4. INTERVENÇÕES NO COTIDIANO
 
4. INTERVENÇÕES NO COTIDIANO

A escola da Educação Básica tem como função a educação de crianças e adolescentes, o que vai além de garantir a aprendizagem de conteúdos curriculares, pois inclui valores e atitudes. Uma das mais importantes funções do educador é investir em conhecimentos e na formação de valores, paralelamente às disciplinas exigidas para a formação acadêmica, elegendo conteúdos ou situações didáticas que exemplifiquem e possibilitem o debate sobre opressão e violência.

É inquestionável o caráter inaceitável de toda e qualquer situação de humilhação na escola, e esse princípio deve ser colocado para as crianças de forma clara, desde os primeiros anos de vida escolar, por meio das atitudes e, sobretudo, da indignação dos educadores.

A discussão e o diálogo são boas estratégias de ensino nesses casos, assim como a retomada de situações vivenciadas na escola. A frequência dessas ocorrências no espaço escolar é uma medida que apontará a pertinência das intervenções realizadas e a necessidade de estendê-las ao longo do tempo.

Na verdade, qualquer característica, forma de ser e estar ou qualquer ação presente em alguma situação social pode surgir como motivo para um ato de humilhação. O sujeito agente da humilhação tem a sensação de que se fortalece, à medida que, de alguma forma, coloca o humilhado em situação de submissão diante do coletivo em que estão inseridos. A humilhação não se concretiza apenas na exposição perante um grupo, ela pode acontecer até mesmo no âmbito do privado. Isso costuma acontecer entre adultos, entre crianças e entre adultos e crianças. O resultado de uma situação de humilhaçãorespeitarepreciso-ilustracao6 sistemática é a instituição, no grupo, de “polos de força”, representados, de um lado, por quem sofre a humilhação e se sente rejeitado e, de outro, pelos que humilham numa espécie de “encantamento pela superioridade”. Na realidade, o indivíduo que humilha também carrega algum tipo de vulnerabilidade, que o leva a agir dessa forma.

Assim, merece especial atenção dos educadores o tratamento dispensado a alguns episódios de humilhação considerados corriqueiros e naturais. Muitas vezes, essas situações são incorporadas à prática cotidiana escolar, contribuindo para a sua banalização ou legitimação como mecanismo de resolução de conflitos. Falas como “Isso sempre foi assim”, “Não podemos fazer nada” ou “Isso vem de casa”, que surgem com muita frequência, vindas tanto das crianças e dos adolescentes quanto de adultos, podem colocar em risco todo o trabalho de formação e valorização da dignidade humana do qual os educadores são imbuídos. Antes de tudo, é preciso formar os alunos com a ideia de que nenhum tipo de humilhação é aceitável e que toda situação pode e deve ser transformada.

Existem muitas crianças que não se sentem à vontade nem “autorizadas”, por assim dizer, a explicitar seu incômodo para os adultos quando são submetidas a situações humilhantes pelos colegas, recolhendo-se, muitas vezes, de forma silenciosa e distante do olhar daqueles que podem vir em seu socorro. Nesses casos, faz-se necessária uma atenção especial àquelas que, de modo bastante sutil, sinalizam seu sofrimento, não se mostrando à vontade entre os colegas, isolando-se e calando-se. Às vezes, uma conversa reservada é o bastante para que elas consigam pedir a ajuda de um adulto, o que não será possível sem uma aproximação.

Outro papel importante a ser desempenhado pelos adultos é o de mediadores das situações que presenciam e que são trazidas pelos alunos. Ouvir as duas partes pode ser um bom ponto de partida nessas ocasiões. Cada situação é única, e não é possível ter uma regra de como agir, mas um bom caminho é apostar no diálogo e na escuta, levando os próprios alunos a perceber e rever suas atitudes. O educador deve deixar clara sua posição em relação ao que aconteceu, mas sua indignação, embora tenha um impacto educativo bastante positivo, deve estar sempre voltada para uma atitude, e não para o aluno que a colocou em prática.

Outra orientação importante é conversar mais diretamente e de forma reservada com as partes envolvidas em cada situação, evitando expor a discussão para não gerar ainda mais constrangimentos e sofrimento. Na mediação desses acontecimentos, posicionar-se e proteger o aluno que sofreu uma humilhação não significa tomar a sua voz nem representá-lo na discussão. Ele deve contar com o apoio incondicional do educador, sendo sempre encorajado a se colocar, pois é preciso fortalecê-lo, para que não se torne alvo constante de humilhação.

