4. ATIVIDADES SUGERIDAS
 
4. ATIVIDADES SUGERIDAS

A rigor, não existem “atividades para formar sujeitos de direito”. Como já exposto, isso acontece no contexto das relações, na vivência dos princípios de valor dos Direitos Humanos. Portanto, é no cotidiano do convívio escolar que se pode favorecer essa formação, por meio das atitudes que se toma, do estabelecimento de respeito entre todos, da escolha de conteúdos e da metodologia de ensino que se adota nas diferentes áreas de conhecimento, da condução das situações de conflito e de transgressão. Assim, se forem realizadas com essa preocupação, todas as atividades podem contribuir.

repeitarepreciso-atividades-sugeridasEntretanto, considerando ainda que a formação dos sujeitos de direito não se dá nem pela doutrinação, nem pelo mero acesso à informação fora do contexto de vida dos sujeitos, é possível criar momentos especialmente dedicados a favorecê-la por meio de atividades. É nesse sentido que as atividades a seguir têm como proposta criar situações em que as pessoas coloquem para si alguns temas e se coloquem diante umas das outras, articulando experiência e reflexão. São exemplos e possibilidades apresentados aqui como referência para a criação de outras e novas atividades.

Com adaptações, todas essas atividades podem ser feitas com adultos, crianças e adolescentes. A ideia é desenvolvê-las em diferentes momentos e pelos diferentes educadores que compõem a comunidade escolar. As atividades propostas aqui têm como principais objetivos possibilitar aos participantes:

  • levantar/identificar temas relacionados à sua vida pública;
  • provocar um movimento reflexivo sobre um tema com base em sua própria realidade e experiência, elaborando seu lugar de sujeito;
  • colocar-se (corpo, afetos, reflexões) diante do outro, exercitando o embate com o diferente;
  • atuar na esfera pública.

repeitarepreciso-roda-conversa-temáticaRoda de conversa temática

Esta atividade tem como objetivo criar situações para que os participantes relacionem os temas tratados neste caderno com a sua experiência de vida e, ao compartilhar suas experiências, possam reconhecer uns aos outros, aprofundando a reflexão.

É uma atividade clássica da educação em valores que consiste em tomar uma experiência comum da vida dos participantes como objeto de reflexão, criando uma situação em que os participantes podem exercer autonomia de pensamento, o que, como já exposto, é necessário ao “sujeito de direito”. É importante ressaltar que não se trata de julgar um caso acontecido, mas, sim, possibilitar uma reflexão por meio da qual os participantes ampliem sua visão sobre a questão, percebendo as inúmeras nuances do que está em jogo, as diferentes possibilidades e pontos de vista para compreendê-la.

Esse é um exercício colaborativo, em que a cooperação acontece no âmbito da reflexão sobre o tema. À medida que as experiências vão sendo compartilhadas e vão se acumulando questões para pensar sobre cada tema, gera-se terreno fértil para provocar, em médio prazo, mudanças nas maneiras de cada um pensar e se colocar na vida diante do outro e do tema apresentado. A reflexão final aponta para esse caminho.

Sugestões de temas:

  • Punir para quê?
  • Brigas entre amigos.
  • Quando me sinto injustiçado, _______.
  • Ontem, me senti menos humano, porque _______.
  • Não consigo falar quando sinto _______.
  • Eu gostaria de agradecer por _______.

repeitarepreciso-roda-conversa-temática

Apresentamos aqui alguns passos para iniciar e conduzir a atividade:

  • Escolher ou sortear um dos temas sugeridos e pedir a cada participante para pensar e compartilhar uma experiência de vida relacionada ao tema. À medida que o compartilhamento acontecer uma pessoa pode ir identificando e anotando os pontos que estão sendo trazidos e que podem contribuir para uma reflexão coletiva sobre o tema que permita pensar formas de atuar conforme aos princípios dos Direitos Humanos. O objetivo dessas anotações é apenas tornar visível o que foi dito.
  • Com base nesse compartilhamento e nas anotações feitas, pode-se abrir a palavra para uma reflexão coletiva, tomando como ponto de partida os princípios dos Direitos Humanos.

