4. PRÁTICA ESCOLAR DEMOCRÁTICA
 
4. PRÁTICA ESCOLAR DEMOCRÁTICA

O constante exercício da escuta do outro

Em reuniões ou encontros informais na escola, são comuns queixas do tipo: “Ninguém me ouve mesmo. Não adianta falar”. O primeiro passo para atender a essa questão é escutar, ainda que nem sempre as solicitações feitas possam ser, de fato, atendidas da maneira como são trazidas por alunos, familiares, professores e equipe administrativa. A tensão constante entre os desejos e os anseios de grupos numerosos, e nunca homogêneos, faz com que nem sempre todos saiam felizes desses embates e debates por terem suas ideias e seus desejos atendidos a contento. No entanto, o acolhimento e a escuta fazem com que todos se sintam respeitados, favorecendo a disponibilidade para compreender o fato de as razões do coletivo serem colocadas antes de questões individuais. Portanto, a escuta é o mais importante de tudo, pois nada acontece sem ela, é condição para que o debate aconteça e que as ideias avancem.

Formação e participação dos profissionais de apoio

Todos os educadores, incluindo os profissionais de apoio precisam de formação constante: de novos aprendizados e de novas maneiras de pensar sobre velhos problemas. Contudo, não é só isso: muitos e novos desafios surgem todos os dias. Geralmente, a formação de professores é garantida pela Secretaria de Educação e por outras instituições parceiras. Os profissionais de apoio, em especial os terceirizados, ficam à mercê de seus sindicatos, que garantem cursos em áreas específicas, mas que nem sempre vinculam essas áreas à educação. Eles também são educadores e precisam estar atentos para as questões que envolvem suas tarefas e para sua ação educativa. É muito diferente, por exemplo, ser porteiro de edifício e porteiro de escola, merendeira de hospital e de escola.

Para incluí-los nas atividades formativas escolares, é preciso que cada um deles sinta que a sua tarefa faz parte do processo educativo. Nesse sentido, algumas considerações são importantes:

  • É necessário criar condições para que os profissionais de apoio participem dividindo saberes, alegrias e desafios.
  • Sempre chamar os profissionais de apoio para participar das atividades da escola, ouvir palestras, participar de eventos, atividades culturais e sociais: isso também é formação em serviço.
  • Independentemente da empresa e do sindicato ao qual pertencem, em especial os funcionários terceirizados, as suas condições de trabalho precisam ser bem cuidadas.
  • A preocupação com a escuta e o direito à voz inclui os profissionais de apoio, que assim aprendem, como os demais, a se relacionar democraticamente na comunidade escolar. Do Conselho Escolar, devem participar representantes dos diversos espaços escolares: portaria, limpeza, segurança e cozinha.

Parcerias

É importante divulgar a ideia de que a escola participa de uma rede de instituições, que tem como finalidade a garantia dos Direitos Humanos e da cidadania. Assim, pequenas ações podem ajudar a fortalecer essa ideia, como:

  • Utilizar os espaços da escola para reunir representantes das instituições parceiras (Unidades Básicas de Saúde, conselhos e outros fóruns de participação do bairro e até mesmo da cidade) e organizar discussões com familiares, educadores e alunos, aproximando-os. Um exemplo é o Projeto Vem Cuidar de Mim, um dos vencedores do 1.º Prêmio Municipal de Educação em Direitos Humanos da Cidade de São Paulo (2013), indicado na bibliografia.
  • Em mural, cartazes, jornal etc., divulgar ações dessas instituições em local visível aos profissionais da escola e aos familiares, para que a ideia de rede se fortaleça e chame a atenção da comunidade.
  • Conhecer, ainda que minimamente, as regras e normativas que regem as instituições parceiras.

Proposta de item do Regimento Educacional, elaborada durante o curso Respeitar é Preciso!

“DEMOCRACIA e Apuração da Assiduidade:

A prática utilizada para garantir, sondar, avaliar e auxiliar a assiduidade dos alunos que se ausentarem a partir de 10 dias consecutivos sem comunicação prévia será:
Entrar em contato com a família por meios de comunicação (telefonemas, carta registrada) em primeira instância. De acordo com a repercussão, a escola aciona/toma medidas como: grupo de apoio escolar que visita a família e juntos buscam alternativas para resgatar o aluno. Caso não haja resultado, a terceira medida é acionar o Conselho Tutelar, partindo para as medidas burocráticas.
O objetivo real é fazer com que o aluno não atinja os 25% de ausência para evitar problemáticas que vão além do rendimento escolar, como questões emocionais, psicológicas e sociais.”