Se, de um lado, é função do adulto se aproximar e proteger o aluno que foi humilhado, de outro, seu afastamento também pode ser bastante fortalecedor, o que não significa deixá-lo à própria sorte, mas, sim, ajudá-lo a perceber suas potencialidades e a se defender com gradativa autonomia. A mediação também deve considerar aqueles que humilharam como sujeitos que merecem compreensão, não no sentido de ser condescendente com suas atitudes, mas para entender os motivos que os levam a isso e intervir para que possam superá-los, pois eles também possuem fragilidades e devem ser escutados e cuidados.

A prática dos educadores no dia a dia, a forma como se comunicam com as crianças e com os outros adultos e a postura que assumem diante das situações apresentadas aqui são fatores determinantes para a formação ética almejada, cumprindo uma função ainda mais importante que as conversas e as discussões, uma vez que as crianças estão sempre muito atentas à coerência entre as atitudes e o discurso proferido pelos adultos.

Atividades com os alunos

Além das fundamentais intervenções em situações que acontecem no convívio na escola, é importante trazer o tema para ser discutido por todos, dentro ou fora da sala de aula, o que pode encorajar os alunos a expressarem seu mal-estar. Isso pode acontecer por meio da leitura de uma notícia de jornal em sala de aula, da exposição de um caso de humilhação que ganhou espaço na mídia e, sobretudo, das ocorrências no entorno da escola. Essas são boas atividades por não se referirem a indivíduos específicos que todos conhecem e com eles têm envolvimentos diversos, mas por possibilitar um olhar mais distanciado e menos contaminado, criando condições de um debate mais profundo e neutro, que ajude a construir os valores que são transferidos para atitudes do dia a dia.

respeitarepreciso-ilustracao7O importante é garantir para os alunos um espaço de conforto e acolhimento para que essas questões possam vir à tona. Trata-se de um processo de construção de atitudes e valores, e não de transmissão de regras de conduta apropriadas.

O currículo também exerce uma função crucial nesse processo, ampliando a compreensão dos alunos em relação ao contexto social em que estão inseridos. Nesse sentido, é possível escolher temas curriculares, nos quais a consideração das necessidades do outro e a indignação com ações de opressão estejam presentes.

As exposições e as discussões acerca de temas que afligem a humanidade em seu cotidiano e suas possíveis repercussões no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes também devem ocupar seu espaço na sala de aula. Abordar no currículo períodos históricos como os anos de regime autoritário e ditadura civil-militar vividos recentemente no Brasil, ressaltando o caráter humilhante das prisões, torturas e violências dirigidas à população, assim como a imposição de leis que configuravam desrespeito aos Direitos Humanos de forma flagrante, como o exílio, a cassação de direitos e de trabalho, a repressão à livre expressão e a nomeação dos governantes por meio de decreto é outro exemplo de abordagem curricular que contribuirá para a formação ética e política dos alunos. A questão da devastação e da expulsão dos indígenas das terras que são suas por direito também configura um exemplo claro de exercício de poder permeado por práticas de humilhação e desrespeito, assim como a escravidão e o patriarcado abusivo.

O valor dessas ações educativas, mais que as informações prestadas aos alunos (que são, sem dúvida, bastante importantes), está na possibilidade de todos se colocarem, sem que sejam julgados, compartilhando e ressignificando suas ideias e suas posições.

respeitarepreciso-ilustracao8Sugestões para a reflexão dos educadores

Em algum momento da vida, todas as pessoas presenciaram ou viveram uma situação em que se sentiram humilhadas. Uma boa maneira de disparar uma conversa ou uma reflexão acerca desse assunto é compartilhá-las com colegas, relatando-as e comentando as que forem apresentadas. Uma vez que todos viveram também uma parte da vida como alunos, seria interessante lembrar coletivamente as humilhações que enfrentaram ou que presenciaram ao longo da vida escolar, dando destaque às intervenções dos adultos que mediaram a situação e aos sentimentos que surgiram no momento. Esses momentos revelam para todos o quanto e há quanto tempo a humilhação está presente nas escolas, contribuindo para a busca de estratégias e encaminhamentos que podem se mostrar potentes. Sendo esse um tema bastante complexo e delicado, a reflexão, o trabalho coletivo, a escuta e a possibilidade de expor dúvidas e desconfortos são condições para a construção de um espaço coletivo em que o respeito permeia as relações de todos.

