3. ATUAÇÃO NO COTIDIANO DA ESCOLA
 
3. ATUAÇÃO NO COTIDIANO DA ESCOLA

Vista aqui como uma comunidade ampla, permeada por relações de hostilidade e discriminação, a escola deve lançar mão dos seus dispositivos educacionais para não permitir que isso aconteça. Para isso, é importante trabalhar com os alunos e a comunidade escolar o respeito, a diversidade e a justiça, por meio de ações educativas respeitosas, como as discutidas neste projeto.

repeitarepreciso-atuacacao-cotidiana-escolaA formação dos indivíduos tem sua fase mais intensa e profícua nos primeiros anos de vida, quando já deve estar presente a convivência orientada pelo respeito mútuo e geradora de igualdade. Portanto, essas questões são importantes na escola desde o berçário, compondo um processo de atuação contínua, em que a ação do educador cumpre um papel mais importante que a simples exposição de ideias e o discurso. O que buscamos é uma mudança cultural, decorrente de um processo lento e ininterrupto de “ação-reflexão-ação”, que não busca apenas resultados pontuais no ambiente da escola, mas pretende implantar um processo de transformação direcionado aos Direitos Humanos.

A escola ensina valores o tempo todo, mesmo que os professores pensem que não o fazem. Cada gesto e cada decisão são ações educacionais que transmitem valores. Como combater a discriminação étnica expressa pelos alunos se ela está presente nos conteúdos curriculares, nos livros da biblioteca, entre outros espaços educativos? Ainda que sejam muitas e muito diferentes as situações de discriminação que ocorrem no espaço escolar, é possível pensar em algumas formas de intervir no momento em que elas acontecem e elaborar ações, de caráter permanente, que podem contribuir no sentido de evitá-las e de potencializar a formação dos alunos.

Atividades de caráter permanente

É importante que a ideia de que toda discriminação é inaceitável, dentro e fora do ambiente escolar, se torne um valor compartilhado por todos, de forma gradual e pactuada. Isso vai acontecer de forma mais efetiva se os alunos puderem contar com o modelo dos adultos no dia a dia da escola, e não apenas com o discurso.

Quanto mais frequentes forem as situações de discriminação, maior será o espaço que o tema deverá ocupar na rotina da escola, em diferentes momentos e espaços, não se limitando apenas à abordagem de situações pontuais nem de caráter punitivo. Notícias de jornal, ocorrências divulgadas pela mídia e comentários sobre situações recentes no entorno da escola contribuem para que a discussão sobre a discriminação e o preconceito se mantenha na “ordem do dia”, evitando que venham à tona apenas quando a escola enfrenta problemas.

Trata-se de valores a serem construídos, e não de regras de etiqueta para determinadas situações. Discussões, tematizações e esclarecimentos devem acontecer como parte da formação ética de todos, pois fazem mais sentido e contribuem de forma mais efetiva na formação dos alunos se a atuação dos educadores no dia a dia corresponder às ideias divulgadas.

A forma de lidar com as situações cotidianas de discriminação, bem como a indignação dirigida a elas, será um modelo para crianças e adolescentes, sempre atentos à coerência entre o discurso e as atitudes dos adultos. Da mesma forma, o tratamento que os adultos dispensam àqueles que, por qualquer motivo (gênero, orientação sexual, deficiência, condição étnico-racial, idade, origem, condição socioeconômica, política, religiosa e cultural) são alvo de discriminação, estabelecerá parâmetros para a atuação dos alunos. Assim, é fundamental que os adultos dispensem a todos (sem exceção) o mesmo tipo de tratamento, reconhecendo os mesmos direitos para todos, oferecendo àqueles que mais precisam as condições necessárias para alcançá-los (o que não significa privilegiá-los, mas, sim, o exercício da equidade) e permanecendo atentos às situações que merecem intervenções mais efetivas.