Ao final da atividade, pedir a todos que pensem se a reflexão feita provocou alguma questão sobre a forma como gostariam de atuar e se colocar no mundo, coletiva e individualmente, dali em diante em relação ao tema.

É muito importante que, durante a conversa, todos os participantes tenham oportunidade de se colocar e que todos os pontos de vista sejam respeitados pelo grupo.

Esta atividade pode ser realizada com participantes de todas as idades (desde a Educação Infantil até o grupo de educadores) e em diferentes situações (da reunião de pais à sala de aula).

Encenando o desrespeito aos Direitos Humanos

A proposta desta atividade é que os participantes encenem situações em que tenham vivenciado o desrespeito aos seus direitos. Parte-se da encenação de uma situação real de opressão com a troca de experiências entre atores e espectadores, que intervêm na cena para, juntos, encontrar meios de transformar a situação de opressão vivida.

O ato de se colocar corporalmente numa dramatização costuma provocar um contato mais efetivo com os sentimentos envolvidos e enriquecer a discussão.

Algumas sugestões de situações para encenação:

  • situação em que você foi tratado igual a outros e, com isso, se sentiu injustiçado;
  • situação em que você foi tratado desigualmente e se sentiu injustiçado;
  • situação em que você se sentiu injustiçado por causa de uma punição.

Apresentamos aqui alguns passos para iniciar e conduzir a atividade:

  • Os participantes em grupos pequenos devem pensar numa situação em que vivenciou o desrespeito aos seus direitos, conforme as sugestões indicadas anteriormente.
  • Com base nos relatos, o grupo escolhe uma situação para dramatizar em três cenas: o contexto da situação; a situação (diálogo ou ação) em que teve seus direitos desrespeitados; o que aconteceu depois.
  • Todos os grupos se apresentam.
  • Os participantes escolhem uma das situações encenadas pelos grupos para repetir a encenação e nela interferir.

A encenação recomeça, e depois da apresentação do contexto da situação, qualquer participante da plateia pode pedir para parar a encenação e sugerir outro andamento à situação problema que seja melhor para que o respeito prevaleça. Nesse momento, toma o papel, para si e entra na cena para atuar segundo o que acha que fará diferença, dando outro desfecho à situação. E assim vai, até o grupo encontrar uma forma satisfatória para todos.

A interferência só faz sentido se for trocado o ator que faz o papel daquele que teve seus direitos desrespeitados. A cada nova versão da encenação, todos compartilham impressões e discutem a intervenção.

Dilemas éticos

Um bom dilema ético é difícil de resolver e toca em assuntos sérios para as pessoas que o estão discutindo. Os dilemas éticos são situações de impasse em que um protagonista precisa decidir que atitude tomar com base numa reflexão sobre os valores dos Direitos Humanos. Essa também é uma atividade clássica do ensino de valores, na perspectiva de promover a autonomia de pensamento. Não se trata de escolher entre o certo e o errado, entre o bom e o ruim, o que não seria um dilema. O fato de se precisar fazer uma escolha entre questões (direitos, valores, leis) equivalentes coloca a necessidade de pensar sobre quais são os princípios que estão em jogo.

Apresentamos aqui alguns passos para iniciar e conduzir a atividade:

  • Criar uma história breve que estabeleça um conflito de direitos cuja solução seja difícil, obrigando o grupo a refletir sobre princípios para determinar as opções de ação. O dilema precisa estar bem claro.
  • Em grupo, o dilema colocado é discutido coletivamente, cada um dizendo como se colocaria na situação, quais as questões que consideraria e que ação tomaria. Podem se explicitar discordâncias e se chegar, coletivamente, a uma proposta de ação comum, sem que necessariamente todos concordarem com as razões de todos. É importante ter claro que podem existir várias maneiras de lidar com a situação.

BIBLIOGRAFIA