Aos poucos, as situações vividas recentemente com os alunos na escola passam também a ocupar um espaço importante nas conversas, sendo tematizadas e levando ao grupo a possibilidade de construir um repertório de experiências (bem e malsucedidas), que, registradas de alguma forma, podem se tornar subsídios para situações que envolvem tomadas de decisão. Trata-se de um material precioso, que pode ser feito de forma virtual, em um documento compartilhado com todos os interessados.

A manutenção das conversas, bem como a construção desse material de autoria coletiva, dependerá da determinação de um tempo para que os grupos se dediquem a essa questão, com certa regularidade, ainda que seja de 15 minutos no início ou no fim das reuniões pedagógicas, para socializar situações recém-vivenciadas e ouvir sugestões dos colegas. Levar para a apreciação coletiva artigos de jornais, livros, sites e biografias que abordam essas situações também contribui com o processo, sustentando a discussão.

O mural da escola também pode prestar grande ajuda, se apresentar, pelo menos, uma notícia ou nota que aborde o tema da humilhação. A sala dos professores, ou os outros espaços de grande circulação de adultos, pode conter em um de seus “cantinhos” um pequeno caderno, ao qual toda a comunidade de adultos tem acesso e no qual podem ser registrados casos de sucesso, “pedidos de socorro”, desfechos de casos que foram expostos etc. O importante é que o tema esteja presente na vida da escola e seja “encarado de frente” pelos adultos, o que, inevitavelmente, levará os alunos a assumir uma posição nesse sentido.

Proposta de vivência e dramatização

A dinâmica apresentada aqui tem como objetivo levar os educadores a compartilhar e vivenciar experiências nas quais se sentiram constrangidos na escola quando eram alunos. A ideia é que possam se colocar no lugar de humilhados, de quem precisa humilhar e de expectadores da situação para se aproximarem das questões envolvidas nos atos de violência física, verbal ou gestual que constrange uma pessoa.

  1. Organizados em uma grande roda, os participantes são convidados a compartilhar com o grupo uma situação vivida na escola, na época em que foram alunos, em que se sentiram humilhados. Nenhum participante será obrigado a falar, deixando essa tarefa apenas para aqueles que se sentirem à vontade para isso. Podem também relatar um episódio em que humilharam ou que viram essa situação acontecer com algum colega.
  2. Depois de algumas exposições, o grupo escolhe um dos relatos para dramatizar pelos que se colocarem como voluntários.
  3. Os “atores” farão os papéis de humilhador (um ou mais, a depender da situação escolhida), humilhado e outros que farão o papel daqueles que assistiram o ocorrido. Esse terceiro grupo tem uma função importante: discutir o papel daqueles que, assistindo a uma cena de humilhação, podem se omitir ou tomar uma posição. Todos devem se preparar pensando no que cada um sentiu, como se sentiu, seus motivos. Quanto mais complexa e contraditória for a situação escolhida, melhor.
  4. A cena é dramatizada, contando com a atenção e o respeito dos que assistem.
  5. Depois de encerrada a cena, os participantes voltam a se organizar em uma grande roda, em que discutirão e compartilharão seus sentimentos. É fundamental que os “atores” (inclusive os que atuaram como testemunhas do ato de humilhação) possam se colocar antes de a palavra ser oferecida ao coletivo.
  6. No fim da dinâmica de discussão, ou mesmo ao longo dela, o mobilizador retoma com o grupo a necessidade de considerar o que foi discutido no contexto dos alunos que atualmente têm sido alvo de humilhação, identificando com o grupo principalmente as possibilidades de intervenção do educador.

Observação: A atividade de dramatização é interessante, pois permite aos participantes se colocar no lugar do outro e analisar o fato de vários lados. Muitas vezes, alguém pode humilhar sem consciência, e a mesma atitude pode gerar humilhação ou não, dependendo de como as pessoas se relacionam com a situação. Enfim, é possível abordar o tema com essas variáveis que existem de fato. Há ainda a opção de dramatizar uma situação em que foi vivenciado o respeito. O importante aqui é refletir sobre essa dimensão que está presente na escola, mas nem sempre é vista.

BIBLIOGRAFIA