Discriminação silenciosa

Muitas vezes, a discriminação acontece de forma “silenciosa”. Mesmo assim, seus reflexos podem ser percebidos tanto na sala de aula quanto nos corredores da escola. Acolher e conversar com os alunos que sofrem a discriminação, sem solicitar a ajuda dos adultos, pode ser um primeiro passo, assim como fazer o papel de “ponte” entre ele e seus colegas, inserindo-o nas brincadeiras, nas rodinhas de conversa e nos movimentos do grêmio estudantil, criando situações de trabalho em equipe na classe ou organizando duplas de trabalho.

Num primeiro momento, a mediação do adulto pode ajudar. Contudo, não é produtivo contar com esse apoio sempre. O mais aconselhável é que, aos poucos, o aluno se fortaleça, descobrindo suas potencialidades nas situações de interação. Nesses casos, é preciso que o adulto incentive que o aluno siga sozinho. Prestar a esse aluno um atendimento superprotetor, seja por ter vivido recentemente situações de discriminação ou por apresentar alguma deficiência, pode imprimir nele o estigma da incapacidade, comprometendo sua vida escolar, além de despertar no grupo um sentimento forte de ciúme. Um aluno que sai sempre em busca de ajuda do adulto, fragiliza-se diante do grupo, tornando-se alvo ainda mais constante de ofensas. Dessa forma, ele corre o risco de ocupar esse lugar na classe para sempre. Contribuir com o fortalecimento desses alunos não significa deixá-los à própria sorte, e, sim, ajudá-los a perceber seus direitos e experimentar gradativa autonomia.

Intervenções que coloquem em destaque as competências dessas crianças e desses adolescentes dentro e fora da sala de aula podem contribuir de modo significativo para evitar que sejam estigmatizados. Nesse sentido, o professor pode convidar esse aluno a apoiar um colega que apresenta dificuldades em determinado assunto, solicitar e considerar as opiniões dele nas discussões coletivas.

Discriminação explícita

Contudo, algumas situações de discriminação acabam se manifestando de forma agressiva, por meio de ofensas, do isolamento por parte do grupo e até de agressões físicas, exigindo dos educadores uma atuação mais direta e pontual. Uma vez que cumpre, em vários momentos, o papel de mediador e promotor do diálogo, a atuação do professor diante de situações de discriminação não deve ser diferente. Assim, um bom começo pode ser identificar a situação e dar voz às duas partes, sem julgar nenhuma delas, mediando um diálogo entre discriminador e discriminado. Nesse momento, é essencial que ambos possam se colocar, um diante do outro, explicitando como se sentiram e expressando seus desconfortos sem a censura do adulto.

Ainda que se faça necessária uma conversa mais direcionada com apenas uma das partes, é importante garantir esse momento juntos. Estar ao lado do aluno que sofreu discriminação nas situações de mediação não significa falar por ele nem representá-lo na discussão. Ele deve ser encorajado a se colocar, contando como apoio do professor apenas nos momentos em que se sentir ameaçado.

O educador pode e deve mostrar sua indignação. No entanto, por mais que a situação de discriminação seja inaceitável, é fundamental considerar que esse é um momento de diálogo e que a fala do colega que foi discriminado pode causar, nessa hora, um impacto mais transformador que o discurso do adulto. Com esse tipo de mediação, a indignação vai ganhando espaço nos grupos.

Por fim, sempre é possível e essencial dar a todos a oportunidade de reverter essas e outras situações. Assim, pode-se sugerir que, depois da conversa, os alunos (discriminador e discriminado) façam uma atividade juntos. Isso pode ajudar bastante os dois, proporcionando momentos de descoberta e valorização das potencialidades de ambos (sempre mais relevantes que as características que os diferenciam).