Atividades com os alunos

Nunca é demais enfatizar a importância do clima democrático na sala de aula. Para isso, as sugestões e as opiniões dos alunos são essenciais. No entanto, não se pode esquecer que os alunos estão aprendendo a viver democraticamente, o que é um desafio e tanto. Para possibilitar esse aprendizado, além de tudo o que já foi proposto, é fundamental promover situações intencionalmente planejadas para que eles avancem. São bons exemplos: atividades que permitem evidenciar valores, como a análise de notícias e de situações conhecidas; debates sobre textos com base em perguntas mobilizadoras; a discussão de dilemas éticos; a análise de situações de conflito com a proposição de diferentes soluções, dos valores em que cada uma delas se baseia e das respectivas consequências. Fazendo essas atividades, os alunos podem aprender a refletir sobre as questões com distanciamento, considerando sua complexidade, o que é necessário à pratica democrática. Também necessária é a capacidade de participar da vida coletiva com direitos e responsabilidades, como no exemplo apresentado a seguir.

Um projeto para a criação de regras do grupo na sala de aula 

As atividades apresentadas aqui são sugestões, sendo possível adequá-las aos diferentes segmentos de escolaridade e faixas etárias.

A finalidade é criar situações em que os alunos reflitam sobre a natureza do convívio social, compreendam o sentido e a relação que as regras guardam com a garantia dos direitos de todos, se apropriem de sua responsabilidade para com elas e exercitem a prática democrática de defini-las coletivamente.

As necessidades do grupo

Há várias maneiras de criar regras para a sala de aula, como: numa tempestade de ideias (comparando os resultados numa discussão subsequente); em pequenos grupos que apresentam as suas conclusões para a sessão plenária com toda a classe; por meio de sugestões individuais, que o professor reúne para apreciação posterior do grupo. Qualquer que seja a forma escolhida, a atividade pode ser desenvolvida em três etapas:

  • Uma maneira interessante de começar é perguntar aos alunos quais são os seus desejos colocando questões imediatas: O que de legal acontece no convívio entre todos na sala de aula? Há algo que incomoda? O que acham importante para que todos convivam bem? O que precisa ser mudado ou organizado? A lista pode ser bem longa. No caso dos ainda não alfabetizados, o professor será o escriba, registrando numa primeira lista tudo o que os alunos disserem.
  • Com esse primeiro levantamento em mãos, pedir aos alunos que escolham os itens que acham realmente relevantes. O resultado dessa seleção deve ser algo mais curto, selecionando o que for considerado essencial e relacionando esses pontos num cartaz com títulos como “As necessidades do nosso grupo”. Se houver alunos com alguma deficiência, será uma boa oportunidade para aprenderem a incluir suas necessidades no coletivo.
  • Propor a escolha das necessidades que o grupo consegue identificar como “direitos”. Nesse sentido, podem ser feitas perguntas como: Quais dessas necessidades são direitos de todos do grupo? O que são direitos? Por que algumas necessidades são direitos e outras não? Depois, para concluir essa atividade, esses direitos podem ser relacionados num cartaz intitulado “Os direitos do nosso grupo”, perguntando aos alunos os motivos de suas escolhas.

Responsabilidades do grupo

Para reforçar a relação essencial entre direitos e responsabilidades, o professor pode solicitar aos alunos que relacionem, para cada direito, as responsabilidades necessárias para que esses direitos sejam efetivados. Depois, pode-se confeccionar um novo cartaz com o título “As responsabilidades do nosso grupo”. Por exemplo: o tópico “Todo mundo deve se sentir seguro nesta sala” pode ser relacionado a “Todo mundo tem a responsabilidade de não insultar ou ferir alguém, nem fisicamente, nem os seus sentimentos”.

Viver com direitos e responsabilidades

Uma vez que o grupo tenha concordado quanto à sua lista de direitos básicos e responsabilidades, é importante expor essas listas para que sempre possam ser identificados ou alterados, se necessário. Às vezes, o professor ou os alunos podem quebrar as regras, ou podem surgir situações que não estejam contempladas na lista, ou podem surgir conflitos quando as regras do grupo não forem compatíveis com as regras de outros professores ou com a administração da escola. Essas situações exigem discussão, uma cuidadosa consideração sobre as razões de cada questão colocada e, se necessário, alterações ou novos combinados. A qualidade da convivência alcançada pelos acordos coletivos, e não pelo simples controle, é sempre mais difícil de obter, e o processo de se chegar a eles requer compromisso e negociação cuidadosa.

Muitas outras atividades devem e podem ser incentivadas e realizadas com a comunidade escolar envolvendo prioritariamente os alunos, como: a organização dos grêmios; atividades em que os alunos possam discutir as questões da escola, como a elaboração de um jornal periódico (mensal, semestral ou anual), programas de rádio, peças teatrais e vídeos; palestras e oficinas sobre temas do convívio escolar e de outras questões da vida democrática, conduzidas por professores, familiares, especialistas ou pelos próprios alunos.

BIBLIOGRAFIA