria, na literatura de cordel, na música sertaneja ou nos mitos gregos. As crianças não gostam de uma coisa só. Podem ampliar seus conhecimentos e gostar de várias coisas se pudermos mostrar isso a elas em nossos projetos e planejamentos, para que tantas coisas maravilhosas que há no mundo possam ser por elas acessadas. Por todas as crianças – afinal, é seu direito.

O que é mediar conflitos na Educação Infantil?

Para finalizar: a Mediação de Conflitos na Educação Infantil não ocorre apenas em momentos especiais ou quando a situação está fora do controle. Pelo contrário. Mediar conflitos é algo que se faz todos os dias, já que, nessa faixa etária, as crianças estão justamente construindo sua identidade e aprendendo a conviver em grupo. Pode parecer estranho dizer que devemos investir nos conflitos como possibilidade de as crianças aprenderem sobre si, sobre o outro, sobre o coletivo em vez de evitá-los. Mas investir não significa fomentar conflitos; significa ajudar as crianças, à medida que crescem, a trocar ideias, ouvir e entender os pontos de vista umas das outras e, principalmente, respeitá-los. Significa poder optar por encaminhamentos menos concretos e corporais para seus conflitos, exercitando a escuta e a alteridade em vez de “partir para a briga”. Nós, adultos, podemos não apenas proteger as crianças, mas também ensiná-las a se responsabilizarem pelas decisões que tomam e pelo que fazem umas às outras. Mediar conflitos não é simplesmente fazer com que as crianças “peçam desculpas” ou que  deem “um abraço no amigo” quando o conflito acontece, mas entender o que causou o desacordo, dar espaço para que todos falem, estimular os combinados entre as crianças e ajudá-las a mantê-los.

 

REFERÊNCIAS

CAMPOS, Maria Malta & ROSEMBERG, Fúlvia. Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças. 6. ed. Brasília: MEC-SEB, 2009.

WALLON, Henri. As origens do caráter na criança. Trad. Heloysa Dantas de Souza Pinto. São Paulo: Nova Alexandria, 2005.

 

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