Sugestão de atividades

Atividades específicas para a Educação Infantil

Na Educação Infantil, a questão da discriminação deve ser tratada com especial atenção, já que é no CEI e na EMEI que as crianças viverão suas primeiras experiências em grupo. É muito importante que a equipe de educadores se empenhe em construir um ambiente de respeito e de valorização das diferenças entre as crianças. Afinal, conviver num ambiente em que o respeito e atitudes contra a discriminação são de fato vivenciados e observados é a melhor forma de educar as crianças, proporcionando a elas uma experiência diferente daquela que, muitas vezes, encontrarão fora da escola. Isso é a Educação em Direitos Humanos.

Conviver de verdade num grupo em que as características físicas de todas as crianças (cor de pele, cabelos, peso etc.) são valorizadas, e não representam motivo de segregação, ouvir histórias e participar de projetos que apresentem a cultura, as narrativas e a poesia de diferentes grupos étnicos, povos e países também são formas de estender os horizontes culturais das crianças e de ensiná-las atitudes de interesse e cuidado para com o outro.

O interesse e o movimento das crianças pequenas na direção do outro são evidentes e muito peculiares nessa faixa etária. Os bebês, por exemplo, se dirigem aos adultos e às outras crianças por inteiro, querem tocá-los, experimentá-los, conhecê-los com os olhos e com as mãos.

Na Educação Infantil, a abertura para os demais é marcada pela afetividade e pelas emoções, pelo predomínio do gesto e da expressão. Tendo isso em vista, é possível valorizar e estimular o interesse entre as crianças, organizando situações em que elas brinquem juntas e variando os agrupamentos dentro da sala, mas respeitando suas preferências e a possibilidade de fazer amizades.

No caderno Respeito na Escola: Orientações Gerais do Projeto Respeitar é Preciso!, há sugestões de atividades para a Educação Infantil que têm como foco a valorização das diferenças e a construção de atitudes não discriminatórias com os grupos de crianças.

Atividades para o Ensino Fundamental

repeitarepreciso-atividades-ensino-fundamentalA atitude do professor para com seus alunos é uma fonte de inspiração, na medida em que pode ensiná-los muito sobre cuidado, justiça e responsabilidade. Portanto, diante das crianças, os educadores devem sempre buscar ser coerentes, ouvi-las atentamente em casos de conflito e pedir suas opiniões nos casos em que for preciso encontrar soluções para os problemas do grupo. Do mesmo modo, devem explicar o significado das palavras desconhecidas e ideias novas sempre que necessário.

Os educadores não devem deixar de informar, contextualizar ou aproveitar os eventos locais e as notícias da mídia para discutir com os alunos. O clima de antagonismo na época das eleições, as brigas envolvendo torcedores, a discriminação contra pessoas ou grupos, a violência contra crianças noticiadas pela mídia interessam e muitas vezes angustiam as crianças, cujos sentimentos podem ser contemplados quando se conversa sobre esses fatos. Nesse sentido, é interessante comentar com os alunos sobre as conquistas, as resoluções, as medidas para a proteção e até mesmo as sanções impostas pela sociedade quando há violação de Direitos Humanos. Também no Ensino Fundamental, em função da crescente capacidade de compreensão e argumentação, os próprios conteúdos curriculares abrem ricas possibilidades de debates sobre preconceitos, discriminação e repeitarepreciso-atividades-ensino-fundamental-criançasinjustiça. (Ver caderno Respeito na Escola: Orientações Gerais.)

Ideias que podem contribuir para a reflexão dos educadores 

Educar para a não discriminação é uma tarefa que demanda sensibilidade. Assim, atividades reflexivas sobre o tema são importantes também entre os adultos.

O que já sentiu ou viu

Em algum momento da vida, todo mundo já presenciou ou viveu alguma situação de discriminação. Uma boa maneira de iniciar uma reflexão sobre esse assunto é compartilhar com os colegas, relatando e comentando situações vivenciadas.

Nesse exercício, é interessante lembrar coletivamente as situações de discriminação presenciadas ao longo da vida escolar, dando destaque às intervenções dos adultos que mediaram a situação e aos sentimentos que surgiram no momento. Esses momentos revelam a todos como e há quanto tempo a discriminação está presente nas escolas, contribuindo também para a busca de estratégias e encaminhamentos que podem se mostrar potentes para o respeito à diversidade. Esse é um tema bastante complexo e delicado. Assim, a reflexão, o trabalho coletivo, a escuta e a possibilidade de expor dúvidas e desconfortos são essenciais para o sucesso da empreitada a que se propõe a prática da Educação em Direitos Humanos.

O assunto sempre em pauta

Aos poucos, as situações vividas na escola, passam a ocupar um espaço importante nas conversas, sendo tematizadas e levando ao grupo a possibilidade de construir um repertório de experiências, que, registradas de alguma forma, podem oferecer subsídios para situações que envolvem intervenções ou tomadas de decisão. Trata-se de um material precioso, que pode ser feito virtualmente, num documento compartilhado com todos os interessados.

A manutenção das conversas, bem como a construção desse material de autoria coletiva, dependerá da determinação de um tempo para que os grupos se dediquem a essa questão, com certa regularidade, ainda que se inicie com 15 minutos ou aconteça no fim de reuniões pedagógicas, para socializar situações recém-vivenciadas e ouvir sugestões dos colegas. Levar para a apreciação coletiva artigos de jornais, livros, sites e biografias que abordam essas situações também contribui com o processo, sustentando a discussão.

O mural da escola também pode prestar grande ajuda se apresentar pelo menos uma notícia ou nota que aborde situações ou temas relacionados à discriminação. A sala dos professores, ou os outros espaços de grande circulação de adultos, pode ter um “cantinho”, ou um pequeno caderno, ao qual toda a comunidade de adultos tem acesso e no qual podem ser registrados casos de sucesso, “pedidos de socorro”, desfechos de casos que foram expostos etc. O importante é que o tema da discriminação esteja presente na vida da escola e que seja “encarado de frente” pelos educadores.

Experimentando a discriminação

A proposta apresentada a seguir é a simulação de uma situação que envolve pessoas num contexto de discriminação. Nessa atividade, os participantes precisam se colocar no lugar do outro, seja ele o discriminado ou o que discrimina, buscando entender o que provoca atitudes desrespeitosas e qual o sentimento de quem é desrespeitado.

A sugestão é que os educadores desempenhem o papel de pessoas sujeitas à discriminação, aqui representadas por aqueles que têm algum tipo de deficiência física. Esse modelo de atividade pode ser utilizado em outros contextos ou outras situações de discriminação para sensibilizar e promover uma reflexão sobre o tema.

 Atividades

repeitarepreciso-atividades-discriminacao1. Esta é uma dinâmica que pode ser realizada durante um encontro do Projeto Respeitar é Preciso!, devendo ser encaminhada logo antes do intervalo ou café. Os dinamizadores do encontro solicitam que todos se organizem em duplas.

2. Os dinamizadores passam pelas duplas atribuindo os papéis de “pessoa com deficiência” ou “ajudante/acompanhante” para cada um dos componentes. Assim, um deles estará vivendo uma situação parecida com a de uma pessoa com deficiência, e o outro fará o papel de quem presta ajuda a ele.

3. Então, o organizador distribui vendas para os olhos, barbantes para amarrar as mãos uma à outra, impedindo os movimentos, e fita adesiva para que os pés sejam presos um ao outro. Dessa forma, cada dupla tem um integrante vivenciando uma deficiência física e outro como o acompanhante.

4. Depois dessa preparação, as duplas tomam o lanche oferecido no intervalo.

5. Após o intervalo, o grupo pode compartilhar suas experiências e sensações, tendo sempre como foco as dificuldades, a sensação dos olhares em volta, a comunicação com as pessoas ao redor e a atuação do ajudante. Em seguida, todos são convidados a estender a reflexão, considerando os outros que também são foco de discriminação.

BIBLIOGRAFIA